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A RELIGIÃO É A LÓGICA DA CULTURA - Prof Raul Iturra

Unidade 1-Aula 3. A história do discurso religioso. 12,10 04.30-8-14

Adam Smith1 foi o exemplo de como na teoria económica há princípios religiosos inseridos nos textos de economia. Procura mostrar no seu C.I, livro V, vol. II, do libro citado em nota de rodapé, que as pessoas são disciplinadas e reconhecem a hierarquia das capacidades do mais habilitados por sobre os menos habilitados para lutar. Lutar na guerra ou lutar na construção das suas vidas. Debate que esse menos habilitado é capaz de ficar igual ao mais sabido, pelo esforço que empreende no meio do seu querer saber. É o investimento que um indivíduo faz na sua necessidade de ser semelhante aos outros. Sente a sua obrigação de ser igual que o resto de população. Parece-lhe uma obrigação que nasce da disciplina social de trabalhar, logicamente imposta em nós pela denominada Lei Natural derivada da natureza religiosa do ser humano, implantada em nós pela divindade que governa as nossas vidas.

Porém, dam Smith que diz que o ser humano tem una inclinação para o trabalho, uma habilidade que deve usar. Um princípio retirado dos ideais cristãos defendidos desde o Século 4º da nossa era por Agostinho de Hipona2 e retirado por Hipona da filosofia de Platão3.

Este princípio define que todo ser humano tem um sentimento de aceitar que a sua criação deriva da existência de uma entidade suprema que a razão não consegue demonstrar. Esta ideia tem sido debatida ao longo de séculos, especialmente, cinco séculos mais tarde por Tomás de Aquino4.

Tomás de Aquino do Século XIII, Universidade de La Sorbonne em Paria, havia retomado as ideias de Aristóteles, ensinadas entre 384-322 antes da nossa era, nos liceus de Estagira, a sua cidade natal e de Atenas (história em https://www.google.pt/search?hl=pt-PT&source=hp&q=Arit%C3%B3teles&gbv=2&oq=Arit%C3%B3teles&gs_l=heirloom-hp.3..0j0i10i30j0i5i10i30l7j0i10i30.3109.12968.0.17828.10.10.0.0.0.0.172.1390.0j10.10.0....0...1ac.1.34.heirloom-hp..0.10.1390.Eudbud4TbaQ , Aquino, dizia eu, afirma-se no estagirita para dizer que todo ser humano é um princípio de racionalidade e que a fé, que Agostinho debateu a seguir Aristóteles, defendia que toda inclinação ao trabalho é instilada no ser humano pela divindade que o tinha criado, o que Aristóteles não debate. Hipona defende que há uma forma e maneira lógica de entender a realidade pela razão, em que ciência e fé, dogma e razão, não parecem ser conceitos antagónicos, são conceitos complementares necessários para não perturbar a interacção social.

Aquino retoma as ideias de Aristóteles, não ouvindo os argumentos de Hipona, que escrevia por fé e arrependimento e não por lógica. Na sua Summa Theologica, Tomás de Aquino5 argumenta que a lei natural é essa parte do ser humano aplicada ao entendimento do mundo, porque a criação passa a ser um facto da racionalidade da pessoa, evidenciada na sua própria existência. A teoria da Lei Natural tem um primeiro princípio na Questão 94 N. 2 ao dizer que fazer o bem é devido bem como evitar fazer o mal. Acrescenta Tomás de Aquino na sua Questão 94 a premissa de se a lei natural será um hábito ou resultado dum raciocino, para se responder a si próprio de que a lei natural é derivada de preceitos racionais análogos as demonstrações da qual deriva o saber teórico da prática da vida: a razão humana é única e igual em todos e a lei é parte da razão.

Não é bem Tomás de Aquino o mentor intelectual – textual de nosso tempo, e de Adam Smith. Era Aristóteles, um intelectual distante no tempo histórico, mas não nas ideias. É a proposta que faço e que me interessa analisar em este texto. É a racionalidade humana e a origem de esta ideia, o que me interessou para poder procurar a fonte da denominada Questões Disputadas na Summa Theologica já citada, cuja origem é bem mais longínquo que o da existência de Tomás de Aquino e de Aristóteles. Ideias que formam parte do Catecismo de João Paulo II, assinado em 19926.

Porquê racionalidade e não propriedade ou cobiça, ou ainda, avareza ou outros conceitos? Parece elementar falar de dinheiro quando se pensa na Economia. No entanto, e no meu deambular entre os seres humanos de diversos sítios e continentes, fui capaz de apreciar não apenas a hierarquia da qual Adam Smith fala, bem como da racionalidade aplicada pelas pessoas no seu interagir. A interacção social, esse reli-gare como tenho definido, é a escolha de outras pessoas para a continuidade da produção de seres humanos e de ideias que permitam gerir pessoas e bens ao longo da História. Interacção social, pedra fulcral da sociedade. Razão, base do agir dos indivíduos entre si para trabalhar. Razão que parece desaparecer quando o não se entende no agir dum outro indivíduo e o seu contexto; ou, da capacidade de outro indivíduo e do seu contexto no momento que lhe calha viver. “Como, em castigo do pecado, se tinha dado a passagem do paraíso da liberdade para a escravidão deste mundo, por esse motivo, a primeira frase do Decálogo – primeira palavra dos mandamentos de Deus – incide sobre a liberdade: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair da terra do Egipto, de uma casa de escravidão (Êxodo 20,2; Deuteronómio 5,6)”7.

Por outras palavras, o que interessa dizer é que o religar ou tornar a unir, é juntar as pessoas habilitadas pelo uso da razão e não escurecidas pelo pecado. O pecado aparece como um conceito central no entendimento dos princípios económicos na Teoria da Religião. Pecar, é desconhecer a capacidade do outro e sentir-se por cima de um outro, menosprezar as capacidades ou saberes, mesmo o tempo e afazeres de uma outra pessoa. A racionalidade está no centro das ideias do Decálogo, é a base das ideias económicas para uma pessoa poder trabalhar. Para trabalhar, deve entender e para entender, aprender, imitar, raciocinar.

A racionalidade é a metáfora da Divindade que deve ser amada por sobre todas as coisas por causa de ter retirado ao ser humano da escravidão de ter que servir a um outro sem nenhuma recompensa pela feitura de um bem. O ser humano age dentro de princípios lógicos denominados na teoria religiosa cristã, bem como os estímulos práticos para a acção, como denomina Weber8 o princípio ético que leva a trabalhar nas religiões de Confúcio, Hindu, Budista, e Islâmica. Estímulos práticos baseados na negação do ego como superior ao dos outros, de forma e maneira que é preciso concorrer para ganhar e ser igual aos demais. Princípios práticos existentes na teoria cristã, cujo objetivo é amarem os outros como a si próprio.

Principio prático que fala de que a terra é da propriedade de todos, passível da adquirir individualmente se é comprada, herdada, doada, mas nunca retirada do denominado bem comum, que raramente se pratica: todos querem ser ricos. A teoria cristã fala do bem comum como uma maneira de criar lucro ao serviço dos outros, sem colher todo o que existe ou o resultado do trabalho, para enriquecer individualmente. Diz o Catecismo citado, no seu artigo 2403: “O direito á propriedade privada adquirida pelo trabalho ou recebido de outrém por herança ou dádiva, não vem abolir a doação original da Terra ao conjunto da Humanidade. O destino universal dos bens continua a ser primordial, embora a promoção do bem comum exija o respeito da propriedade privada, do seu direito e do respectivo exercício”9. A teoria religiosa define o direito de cada um a possuir recursos para poder trabalhar. Porém, o princípio básico que estimula o comportamento humano parece ser a posse de bens que permitam a subsistência e em boas condições. Retirando do outro a possibilidade de subtrair o que, por meio do contrato, é feito entre pessoas com capacidade suficiente para entender as formas de organizar os recursos e produzir. Por outras palavras, como diz o Catecismo de João Paulo II, “ Não roubarás (Êxodo 20, 15; Deuteronómio 5,19)” ou “Não furtarás (Mateus 19, 18)”10. Dois conceitos para um mesmo facto, não retirar injustamente o bem do próximo, o qual, e por causa de ser a terra de todos, teve acesso como fruto do seu pessoal trabalho. Se assim não acontecer, haveria um flagrante delito de usurpação. O dominicano Aquino tem resposta para o caso acontecer.

Aquino elabora uma teoria sobre a justiça e diz que a justiça é achada no respeito à propriedade privada, na troca de bens por justo preço, o lucro e a proibição da usura, ou, por outras palavras, todo indivíduo é capaz de raciocinar e trabalhar para si e a sua família, base da sociedade, sem reter para si parte nenhuma do bem de capital, como acontece com a usura e a avareza. É nesta teoria que é inspirado o citado Catecismo, doutrina oficial da Igreja Católica Ocidental, desde que o Papa Leão XIII em 1879, declara o pensamento de Tomás de Aquino, a teoria oficial da sua Igreja. O que analisaremos no seu minuto.

Interessa apenas dizer que os princípios económicos da Teoria Religiosa estão baseados no trabalho. Desde os textos do Géneses até os das outras teorias citadas por Max Weber, o trabalho ou a conversão da matéria em bens de troca como Adam Smith refere, é a pedra filosofal da interacção. Todo grupo social hierarquiza os seus membros na base da sua disposição, disponibilidade, habilidade e habilitações para produzir, bem como na quantidade de bens que é obtida dentro do lucro permitido pelo contexto da conjuntura que vive o ser humano. Seja classe social, como Marx tem definido na base das suas análises económicas das ideias debatidas por Hegel no seu Princípios da Filosofia do Direito de 1827·, no texto Crítica da Filosofia do Direito de Hegel de 184411, seja estrato social à maneira de Talcott Parsons (1937)12 e Robert King Merton (1957)13, bem como do grupo social à Malinowski (1922)14, as pessoas estão individualmente classificadas na base dos princípios económicos derivados da religião.

Raul Iturra

Reescrito a 30-8-14

lautaro@netcabo.pt



























1 Smith, Adam, (1776) 1983: A riqueza das nações, Vol. II, Calouste Gulbenkian, Lisboa. Sitio do texto e debate, em http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Adam+Smith+An+enquiry+into+the+reasons+and+causes+of+the+wealth+of+nations&btnG=Pesquisa+Google&meta=

2 Agostinho de Hipona (412-426) 1998: A Cidade de Deus, Calouste Gulbenkian, Lisboa. Sitio do texto e debate, em http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Agostinho+de+Hipona+A+cidade+de+deus&btnG=Pesquisar&meta=

3 Platão (c. 400) 1990: A República, Calouste Gulbenkian, Lisboa. Sitio do texto e debate, em http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Plat%C3%A3o+A+Rep%C3%BAblica&btnG=Pesquisar&meta=

4 Tomas de Aquino (1267-73) 1969: Summa Theologica, University of Nôtre Dame, Indianapolis. Sitio del texto e debate, em http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Thomas+Aquinas+Summa+Theologica&btnG=Pesquisar&meta=.

6 Catecismo da Igreja Católica, 1992, João Paulo II, publicado em Português em 1993, Gráfica de Coimbra. Sítio do texto e debate, em http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Catecismo+Igreja+Catolica&btnG=Pesquisar&meta=

7 Catecismo da Igreja Católica, op.cit., pg. 451. Ver nota anterior para site. Bíblia e livros referidos, site http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=B%C3%ADblia+%C3%89xodo+Deuteronomio&btnG=Pesquisar&meta=

8 . Weber, Max, (1915-1919) 1998: La ética de las religiones universales, Taurus, Madrid. Sítio de debate http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Max+Weber+%C3%89tica+Religi%C3%B5es+Universais&spell=1 Texto, na pagina web Les Classiques en Sciences Sociales .

9 Catecismo da Igreja Católica, ob. cit. pg. 508. Sitio nota 7

10 Catecismo da Igreja Católica, pg. 507. Sítio de debate nota 9

11Marx, Karl, (1844) 1977: Towards a Critique of Hegel’s Philosophy of Right, Macmillan, and London. Sitio de debate e texto, em http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Karl+Marx+Towards+a+Critique+of+Hegel%27s+Philosophy+of+Right&spell=1

12Parsons, Talcott, 1951: The social system, The Free Press, New York. Sitio de debate e troços do texto em http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Talcott+Parsons+The+social+system&btnG=Pesquisar&meta=

13Merton, Robert K., 1957: Social theory and social structure, The Free Press, Glencoe. Sitio de debate e extratos texto http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Robert++Merton+1957+Social+theory+and+social+structure&btnG=Pesquisar&meta=

14Malinowski, Bronislaw, 1922: Argonauts of the Western Pacific, Dutton, New York. Sitio de debate e troços texto http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Bronislaw+Malinowski+1922+Argonauts+of+the+Western+Pacific&btnG=Pesquisar&meta=. Possível texto no sitio Les Classiques en Sciences Sociales

A TEORIA RELIGIOSA COMO LÓGICA DA CULTURA* - Prof Raul Iturra

 … para a nossa filha Camila Iturra- González de Ilsley, no dia do 2º aniversário do seu terceiro filho. Em procura da definição do capital financeiro…                                     1.Introdução.

Falar da religião como lógica da cultura, é uma hipótese ou proposição que nem sempre é entendida com facilidade. Por vários motivos. O mais evidente, penso eu, é o processo do etnocentrismo: falar de religião num País Católico Romano como Portugal e larga parte da Europa e outros Continentes, é despertar reações de adesão às ideias de fé como sentimento emotivo de associar o conceito religião ao facto de acreditar numa existência essencial ou em uma divindade. Outra reacção, é a de pouca simpatia para com o conceito e o que parece incluir: essa mencionada fé como essência da religião. Reacção herdada das ideias republicanas que Itália, França, Espanha, Prússia, Alemanha, Portugal configuraram ao começo do Século XX, já esboçadas no Século XIX, especialmente pelos membros da Carbonária ou organização de pessoas de denominadas tendências liberais, por quererem lutar contra a Monarquia que governava os vários países do Continente, entre os quais, Portugal. Tenho desenvolvido este tema num outro texto meu de Outubro de 2002, que é possível de consultar, para maiores detalhes1. O presente texto, limita-se, apenas, a propor ideias para definir conceitos que orientem para o debate do tema da religião como lógica da cultura e desenhar assim uma teoria que nada tem a ver com uma igreja, mas sim com a economia e a sua política financeira. Igreja, outro dos conceitos problemáticos existentes, para definir religião como lógica da cultura. Confunde-se o processo ritual de entender o mundo ou religião, com a estrutura que acolhe esses processos criados pelos seres humanos. Processos muito bem relatados e esclarecidos na heterogeneidade de modelos usados para entender a interacção, dentro das teorias da Ciência Social. E, finalmente, pensa-se que a lógica da cultura é a interacção social que orienta o comportamento a partir da memória social. Mas, pergunto, onde é que fica essa orientação, como se define a economia e a sua política?

 

A obra toda de Max Weber, entre outras, é a minha pedra basilar para levantar a questão da religião ser a base da estrutura da interacção social2. Mais do que uma ideia, é uma afirmação retirada da análise feita pelo autor, na base dos dados compilados no seu trabalho de campo em 1890-913, entre o operariado industrial e rural ao Sul do Rio Elba. Essa área é denominada Silésia, e pertenceu à Polónia, uma outra porção do território à Checoslováquia, enquanto outra, ao mais extenso Estado Germânico dos tempos, ou Reino da Prússia, reino base de unificação dos Estados Germânicos em 1863, sob o poder do Império da Prússia, até este desaparecer em 1947. Weber, na sua análise, combina nomes como Prússia, Alemanha, Polónia, porque à época do seu estudo, a História era outra. Apenas que, sem dar por isso, não inclui o debate fundamental: os Prussianos e Alemães, eram de lógica luterana, os prussianos de Silésia, eram de lógica católica romana. Essa lógica desencontrada, sob o mesmo Estado ou Império, marca uma diferença que Weber pretende explicar como diferença de economias em desenvolvimento- e que denomina Alemã, e economias estagnadas ou dos camponeses ao Sul do Rio Elba- que denomina tradicional. No entanto, ao que parece, o facto a analisar é uma diferencia de lógicas ou uma forma contraditória de comportamentos orientados por pensamentos culturais diferentes, a conviverem durante centenas de anos, sob o poder económico e legal do mesmo Estado, muito embora, com textos legais diferentes, da forma que exprime o relatório de Weber. Ao longo das páginas do texto, analisa como um operário alemão do Norte, rural ou industrial, é capaz de organizar uma produção económica estável na base de dedicar a terra a cultivos intensivos, e investimento conjunto em indústrias para transformar bens básicos em produtos para o mercado. Sistema que permite uma continuidade no trabalho operário individual e familiar, sistema económico que permite uma acumulação de capital, base da hipótese do seu texto de 1904-5, A ética protestante e o espírito do capitalismo, referido em nota de rodapé. Capacidade de trabalho estável na base do lucro obtido do investimento do capital, que ele denomina alemão. Capital alemão que, de facto, é da Prússia, o Estado germânico já referido, organizado como Império. No seu texto, compara a evolução da propriedade organizada na base do capitalismo disciplinado dos proprietários rurais prussianos – alemães na época da escrita de Weber –, na sua procura de menor investimento em mão-de-obra ou operariado. Operariado que é possível de encontrar entre os camponeses da Prússia do Sul, ou Silésia nesse tempo, anexada ao Estado da Prússia no Século XVIII e parte do Império Alemão organizado por Bismarck em 1863. Os prussianos do Sul, eram pessoas dedicadas à economia rural e florestal e de gado, sem posse da base económica para realizar estas actividades, e sem trabalho estável, dependentes como estavam do proprietário latifundiário ou Senhor das terras, apenas capazes de trabalharem as terras do Senhor, receber como pagamento bens das terras e industrias dos grandes proprietários, trabalhadas pelos fredmen ou estrangeiros- komormiks ou camponeses do Sul do Rio Elba. Em desespero para manter a família viva e coesa, recebiam para trabalhar, como grupo doméstico, troços para o cultivo de bens para consumo pessoal. Desespero que procura nas formas tradicionais da vida social komornik, uma estabilidade solidária, recíproca, na base de uma lógica cultural mítica, formas que parecem alternativas à interacção social prússica o Intleuste, luteranas, dentro das formas tradicionais, definidas pelas suas ideias religiosas já referidas ou romanas. Os komormiks ou operários do Sul do Rio Elba, eram solidários entre eles, recíprocos no seu agir como romanos católicos. Bem ao contrário, os alemães do Norte tinham definido a sua vida como autónomos, em procura de alternativas, livres ou luteranos que determinam a sua vida da forma que vamos analisar mais em frente. Salienta Weber: “Les conséquences de la désorganisation capitaliste apparaissaient clairement en Silésie. Certains phénomènes y accompagnaient la grande exploitation moderne: l’importance du travail féminin, l’absence d’élevage, et surtout d’une exploitation indépendante, pour les ouvrières sens terres, un habitat ouvrier dans des maisons familiales (Familienhäuser) semblables à une caserne. En faisant exploser l’ancienne organisation du travail, la grande exploitation moderne a crée un prolétariat rural face au quel se dresse un ordre très puisant d’employeurs qui aspirent à maintenir la gestion patriarcale, malgré la dissolution de la communauté d’intérêts et les réorganisations de toutes les relations sociales par l’économie monétaire…4. Bem gostava de reproduzir todo o texto, mas deve ser o leitor a tratar do assunto e não eu. Apenas, comentar que a riqueza dos proprietários da Prússia, bem como do operariado ou Instleute denominados Alemães por Weber, baseiam o seu lucro, apenas nos investimentos devotados à salvação das suas almas na outra vida, e os komormiks procuram nas ideias cristãs romanas de reciprocidade, caridade e solidariedade, a sua base económica de trabalho, um investimento a partir do referido sentimento de fé; investimento que consiste na ressurreição e manutenção da forma patriarcal cristã católica, para se defender dos pagamentos feitos pelos Senhores à mão-de-obra Silésica, polaca ou komormiks, escolha feita pelos patrões de mão-de-obra Polaca – salários mínimos, vida em barracas, comida escassa. A força de trabalho descoberta por Weber no Sul, era mais barata pela incerteza da estabilidade do trabalho e pela sua não ligação jurídica à cidadania outorgada pelo Império Alemão da época da análise feita por Max Weber. É essa a época que o autor refere neste e outros textos em que debate a correlação entre economia e religião5 e que tem acordado em mim a ideia de que a economia deriva da religião, bem como essa outra que preparo, a análise pela sociologia económica dos conceitos de cultura e reciprocidade. Conceitos referidos como troca dádiva, sem se analisar a mais-valia que há neles, como vamos ver na segunda parte deste texto.

 

Tornando a Weber, é preciso dizer que os proprietários denominados alemães, são desdenhados em prol de mão-de-obra imigrante, uma mão-de-obra que organiza, para se defender da miséria, em consequência, uma solidariedade familiar, que é encorajada pelo proprietário fundiário da terra. Uma solidariedade baseada nos mitos cristãos, especificamente católico romano, que tratam de família como uma organização da qual depende o trabalho dos seus indivíduos. Weber analisa os mitos cristãos que ajudam a estruturar o trabalho da terra, análise que leva Maurice Halbwachs a comentar que Max Weber tinha sido capaz de entender como esses mitos tinham sido usados pelos proprietários para incrementar a sua riqueza6. Mitos baseados na relação social patriarcal, quer do Antigo, quer do Novo Testamento, como se denominam esses textos míticos, ou Bíblia. O Patriarca é o organizador do trabalho da família que, no caso da análise de Weber, procura um processo produtivo que permita juntar bens, poupar parte da recém criada moeda no Reino da Prússia primeiro, no Império Alemão depois, durante o Século XIX. Poupança para investir ou para sair da autoridade do Senhor da terra. Como resultado de uma economia que investe individualmente em trabalhos industriais ou em trabalho de lavouras na pequena propriedade rural e vendas autónomas no mercado, com o apoio e a colaboração do resto dos membros da família, que trabalham a indústria ou a terra de forma recíproca e solidaria, como manda a lógica da sua cultura. Weber é capaz de nos mostrar de forma empírica, pela primeira vez na Ciência Social, como as novas formas da economia são concorrenciais com as formas tradicionais e seculares de activar a vida social para produzir e reproduzir, donde as formas tradicionais, dominam na organização de uma economia doméstica solidária para o grupo mais desfavorecido.

 

Não é em vão que, Weber, fundador do Partido Vermelho da Alemanha, membro do partido como socialista, procure entender como e porquê o operariado rural não consegue organizar uma forma de protesto que permita a organização sindical, já criada por Charles Fourier7 na França e Robert Owen8 na Grã-bretanha, ambos fundadores do conceito socialismo, como forma de se opor ao de individualismo desenvolvido em 1776 pelo Presbítero Adam Smith9. Fourier e Owen, cansados dos resultados da teoria individualista da economia desenvolvida na Grã-Bretanha, embora temperada pelo socialista anglo-português David Ricardo10 e pelos luteranos Karl Marx e Friedrich Engels11, criaram a palavra socialista, conceito pelo qual Max Weber lutava e perguntava-se porque é que os operários agrícolas do Sul, como os do Norte, não eram capazes de organizar um movimento de socialização dos seus trabalhos, dos seus bens e transformar as pequenas poupanças em lucro. A resposta que encontra é que a repentina aparição da forma de pensar individual da economia, é uma contradição causada pela sua pertença a famílias de colaboração solidaria e caridosa, na base das ideias romanas. Ideias económicas em confronto com o pensamento de que a propriedade é param todo o grupo doméstico e familiar mais alargado. A terra, definida pela doutrina escolástica dos romanos, é um bem universal que, no entanto, pode ser adquirido por compra ou herança, como diz Tomás de Aquino, citado e analisado mais em frente. As obras artesanais, ou ainda o trabalho assalariado na indústria prússica, estavam a passar a ser um dever individual. Esta contradição requer uma pergunta ao Livro da Vida, ou Bíblia. A resposta à vida e o dar conta da mesma, é parte de um dever muito particular, uma relação do homem com o seu Criador. A partir destas ideias, Weber compara a cultura romana dos alemães do Sul, aprendida por eles apenas por ouvir, com a dos Alemães do Norte, sabida a partir da leitura do Livro da Vida.

 

Este trabalho de campo, ou esta etnografia que tenho tentado sintetizar, é a base da análise sociológica de Weber da teoria luterana da Predestinação, no seu livro já citado de 1904-5. Os romanos ou católicos tinham um Sacramento denominado Confissão, pelo qual podiam-se comportar como fosse mais conveniente dentro da sua forma de vida, para se arrepender mais tarde caso a solidariedade, reciprocidade, caridade e amor ao próximo for traída, traição que batia nas formas da economia usada para produzir e reproduzir. Calvinistas, Luteranos, Presbiterianos, deviam comportar-se de forma laboriosa e aberta, porque não havia perdão dos denominados pecados ou faltas cometidas na gestão de bens e de pessoas: se o comportamento era negativo, conforme as crenças do tempo da Reforma Religiosa do Século XVI, a pessoa não tinha perdão e à sua morte, condenava-se ao inferno, muito bem detalhado por Jean Calvin12 e Martin Lutero13. Tema que tenho desenvolvido em outros textos. Neste, é apenas preciso salientar como é que Max Weber, como referi, entre outros autores, tivera a oportunidade de observar de que a teoria religiosa não permitia a mudança das formas culturais de recriar a vida social, que denomina de formas tradicionais e históricas. E, para o leitor entender estas breves palavras que pretendem definir teorias que vou referir a seguir, parece-me necessário definir o outro lado da moeda da religião: reciprocidade e cultura. Dois conceitos que, por usados, parecem não ser muito importantes de definir. Mas, permita-me o leitor insistir que para entender que a religião é a lógica da cultura, não é apenas necessário ler Teologia, bem como debater estes dois conceitos.

 

O que interessa, para entender que a religião é a lógica da cultura, é falar do conceito de cultura e de essa outra cara da religião, denominada por Friedrich Hegel14, Karl Marx15, Ferdinand Tönnies16, Émile Durkheim17, Marcel Mauss18, Claude Lévi-Strauss19, e Maurice Godelier20, entro outros, reciprocidade e solidariedade. Ou, os mais modernos, como Karl Widerkist21, Robert Thorton22 e Stuart White23.

 

Conceitos a que queria passar agora, para facilitar a leitura deste árido texto, texto que parece arremeter contra o etnocentrismo romano do País Católico ao qual é endereçado, mas que pretende relativizar esse processo da cultura – o etnocentrismo – e pretende sugerir ao leitor que, sem saber religião, não consegue explicar a cultura de um povo por não conhecer a sua lógica ou pensar que essa lógica tem a ver com ritos da Igreja ou Teologia de Padres e não ser tema importante para cientistas, como Weber soube demostrar, tal e qual Émile Durkheim e Karl Marx, já referidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quero ser empresária numa Turquia livre

Noutras paragens luta-se pela liberdade de expressão e de iniciativa individual. Uma jovem mulher quer ser empresária e quer ver a sua orientação religiosa respeitada. Outra jovem mulher, dizia há dias na RTP : " Eles metem-se na nossa vida. É na religião , no que bebemos e nunca mais vão parar". "Eles", os sem rosto que a partir do estado tudo querem controlar e retirarem-nos a nossa vida pessoal.

"“Não sou esquerdista ou anti-capitalista. Quero ser uma empresária e viver numa Turquia livre”, acrescenta.

Mustafa Kemal Atatürk, fundador da república secular criada em 1923 sobre as ruínas do império otomano, encorajou as mulheres a usar roupas ocidentais em vez dos lenços e promoveu a imagem da mulher com uma profissão. Ironicamente, Erdogan é visto actualmente, para o melhor ou pior, o líder mais dominante na política turca desde Atatürk.

A luta é sempre esta. Entre a democracia, a liberdade, a sociedade civil e o poder discricionário do estado e dos seus subsídio - dependentes. Nunca devemos esquecer isto. A luta foi, é e será sempre a mesma! Na Turquia ou em Portugal!