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BandaLarga

as autoestradas da informação

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A PEDAGOGIA DO OPRIMDO AS MINHAS LEMBRANÇAS DE PAULO FREIRE

 1. Uma noite.

 

Eramos um grupo de sete ou oito pessoas. À noite. Quando os camponeses têm que sair de casa e entrar numa sala de aulas. Eramos sete ou oito; seis deles, calados e de vista calmai, sobre a mesa. Inquilinos chilenos, picunche, huilliche, ou com um certo ancestral ibérico. Mãos no colo, chapéus na cabeça, manta sobre o corpo – um poncho. E eu perguntava: "os vossos filhos vão à escola?”, eles, olhos fixos na mesa, dizem "Sim". Monossilábico. Difícil de falar. Difícil de conversar. E eu, "a qual?" e eles " a do fundo". Silêncio. E pergunto: "e os filhos do patrão, também?" E eles reagem vivamente: "Não, não, nem pensar! Eles vão a um colégio bom, lá longe, em Santiago. Aí onde nem castelhano se fala...!" O que era dito com orgulho e brilho nos olhos. E eu, "Mas, de certeza, os vossos filhos aprendem também outras línguas" "Não os nossos filhos não, são muito burros", com raiva respondem dois. "Burros?", pergunto. Responde um, "feitos por nós!". "E para quê?". "Para que saibam trabalhar, pois", diz o mais calado, esse ao qual eu endereço a pedrada "Burro como o senhor que nem sabe castelhano...", digo com reticência. Ao qual ele diz "que os meus pais não me tinham deixado ir à escola, para trabalhar com eles", "e para eles" acrescento, "porque havia que dar trabalho para o patrão, pois iñor", me diz com força. "Não sabe que se não dermos ao nosso pai tempo para trabalhar nas terras do senhor, o pai, a mãe e nos, iamos à rua?”. "Ir à rua, ir à rua, ser despedido?" pergunto, e todos dizem "pois". "Então o patrão é má pessoa!", sai da minha boca. "Oiça, não, ele até nos dava presentes para as nossas mulheres, e pão às sextas-feiras". "Presentes e pão, de favor?". "Pois". "De favor", reitero. Silêncio. Calam. Pensam. Calo. Silêncio. Pego no giz, escrevo "o patrão é bom" e desenho uma figura de homem com uma auréola na cabeça e digo "o São Patrão", e todos riem, e às gargalhadas quando eu reitero a santidade do homem. Esse que ia “às ‘Uropas’ todos os anos” aí onde “eu nunca tenho colocado os pés” conclui depois de duas horas de compararmos a vida deles com a do proprietário do latifúndio, o "patrão, dono do fundo". E assim, pela noite dentro, até repararem como é que eles tinham esses operários sido usados e abusados. Um resornar me diz que um já dorme, e fechamos a sessão.

 

2. As noites.

 

Das sessões de debate de conceitos chave na epistemologia rural: trabalho, salário, lei, viagens, lazer, filhos, escola, aviões, família, outros. Genealogia deles e do proprietário; contexto deles, e do proprietário; descanso deles, e do proprietário. Sindicato. Direitos. Cadeia. Polícia. Deus. Ordem. Disciplina. Igualdade. A lei do mais forte. A estratégia do mais fraco. O medo e a liberdade. Tecnologia. Animais. Como curar esses. Como fugir da maquinaria, que bate e parte os ossos. Método comparativo, na observação participante do convívio quotidiano nas casas deles, de noite a noite, periodos prolongados de convívio. Método relativo, quer para eles entender, quer para eu entender. Realativização do sentir mais forte, o etnocentrismo, esse ideial de nos, que não permite a comunicação, hierárquicanmente organizada. E as noites. E as noites que permitiam essas noites de debate e transferência de entender o real contextualizado de cada um, de esses compatriotas separados pela Historia da formação do seu estrato. Essas noites, quando reunia sob árvores do mato, aos homens das mulheres com as que eu falava durante o dia, enquanto andava e andava pelas caminhos rurais. Essas mulheres que davam chá e perguntavam a vida. Esses homens que apareciam quando ninguém podia vê-los , chapéus sobre a face, lenços para esconder, disfarçar, o queixo. O medo á divindade da lei policial do patrão, a divindade que repressentava a pessoa do patrão – o proprietário de terras e pessoas. Essa frase, que tanto ouvi durante meses de trabalho de campo, proibia que se identificassem uns aos outros. Até nem falavam, porque “sabe-se lá se o senhor, ou qualquer um, não vai contar isto ao patrão, depois, pui inhor" diz um, na sua casa. Eu, inexperiente, percebo que não sabem que têm direito à terra, que podem denunciar o patrão e ficar com quintas do latifúndio, serem co-proprietários e deitarem fora o grande absolutista fundado e instituido pela invassão ibérica do século XVI. Inexperiente. Pelos meus anos.Pelo costume de classe que ia comigo. Inexperientes eles. De pensar que podiam agir e avançar para dentro da produção conjunta da terra própria. Inexperientes. De que a lei permitia essa mudança. Inexperientes da mudança e a temer a punição divina e terrena. Inspirado, levo a passear pela zona ao Bispo, meu amigo, sem Mitra, anel ou báculo. De preto, ao de roxo. E aos Padres.Para dizerem Missa no meio das pessoas e na sua língua natal, sem latín, a língua Romana Universal. Inspirados, agimos mão na mão de Paulo Freire, durante horas, as ideias e os gestos, para procurar uma alternativa possível para hábitos históricos rigidizados no tempo, pelo tempo. Estruturados no ideal, na cultura rural, na cultura urbana. Noites dos anos 60, primeiro, e da época da Sua Exelência, o Sr Presidente da República Dr. Salvador Allende, depois. Quando os inquilinos camponeses, quer huilliche, ou picunche, ou mapuche mestizo, quer chilenos genéticamente mesturados, ou chilenos com um certo ancestral ibérico, nenhum deles sabia entender de que tinha poder político. A rigidez cultural da Historia, o não permitia. Para o nosso desespero, feito serenidade no relativismo cultural do trabalho de campo.

 

3. Os conceitos.