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BandaLarga

as autoestradas da informação

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SERMOS PAIS. A PROFISSÃO MAIS ANTIGA E, NECESSARIAMENTE, MAIS DESPRESTIGIADA DO MUNDO.- Prof Raul Iturra

 

 

 

Para a minha neta Maira Rose Van Emden.

 

 

 

 

Um dia, sem sabermos, procriamos. A paixão e o desejo desabafam entre dois que, sem darem por isso, passam a ser três. Durante um tempo, óvulo impregnado a crescer no ventre materno. A seguir, os gritos que causam o facto de dar vida. E, instantes depois, começamos a sentir a delícia de sermos pais. Condição que dura apenas um cisco da nossa vida, um minuto das várias horas que estruturam o nosso ser histórico. Procura amamentar-se, as caricias, o aquecimento do colo materno, e, àsvezes, o cheiro do corpo paterno. Normalmente, a confecção não é a pronto-a-vestir: fica no topo de todos, o percurso de transferir ideias, afectividades, palavras, sentimentos. Especialmente, sentimentos da servidão do adulto que faz ver, à criança que procura, com olhos que ainda não vêem, qual é o seu lugar no mundo. Tal comoos adultos que, além da paixão e do carinho pela vida em comum, tentam entender o seu papel perante o confronto que aparece no meio deles que são a sua origem. Sermos pais é um sentimento que parece durar até ao derradeiro dia das nossas vidas: esse interesse, essa procura pelo bem-estar, o trabalho até às tantas, para melhorar as condições do lar. Melhores condições, por causa do novo ser do qual se deve cuidar. Um interesse que começa no dia do primeiro movimento, ainda no corpo da mãe, ou antes, no imaginário dos dois: o casal reprodutivo na procura de se ver projectado num terceiro, como esse outro mito da nossa cultura, Pai, Filho, e Espírito Santo. Sermos pais, uma antiga profissão que dura um curto espaço de tempo.

 

Porque a primeira questão que aparece na mente do novo ser, é perguntar-se, tal como Roy Lewis no seu texto de 1960, Por que comi o meu pai?, na procura de o eliminar; imagina novas e melhores maneiras de brincar à John Locke de 1666, para queos seus adultos venham a criar um Ensaio sobre Tolerância com ele, ou a magicar, à Rousseau de 1754, uma explicação sobre A origem de desigualdade entre os seres humanos. A criança, na sua epistemologia em permanente desenvolvimento, magica, para depois, na sua puberdade, agir; no seu crescimento, praticar; na sua vida adulta, cortar relações, abrir outras, desconhecer a relação original, esquecer o amamentar, o aquecimento, o divertimento que teve na idade da nascença. Apenas por transitar de um momento de subordinação aos adultos, ao momento de se confrontar com eles. Nem sabe ainda que, senão se confrontar, não conseguirá dois factos: ser esse novo ser, também ele, um adulto, com autonomia e independência necessárias para confrontar a concorrência da vida; ou ter o carinho distante erespeito por parte dos seus pais. Porque ou a criança mata os seus pais, ou nunca mais consegue ficar dentro do mercado de trocas no qual vivemos. A criança, sem saber, procura a morte do adulto dentro do seu processo de vida, define qual o seu limite de tolerância, luta para desenhar a sua própria desigualdade. Como se a criança tivesselido, entendido ou ouvido, os escritores invocados neste parágrafo.

 

Eis o motivo para pensar, sentir, dizer que, sermos pais, é a mais velha e desprestigiada profissão do mundo. Profissão, que por causa do processo de trabalho remunerativo, a palavra paternidade/maternidade definem. Desprestigiada por causa da luta impingida entre seres humanos que, dentro de um curto espaço de tempo, passam a ocupar os mesmos lugares. Um dia, a criança virá a sentir a paixão que leva àprocriação, precisará também de um sítio de trabalho remunerativo, concorrerá com o seu adulto, mais envelhecido agora – consequentemente, com menos capacidade para o trabalho lucrativo procurado pelo mundo globalizado –, que deve perder, para a nova geração ganhar e ocupar os lugares que devem ser libertados pelos seus progenitores.

 

Pequena, és apenas um instante. És criança apenas por um dia. És amamentada e aquecida por poucas horas dentro da tua História. Porque se não matas os teus adultos, nunca mais és, essa força de trabalho que a tua sociedade vê em ti. Mas, pequena, o problema não és tu, são os teus adultos: nunca mais querem ser largados, continuam com o hábito de mandar em ti, de procurar em ti apequenada feita, dentro da sua paixão. O teu adulto será sempre esse ser que quer saber, até ao mais ínfimo detalhe, o teu quotidiano, a tua intimidade, os teus amores e, especialmente, o objecto do teu desejo. Questão que sempre vais ouvir dentro de um hábito cristão inquiridor ou de Inquisição. Famoso hábito elaborado ao longo do tempo com o intuito de controlar os teus movimentos e ajustar o teu agir, à ética dominante da tua História. História tão diferente da conjuntura vivida pelos teus pais, tal qual será a tua, quando o teu dia de procriação ou de paixão, chegar. Entende, pequena, que é bem mais difícil para o adulto largar o seu rebento que considera sempre seu, com base nos mitos definidos, faz milhares de anos, nas variadas doutrinas. Penso que, o teu nascimento, é apenas a aparição dentro da vida social, deste futuro adulto que, apenas por casualidade, um dia será pai e deverá ser mal falado, coscuvilhado, empurrado, deitado fora, até esse adulto aprender, caso seja possível, os seus próprios limites perante ti.

 

É tudo o que eu gostava de te ensinar, como é conveniente ao teu crescimento. Para saberes que os teus pais são apenas uma vírgula no tecido da tua vida. Vida imensa, comprida e preenchida se conseguires tecer o carinho dentro do respeito entre gerações diversas, línguas diferentes, memórias baseadas em factos nem sempre conhecidos por ti. E, enquanto não entenderes isto, vou tomar vantagem para te beijar, acariciar, passear, mimar. Sei que um dia vaisfechar a grande porta para abrires apenas uma janela que permitirá espreitar apenas o que for teu desejo, mostrar. Com respeito, essa janela será o olho da nossa cumplicidade, para podermos ser pais, durante esse metafórico minuto, que sempre ansiamos.

 

Para esta minha querida pequena, quer mãe quer neta, são estas palavras racionais de um adulto maior que muito vos ama. Tanto e quanto, vós permitis. Com respeito e aconchego. Com amor, esse sentimento que define os conceitos usados neste texto como uma pequena forma de exprimir racionalidade sentimental. De sermos pais. Antigos necessariamente. Desprestigiados por causa da necessidade de tu seres tu. A geração seguinte.

 

Lar, 9 de Maio de 2003.

 

Raúl Iturra

 

lautaro@netcabo.pt

 

CEAS/ISCTE/CRIA

 

Amnistia Internacional.

 

Reescrito e revisto a 20 de Junho de 2014, dia do aniversário da entrada à eternidade do Opa Raúl Iturra Merino.

 

A ILUSÃO DE SERMOS PAIS - Prof Raul Iturra

 

Retirado do meu livro de 2008: A ilusão de sermos pais, texto completo que pode ser acedido, com notas de rodapé, em:

http://br.monografias.com/trabalhos913/licoes-etnopsicologia-infancia/licoes-etnopsicologia-infancia2.shtml#xoreal

http://www.youtube.com/results?search_query=Tchaikovsky%20Rococo%20Variations&search=Search&sa=X&oi=spell&resnum=0&spell=1

Soo Bae - Tchaikovsky Rococo Variations Part 1/2

 

 

 

1. Sermos pais.

Devo reconhecer que não sei se este deve ser o primeiro ponto da matéria a tratar, esta de se ser autor da vida biológica, emotiva e intelectual de uma nova geração. Preciso reconhecer que o conceito de paternidade, me tem sido impingido pela cultura na qual vivo, a romana ocidental. Bem como gosto dizer que paternidade, a meu ver, inclui os dois géneros, como hoje em dia se define. Definição criada na luta dos finais do Século XX e estes anos do Século XXI, começada com a luta denominada Sufragista de finais do Século XIX. Épocas, todas elas, para definir uma igualdade entre seres humanos de genitais diferentes: falo e vagina, mamas que oferecem leite e amamentam, bem como mamas estéreis para criar. Talvez, ambas, para exibir de forma erótica e seduzir uma ou outra pessoa - do mesmo sexo ou de sexo diferente.

Complexo. É-me difícil falar da relação paternidade - filiação, por terem mudado dentro da nossa cultura as referências ao acasalamento. Mudança feita em curto espaço de tempo, em Portugal e em toda a Europa. Aliás, alguns países europeus definem a paternidade de forma diferente do nosso: os denominados países nórdicos como a Noruega, a Dinamarca, a Holanda, para casos determinados a Grã-Bretanha, ou o Estado Catalão do Reino da Espanha, definem o acasalamento como a união entre duas pessoas capazes de organizar uma descendência, adoptiva ou descendente consanguíneo de um dos membros do casal.

Porque sermos pais permite, hoje em dia, uma outra actividade, já universalizada, o denominado divórcio, ou dissolução do contrato entre um homem e uma mulher que a nossa lei refere como "nubentes" ou pessoas comprometidas para casar [39]. Nubente é um conceito do primeiro Código Civil Português e foi ficando no que eu gosto denominar, a alergia ao saber comum que os eruditos têm do povo. Porque de facto, o conceito nubente, mencionado já nos Evangelhos cristãos, foi adoptado pelo Direito Canónico e pela lei civil e significa ser livre [40]para contrair compromisso de casamento, como manda o Artigo 1591 do Código Civil Português. Por outras palavras, as ideias religiosas desde a antiguidade da nossa era prescreviam liberdade para se ser pai. E a Concordata assinada em 1945 entre os estados Vaticano e Português e ratificada por convénio em 1995, dentro da lei positiva está presente no Código Civil Português, nomeadamente no seu Livro IV, Título II, Capítulo I, "Modalidades de Casamento", entre as quais se legisla o Matrimónio Católico [41].

Sermos pais acaba por ser uma definição escrita de costumes adquiridos ao longo do tempo. Até ao ponto de existir um conjunto de regras que definem o comportamento de vai e vem das emoções, do carinho, do cuidado, do olhar, do sentimento gratuito e recíproco que tinha na minha cabeça no minuto de pensar essa frase, já para mim, conceito. Sermos pais. Como diz Eduardo Sá no seu texto de 2003, ao falar de resiliência, conceito de Boris Cyrulnik [42], a ser definido mais á frente: "...o bebé nasce na cabeça dos pais..." [43]. Esta frase, retirada do contexto mencionado em nota de rodapé, diz respeito á minha procura emotiva da criança e por observar que o adulto entende que esse ser é resultado do amor, do desejo que nasce dos olhos, desse mirar sem pestanejar, profundo, calmo, seco, terno, da profundeza do amor que nasce da entrega de um ao outro - distante dos comentários da praça pública, esse fazer amor por erotismo. O erotismo permite sermos pais? é a frase que cunhei para um texto meu, como subtítulo[44]. Ou ainda, o poema de paternidade sabida por se ser pai, não por ser erudito, cuja quarta versão revista fala de forma tão determinada acerca da necessidade dos filhos para os pais crescer [45]. Aí é preciso distinguir entre a paternidade e o ser humano adulto que os Código Civil, o de Direito Canónico, o Catecismo de Wojtila, definem. Na página 39, o capítulo praticamente abre com a ideia definida pelo autor: "Talvez a primeira função de uma pessoa seja ser mãe" [46]. O meu comentário é quase autobiográfico: na altura da minha primeira paternidade -maternidade, tinha "proibido " em casa os cor-de-rosa, estava certo de o meu primeiro descendente ser um rapaz e os pequenos, por costume, vestiam de branco ou azul faz já trinta anos...Quando vi sair a pequena que adoro, não precisei esperar ver os genitais, era tal e qual a minha sogra...e assim ficou linda até ao dia de hoje, como a sua mãe. Donde, sermos pais, é o conceito de ternura para com esse ser pequeno, de pés descalços, indefeso se não for pelos cuidados de ser amamentado pela mãe na companhia silenciosa e de mãos dadas, do pai. Essa ternura que nasceu na cabeça, das brincadeiras românticas da intimidade a dois, de se passar a ser um á espera do outro e continuar aser esse um, até ao suspiro final que descansa a atenção de saber que de dois, há um no minuto da concepção ou no minuto de alimentar o desejo da paixão que permite solidificar o casal - com ou sem matrimónio - salvar-se dos conceitos de Édipo impingidos entre nós desde 1906, de não sofrer por sentimentos nunca acordados do incesto, como Françoise Héritier, Boris Cyrulnik e outros, nos lembram em 1994[47]. Esse incesto universal como conceito, mas de diferente "textura", estrutura e processo, de exógama clãnica e não consanguínea, como entre nós. Como Bronislaw Malinowski [48] nos lembra e que vamos analisar a seu tempo.

Será que todos estes factos da relação adultos/criança são culturalmente entendidos? Será que, a relação paterna/materna é a de todo o adulto com toda a criança? A minha observação dos factosdiz, não. As minhas conclusões de facto dizem sim, ou que, pelo menos, é preciso trabalhar forte e duro para criarmos grupos sociais, com ou sem recursos abundantes, não só por causa da afectividade simpática e serena, bem como pela necessidade de transferir essa outra parte que todo o adulto sabe: optar, decidir, distinguir. Estes três conceitos, retirados por mim das minhas análises económicas que fazem parte do real, são para expandir á Dante, á Erasmus, á Philippe Buonarroti, á Bento Espinoza, á Tomás de Aquino - o introdutor de Aristóteles via Averröes entre nós - a capacidade de filosofar e pensar com arte,sermos pais.

Sim, é verdade que a denomino a ilusão desermos pais. Por dois motivos: porque os mais novos em breve serão os adultos do grupo social e mudando na hierarquia por meio de vários processos rituais, formam a sua casa, o seu lar, a sua distância. Essa altura das nossas vidas quando, mais uma vez, ficamos pais sem filhos por perto: na nossa afectividade e, eventualmente, no cumprimento ou no pedido de conselho. Ideia a estudar mais á frente da forma simples com que sempre tenho analisado o facto que me parecia o mais importante: toda sociedade está dividida em duas culturas, a dos pequenos e a dos adultos [49]. Ideia que começara a defender em 1998 no meu texto sobre o imaginário infantil [50]. Mas, o facto de entrar com mais cuidado nas ideias de Émile Durkheim, Marcel Mauss e de Georges Devereux, -me reparar que toda sociedade tem adultos e crianças, mas apenas uma cultura. Esta ideia apareceu ao lembrar os meus primeiros estudos e fui ao código e á lei. é o segundo assunto, que passo a estudar.

A cultura tem formas de comportamento denominadas costumeiras. No entanto, elas estão codificadas e poucos conhecem essa prescrição. Estamos, no entanto, na altura de a incorporar no nosso quotidiano.

2. Amor de colo.

Amar, amo, e tomo conta dos meus adultos porque nasce da minha alma, da mesma forma que aprendi a tomar conta dos meus descendentes, ainda que á distância. O direito tirou-nos a alegria de amar, as penas de prisão estão ao pé de nós se não cumprirmos o que a lei manda e que, em Portugal, o Catecismo apoia. Textos normalmente ignorados pelos estudiosos de seres humanos e, especialmente, de crianças. Debate esse que tenho tido com uma imensidão de eruditos e pessoas da rua, para sermos capazes de nos governar e assim proteger melhor os mais novos: é dizer, ensinar melhor os mais novos dentro da racionalidade da sociedade em que vivemos. Racionalidade nascida do cálculo económico que permite a existência de recursose reprodução biológica e afectiva. Se falei de dar colo no início do parágrafo, foi para definir o conceito introduzido por Cyrulnik especialmente no texto de 2003 [51]: quanto mais pais somos, mais damos ideias aos mais novos, mais liberdade para aprenderem a proteger-se na interacção social. O livro abre com perguntas endereçadas aos mais novos, através dos seus adultos que entendem. Uma das questões chamou a minha atenção: "que violência traumatizante é essa que dilacera a bolha protectora de uma pessoa?", para se responder com a frase de abertura do texto, na mesma página:  "Só se pode falar de resiliência se tiver existido um traumatismo seguido da retomada de um tipo de desenvolvimento, uma fenda reparada"[52].

É esta ideia que me permite saltar para a lei. Os processos emotivos espontâneos devem ser como a lei manda. Essa letra conhecida pelos que sabem regulamentar o comportamento da população e que a populaça ignora: donde, resiliência do povo ou da maior parte dos habitantes de um país. Se pensamos na paternidade, que definiria como o melhor papel de educador, ela é definida assim: ARTIGO 1871º

(Presunção)

1. A paternidade presume-se:

a) Quando o filho houver sido reputado e tratado como tal pelo pretenso pai, é reputado como filho também pelo público;

b) Quando exista carta ou outro escrito no qual o pretenso pai declare inequivocamente a sua paternidade;

c) Quando, durante o período legal da concepção, tenha existido comunhão duradoura de vida em condições análogas ás dos cônjuges ou concubinato duradouro entre a mãe e o pretenso pai;

d) Quando o pretenso pai tenha seduzido a mãe, no período legal da concepção, se esta era virgem e menor no momento em que foi seduzida, ou se o consentimento dela foi obtido por meio de promessa de casamento, abuso de confiança ou abuso de autoridade.

2. A presunção considera-se iludida quando existam dúvidas sérias sobre a paternidade do investigado.

(Redacção do Decreto - Lei 496/77, de 25-11)[53].

A primeira frase é definidora e fria, não dá lugar a emotividade. A paternidade está longe de ser as ideias que comentava páginas atrás, no nascer da paixão. Não digo que não exista paixão na "feitura" de um filho. Queria apenas dizer que a interacção social não tem por base o acarinhamento, mas sim a prova. Será que, homem da minha cultura, eu posso dizer que a prova não é necessária? E a inteligência humana, a sua racionalidade e o conhecimento existente entre vizinhos do mesmo grupo? Não consigo deixar de mencionar uma história, já publicada a e analisada por mim no meu Jornal A Página: Conceição, a Sardinheira, como era denominada, foi abandonada pelo marido que emigrou para a Argentina. Os anos foram passando e ela criou o filho vendendo sardinhas e limpando casas. Um dia, oito anos depois do marido ter saído e nada se saber dele, aparece na Conservatória do Registo Civil da Vila para declarar o nascimento da sua filha. O Oficial, conhecedor da senhora e da lei, solicitou provas de paternidade e perguntando de forma arrogante: "o teu marido voltou?". Ela nada respondeu e ele, no cumprimento da lei, retorquiu: "mas, onde é que ele está, para inscrever a pequena?" Então ela diz: "Oiça, meu senhor, não tem aí o Livro de Casamentos?" E lêem juntos com quem está ela casada, concluem que sim, esse é o marido e, é evidente que é o pai da filha porque não se sabia de outro homem da senhora. E, como bom vizinho, aceita a resiliência de Conceição e inscreve a pequena com o nome do marido, sendo a prova a certidão de matrimónio. Por outras palavras, a vida dura anterior de Conceição Lopes e o conhecimento que da mesma tinha o Oficial do Registo Civil, desenvolve uma nova situação. Como diz Cyrulnik, a ferida faz parte da vida de Conceição - o marido ausente - e com essa ferida retoma o seu caminho em ruptura com a vida anterior de mulher pobre e abandonada, e ninguém na Vila nem na aldeia faz comentário nenhum e a pequena é aceite, comemorada, cresce, um dia casa e vai andando: a prova da paternidade foi feita...de outra maneira....com resiliência mutua e recíproca.

Continua o Código, tal e qual o Catecismo de Wojtila, ao debruçar-se sobre direitos e deveres da filiação. Diz o Código Civil:

ARTIGO 1874º

(Deveres de pais e filhos)

1. Pais e filhos devem-se mutuamente respeito, auxílio e assistência.

2. O dever de assistência compreende a obrigação de prestar alimentos e a de contribuir, durante a vida em comum, de acordo com os recursos próprios, para os encargos da vida familiar.

(Redacção do Decreto - Lei 496/77, de 25-11) [54]

            Estas palavras não apenas incluem direitos económicos, bem como comportamentos que hoje em dia denominamos de não-violência doméstica: a punição sem motivo ao mais novo, a luta entre os pais quando a mãe defende um filho injustiçado pelo seu marido, e, especialmente, relações que tenho referido noutros textos, denominadas de abuso sexual dos mais novos pelos seus progenitores, que vou referir no Capítulo correspondente. é mais claro neste sentido, o Catecismo de 1992 de Karol Wojtila, ao falar de que honrar pai e mãe não é apenas o amor - nem sempre possível diria eu - mas uma situação de interacção social difícil por causa do crescimento e autonomia dos pequenos[55]

            Como acontece com os códigos denominados positivos, o catecismo fala da Sociedade Civil na sua versão geral e manda os cidadãos submeterem-se aos seus superiores como representantes de Deus: " O amor e o serviço da pátria derivam do dever de reconhecimento e da ordem da caridade. A submissão ás autoridades legítimas e ao serviço do bem comum exigem dos cidadãos que cumpram o seu papel na vida política...pagamento de impostos, o exercício do direito de voto, a defesa do país..."[56]. O que dizem estes catecismos, tal como os códigos é para evitar surpresas que podem danificar a população e causar um não desenvolvimento na interacção doméstica e dentro dos indivíduos. Só que, o conteúdo destes textos, diz respeito apenasaos grupos sociais que não estão dentro das hierarquias dominantes. Mais uma vez a ilusão de sermos pais, porque devemos entender estes textos e ensiná-los aos nossos descendentes, com a denominada democracia e as formas globalizadas de partilhar uma economia altamente dividida entre países e grupos. A guerra recente do Golfo para libertar a um povo que não parecia estar oprimido, é um indicador da nossa dificuldade como adultos, de indicar aos mais novos quem tem a razão e quem está a enganar-se ao enganar-nos. O próprio Código Português, como os Códigos Latinos ou Napoleónicos do Ocidente, têm um título derivado do poder paternal. Pelo que sermos pais acaba por ser um derivado de formas patriarcais e cheias de masculinizações de comportamentos. Formas de masculinidade entendidas como poder patriarcal. Eis a divisão do trabalho entre um pai que chega a casa para ser servido por mulheres que hoje em dia trabalham, como tenho referido nos meus textos de 1998 e de 2002 a) e b)[57]. O artigo 1877 do Código Civil Português diz que, os filhos estão sujeitos ao poder paternal até a maior idade ou emancipação, enquanto o artigo seguinte, de forma lata, define a obediência que devem os filhos aos pais: "ARTIGO 1878º·

(Conteúdo do poder paternal)

1. Compete aos pais, no interesse dos filhos, velar pela segurança e saúde destes, prover ao seu sustento, dirigir a sua educação, representá-los, ainda que nascituros, e administrar os seus bens.

2. Os filhos devem obediência aos pais; estes, porém, de acordo com a maturidade dos filhos, devem ter em conta a sua opinião nos assuntos familiares importantes e reconhecer-lhes autonomia na organização da própria vida.

(Redação do Decreto -Lei 496/77, de 25 -11) [58].

De entre a comprida legislação sobre a filiação e o poder paternal - entenda-se dos pais em conjunto - a seguir á reforma do Código, escolhi este número apenas para salientar as formas de autoridade que, com conhecimento ou sem ele, a cidadania age como se o poder paternal fosse ainda maior e á antiga.Com efeito, nos factos observados, é possível apreciar essa forma de aceitar a condição de autoridade suprema de chefe de família, do marido. E, no entanto, a lei civil actual, tem tentado diminuir esse poder que fica muito mais lato nas formas culturais de comportamento ou, como eu defino a Etnopsicologia, os parâmetros culturais que orientam os sentimentos, como vou referir mais á frente, No Catecismo Católico, como noutros, a procura de sermos pais experimenta universalizar a ideia da autoridade sobre os mais novos, bem como a da emotividade dentro do grupo familiar, como fez o Imperador Justiniano no seu Código de 535. De facto, pode sintetizar-se a procura de harmonia e paz dentro do grupo familiar e diz assim ao longo dos 12 Livros do Código e das Sete Partidas do Digesto ou texto para entender a interacção social que define o Código:

1.2. LA FAMILIA COMO PRESUPUESTO DEL DERECHO HEREDITARIO.

La familia se distingue de las demás organizaciones por su sentido patriarcal, siendo el pueblo romano una comunidad de familias representadas cada una por un pater familias. La persona más importante de la familia es el pater familias, que tiene que ser un hombre y no una mujer, siendo la única persona que es sui iuris (persona independiente), mientras que los demás miembros de la familia son alieni iuris (personas sometidas al pater familias). El pater familias ejerce 3 tipos de patria potestad:

- Domenica potestas: sobre los esclavos:

- Manus potestas: sobre la mujer.

- Patria potestas: sobre los hijos.[59]

É verdade que estava a referir o Catecismo Romano, mas o catecismo Romano é a base de todos os textos que orientam a nossa interacção e, especialmente, as relações pessoais dentro do que é denominado grupo familiar. De facto, as ideias retiradas por Justiniano para a sua recompilação de Editos, decretos e leis, são já derivadas do Código Gregoriano que, por sua vez, deriva dos debates de vários Códigos que legislam sobre a família, sendo o Código Gregoriano, compilado pelo rei dos Visigóticos, Alarico II em 506 [60], após o seu pai ter entrado em Roma em 410, saqueado e tentado apagar a memória já cristã, sendo-lhe, contudo, impossível retirar o denominado direito eclesiástico, cuja memória governara Roma até Tibério. As ideias estavam compiladas em textos góticos e cristãos, retirados da Bíblia e dos Evangelhos. A compilação feita por Justiniano foi capaz de juntar uma memória romana e outra cristã, as duas patrísticas, especialmente com os textos de Agostinho de Hipona e as suas homilias que levara a interacção á base da solidariedade e da caridade, da hierarquia e da obediência á Divindade, representada pelo Pater Famílias. As ideias romanas desde o Século IV até hoje e espalhadas por outros povos ao longo dos séculos da nossa era, formam a memória de sermos pais, uma resiliência de grupos sociais em luta, unidos por apenas uma ideia que Hipona sintetizou no seu livro Confissões - que inaugura uma estrutura de comportamento público de culpa e arrependimento - a capacidade de optar entre o bem e o mal para se ser bondoso e específico na interacção, ou Livre Arbítrio. O seu texto político, A Cidade de Deus, defende ideias de governo interno e externo, baseadas na caridade e o amor ao outro, especialmente á cidade que é da família [61]. Ideias derivadas do denominado Código da Bíblia, ou, por outras palavras, estrutura de relações baseada na ideia de Patriarcados ou supremacia do pai sobre os descendentes, a mulher e as pessoas da casa. Este é o facto emotivo que organiza o conceito de sermos pais, como passamos a analisar. Com esta breve nota de comentário: mais de dois mil anos de vida patriarcal, incluindo a cultura grega de 400 anos antes da nossa era, acumula na memória uma ideia difícil para a ilusão de sermos pais, com uma forte resiliência da parte do povo para entender as formas reais de uma interacção hierárquica de subordinação. O Pai de Família tem, maioritariamente, direito sobre os bens. As potestades enumeradas mais acima compiladas por Justiniano I - o segundo Justiniano I por o seu ancestral se ter aborrecido de ser Imperador passando o número a Flávio Anício Justiniano Magno seu sobrinho, o do Código. A enumeração sintética começa por falar dos que não têm direito á sua pessoa, aos seus bens, á sua liberdade e á disposição de movimentos ou de opinião. Ainda menos, a manipular recursos. Se repararmos na definição da sociedade romana, lemos já que é um conjunto de pater famílias: por outras palavras, a obrigação de se ser pai, ou o conjunto de pais, serem representantes de todos os que o não são. Ser pai poderia definir-se como o símbolo reprodutor de um grupo social, o ser humano do falo, o ser humano do esperma que transfere a outros, ou em pessoa e faz filhos, ou em gestão, e toma conta de recursos que permitam continuar dentro de História, com posses suficientes para fundar um outro grupo social de patriarcado. Da listagem, poderíamos apreciar que existe "muito colo", muito pai e falta de capacidade para ser livre e pensar por si próprio. No Livro II, Título XXIII do Corpo do Direito Civil Romano de Justiniano, podemos ler: " Si tu hermano estaba bajo la potestad de su padre cuando recibió una cantidad en mutuo, y el contrato no se hizo ni por mandato de él, ni contra el tenor del senado consulto, pudo a causa de la fragilidad de la edad pedir la restitución de la cantidad por entero....No se le prohibirá al hijo de familia, si siendo menor de veinticinco años salió fiador por un extraño, pedir la restitución por entero....Emperador Jordiano Augusto, Calendas de Julho [62].

Raúl Iturra

20 de Março de 2014.

lautaro@netcabo.pt

O conteúdo das notas de rodapé estão definidas no libro citado ao começo do texto

SER PAI É SER ÓRFÃO DE FILHOS - Prof Raul Iturra

 

Escrevi ontem um ensaio sobre o facto e a emotividade de sermos pais. Quando a minha descendência ia nascendo, ou antes, quando era gestada pela mãe com o meu acompanhamento como pai, as emotividades eram a adrenalina que circulava pelo corpo todo e uma ternura profunda, quase impossível de descrever com palavras, percorria a alma e a carne. Quase um instinto primitivo de proteger a gestora de próximo bebé, do aguardado descendente que ia prolongar a nossa memória dentro das gerações futuras, a lembrança dos progenitores e dos seus antepassados. Mas, isso pensa-se depois, quando os bebés crescem e passa a ser necessário ensinar, premiar, punir às vezes. No período da gestação, todo o que queremos é tomar conta dessa mulher que amamos com paixão, até o ponto de entrar em ela tantas vezes até atingir o nosso objetivo de macho: dar vida a uma entidade que, depois de sair do corpo da mãe, luta pela sua independência e autonomia. Enquanto o bebé está em gestação, há o sentimento de proteção do ser que gesta a descendência, um sentimento muito primitivo de cuidar, de tomar conta, de evitar perigos para gravidez da mulher que vai ser a mãe do nosso vâstago. A paixão cresce até limites que parecem impossível de descrever. Apenas esses exemplos dos dias inteiros na cama para, sem deixar de amar, os corpos se procuram, a intimidade aprofunda-se, dorme-se nos intervalos, prura-se um alimento que o ardor da paixão acorda em nós. Fecham-se as janeles deliga-se o telefone, a campainha da porta fica em silêncio, ninguém pode interromper o estado mais animais de dois seres que pensam que se amam, sem saber que essa líbido é o resultado da procriação como divindades. Não se pensa em bebés, pensa-se na outra pessoa, no desejo de explorar o seu corpo e de se falar apenas dum e da outra. As caras ficam desfeitas por causa dos milhares de beijos que nascem da paixão que nos leva a esta a passar, sem saber, as horas de um dentro do outro. O ato da procriação é um ato divino, de dois deuses que se abraçam e abrasam como duas chamas que nunca mais apagam. Esse casal ama-se, mas, antes, ama-se pelo fato providencial da procura de um próximo ser. O sentimento de amor faz esquecer o resultado de descendentes, apenas sente-se essa intimidade que faz suar. A prova está em que, se aparece uma gravidez, a paixão passa a amor e acarinhamento, a cuidados especiais, a ternura incrementada pelo fato de gestão de um ser.

É a parte mais simpática e alegre da vida, una fato de lua-de-mel que se prolonga quanto á  capacidade de procriar. É assim que nasce a ternura dentro de dois, capazes de insuflar vida dentro de um ser que passa a ser o terceiro, quarto, quinto, dentro da relação que começa a dois. A mulher passa a mãe, uma palavra santa e sagrada que não se pode repetir muito para não enganar a procura de cobertura no leite, nas fraldas mudadas, nos primeiros passos, acompanhado pelo paceiro da procriação que alimenta esse lar, sustento que hoje em dia, também corresponde a pessoa gestora do filho ou filha que passam a trabalhar colmo os homens que não têm o trabalho de dar a luz, mas que acompanham a progenitora a par e passo no cuidado da infância feita por eles, até que a vida social passa a ser governada pela economia e pelas finanças. O amor pode continuar, mas dentro do lar original, varias gerações existem em conjunto: a que prepara o seu futuro no processo de ensino-aprendizagem, definido por mim em outro texto deste blogue e na minha antiga Revista Educação, Sociedade e Culturas, Nº 1 de 1994, que pode ser acedido em http://www.fpce.up.pt/ciie/revistaesc/ESC1/Iturra.pdf .

Várias gerações coexistem, cada uma com objetivos diferentes: a progenitora que orienta, a que prepara o seu futuro som o cuidado de terceiros pagos para os ensinar, até crescerem e um outra u outra entra em casa com a intenção que o casal primitivo tinha, o da reprodução. Os pais passam a categoria de velhos, os mais novos defendem a sua autonomia, ate o dia em que vão embora para organizar o seu próprio lar. Com sorte, consultam os seus velhos, mas, mais crescidos, passam a autonomia absoluta e os velhos, para a solidão de uma casa vazia ou de um lar.

Eis a minha ideia que ser pais, o a orfandade de filhos que apenas se interessam nos seus descendentes e uma certa obrigação, da que se defendem, para com os seus pais, que ficam sós e abandonados. Ainda mais, se a doença e a senilidade entram no lar original.

A falta de filhos e de netos mal conhecidos, lava a paixão primitiva a ser um peso para geração que toma conta dos seus.

Eis o motivo do título de este ensaio: ser pai, é a orfandade de filhos e a rebeldia dos mais velhos ainda capazes de tomar conta de si, apesar de que os descendentes o não o queiram acreditar. Mas, quando há uma boa criação da geração agora autônoma, os seus descendentes respeitam o carinho e cuidado todos que, os agora Avós, lhes deram. O que é uma alegria rara nos tempos que correm, mas que existe, pelo menos connosco.

Viva a vida com uma família extensa unida pelo amor do lar, alargado a filhos, netos e bisnetos e respeito dos mais velhos da autonomia conquistada pelos mais novos. Assim são também menos órfãos os pais originais.

 

 

Raúl Iturra

25 de Fevereiro de 2014

lautaro@netcabo.pt

 

MEUS PAIS NÃO SÃO PESSOAS.

 

MEUS PAIS NÃO SÃO PESSOAS.

 

Ensaio de etnopsicologia da infância

 

Debate com Alexandre Silva, fruto dessa nossa conversa em tempos de orientação para o seu doutoramento…           Nem sempre os adultos falam entre si das suas crianças. Quando falam fazem-no por causa duma instituição os requisitar durante o dia para avaliar o seu comportamento nos estudos, a sua conduta, o seu comportamento pessoal nas suas emoções e interacção com os outros, adultos ou crianças. Fala-se das crianças entre mãe-avó e filha-mãe, entre amigas, entre mães de crianças companheiras. E o tema da conversa é sempre o comentário de o que fazer para as educar. Para as apresentar melhor perante os outros, para entender melhor as capacidades de dinamizar a concorrência com o resto da miudagem, hoje tão importante para os habilitar para a vida. Ou, fala-se das crianças entre os pais, tentando entender melhor as suas ideias e os seus objectivos.

 

Para decifrar esse conceito pelo qual tanto teimo: a epistemologia das crianças, ainda que o conceito não seja conhecido ou usado entre pais, é suposta haver entendimento do que os filhos fazem e pensam, de aceitar esse entendimento, que eu denomino racionalidade infantil e que é diferente da dos adultos. Tenho observado, no meu trabalho de campo, o adulto falar do contexto no qual anda a criança, as suas amizades, os amigos, as brincadeiras diferentes consoante a hierarquia social; bem como conversas diferentes entre adultos segundo o seu estrato social, para não usar o conceito preferido por mim, classe social - conceito que hoje em dia até é difícil de aplicar: os indivíduos aparentam mudar de classe com uma certa facilidade, conforme a riqueza acumulada na teoria neoliberal que governa o nosso pensar. Uma racionalidade à procura da riqueza, definida como objectivo de vida já desde o tempo de Maquiavelo (1516) e de John Hales (1581). Quer um, quer o outro, andaram a defender a riqueza das pessoas como objectivo de vida, ou do estado para dar apoio ao povo pobre. Teorias renascentistas ainda assentes no nosso pensar social.

 

Sem entender, o casal de pais bi ou unisexual, as teses de autores que andam por trás do seu pensar sobre os seus filhos, e que determina a direção do apoio dado às crianças no sentido do que é entendido como sucesso: serem ricos, uma fantasia destemida que os pais, sem o saberem, andam incutir na descendência. Reflexo ideal da sua própria luta pelo poder, pelo dinheiro, pela poupança, pela falta domínio da leitura, do saber científico, pela fruição e mestria na arte e na música.

 

Tenho observado, enfim, que o discurso do adulto debruça-se sobre o comportamento dos filhos enquanto futuros cidadãos e não enquanto petizes a crescerem, amarem, sentirem, a procurarem o ideal de ser únicos para os seus adultos e únicos dentro de casa. Filhos, aliás, muito entregues à mãe. Como costumam as senhoras dizer: “eu os fiz, eu os crio!”. Ou os homens: “olha ao teu filho! Anda todo sujo….”. Pais que falam da sua ética, do seu esforço, dos seus objectivos e dos seus triunfos, mas da sua emotividade de adulto, muito pouco; da sua sexualidade, ainda menos. Talvez comentários sobre a possibilidade de empurrar o filho-macho para as raparigas, ou de como resguardar as filhas, longe do macho, para as manter puras. Idealidade como fim, num objectivo já caduco. Assim, e condicionado por estes silêncios, o que ensinar nas aulas de sexualidade? O que falar de sexualidade aos filhos? E quem o fará? E os filhos o que imaginarão da sexualidade dos pais ocupados em transferirem uma ideia tão respeitável e austera de si próprios?

 

 

  1. Os filhos.

 

 

Falávamos entre amigos da paternidade. E concordávamos que os indivíduos, enquanto filhos, parecem não conceber a sexualidade dos pais. E como os pais tentam pôr longe deles a ideia da sua intimidade sexual, dessa ou das posteriores relações em que evidenciam por vezes a afectividade, mas apagam a intimidade. Essa intimidade reservada para nós, adultos, com experiência acumulada. Uma intimidade que os filhos não conceberiam nesse homem e nessa mulher tão austeros, como já referi no texto anterior deste jornal (Maio de 2000), ou debato no meu novo livro a sair em Junho.

 

Para a criança parece haver dois tipos de intimidade: uma sexualidade, ardente, exposta na televisão e nos “outros” e a dos pais, a casta e pura, a dormirem juntos na cama do mesmo quarto, e a desses pais a se cobiçarem o corpo em beijos calmos e costumeiros ao entrarem e saírem de casa para o trabalho, ou para dizer bom dia. Sem exprimir desejo. Tenho observado crianças a observar rapazes e raparigas em lutas de corpo a corpo de relação sexual. E comentar o caso com amigos. Mas, nunca espreitando essa mesma luta dentro do quarto dos pais. Quando há estrato social que permita quartos separados de adultos e crianças. Se é no mesmo sítio por causa do estrato da família, o hábito da zurra dos corpos em acto sexual, cria o hábito do ignorar, de ser parte dum real que á muito material e faz parte da vida. Mas, o erotismo que os adultos-pais gostam de reservar para si, não fica no imaginário da criança associado a eles.

 

Toda criança parece pensar que nasceu da sua mãe e é mantida pelo trabalho do pai. Modelo central. Nasceu da sua mãe sem saber qual o motivo, qual a relação pessoal entre esse homem e essa mulher que acontecem serem os seus pais. O filho e a filha não costumam nem imaginar o pai erecto, nem a mãe, húmida e de peitos firmes, à espera de receber o homem que a seduz ou que ela convida a ser parte dela por vários momentos. Prerrogativa do casal guardar essa actividade em silêncio, ou em momentos e sítios diversos, por eles escolhidos, durante a semana, ou férias, ou no fim da semana.

 

O imaginário da criança é social. E no social não circula a conversa da sexualidade dos pais. Ainda mais, na idade infantil da criança, o pai e a mãe não são pessoas: são seres a tomarem conta dele, a amar, que sabem o que é bom e o que é mau. São pais. E, para pais, há uma definição social aceite por todos: mandam, ganham, ensinam, vigiam, e respondem às questões que nascem da, ainda socialmente cega cabeça do jovem ser. Pais - os que castigam e recompensam conforme o padrão social.

 

Erotismo entre pais? Alguma vez imaginado? Para orientar o imaginário é usado um mito central do cristianismo judaico, o do nascimento de Jesus. Ou entre os muçulmanos, a existência dum Alá que não tem forma corpórea. Ou entre Budistas, a existência dum Carma para reproduzir seres humanos ao entrarem num outro corpo. Formas de pensar onde não há pai genitor dentro do corpo social, há mãe que gera o filho e um homem que orienta na vida social. Como acontece com alguns grupos sociais para além da cultura Ocidental, onde nem pai existe, porém, toda rapariga filha da mulher pode ser mulher do homem que acompanha a mãe. Facto a surpreender imenso aos missionários dos séculos das descobertas que o tentaram corrigir sem que tenham sido sempre bem-sucedidos. A Coroa Britânica soube calar e deixar fazer. Como os jesuítas da nossa cultura, intelectuais a saberem respeitar os costumes dos grupos sociais das descobertas, apesar de expulsos de muitos dos lugares evangelizados, como pode ser observado a olho vulgar no filme de Roland Joffé, The Mission (1986). Esta ética reguladora da sexualidade desses “outros”, realidade difícil de aceitar pelo pensamento judaico-cristão dos católicos, presbiterianos e outros. Horror ao incesto, recusa em olhar a fêmea que há na mãe, ou o sémen desejoso do pai, porque as divindades não copulam, a e a autoridade é em si austera, ascética. Ideias religiosas predominantes na educação do sexual das nossas crianças neste universo judaico-cristão.

 

Porque o que os filhos possam pensam da intimidade dos pais, pode causar os ciúmes ou o afastamento afectivo pela suspeita de existir no lar uma realidade por eles ignoradas e não compartilhada. Um segredo guardado entre adultos, no meio dum lar que é a lareira da vida. Vida que é apenas parte dela para todos e uma parte importante, a da afectividade e do desejo, escondida. Nascem os narcisos, nascem os objectivos sexuais conforme as preferências do modelo homem ou mulher escolhido pela criança, pénis ou peitos invejados, suspeitos ou vistos. Caso entendam que pénis e peito não formam parte da realidade colectiva do lar onde as crianças são solicitadas para compartilhar todo, para todo contar, para serem orientados nos seus afectos. Há um que é central e jamais falado: a procura do prazer da carne entre dois seres que não são apenas mãe e pai, são pessoas tal e qual é solicitado que sejam. Os filhos vigiados, não podem vigiar. Os filhos orientados para preservar a sua actividade reprodutiva dentro do seu futuro lar, sabem que há uma lei que orienta o agir dos seus pais sem saberem a base que sustenta esse comportamento emotivo. Comportamento emotivo, elo central da simpatia ou infelicidade do conjunto da casa. Tema difícil, mas necessário de pensar como transferir à nova camada para os fazer seres completos dentro do lar.

 

  1. Os pais.

 

 

Os pais, ele e ela, desejam. Natural forma de ser, natural forma de agir. Nem sempre a mesma pessoa durante muitos anos. Ou, nem sempre apenas uma pessoa durante o matrimónio ou a legitima união de facto. Não apenas desejam. Têm imaginário para exprimir esse o seu desejo cheio de carinho, ou apenas desejo que acaba por ser carinho ou não. Os pais não são castos nem devem de o ser. A época de virgindade pré-matrimonial ficou já desvirginada. Hoje existem as relações amorosas íntimas. Gostem ou não os pais. Saibam ou não os pais. Queiram ou não ignorar. O casal a ser formado começa pela atracção complementar do corpo. Esse sentimento que os ascendentes guardam para si. Ou podem de forma denominada digna comentar ou agir perante os outros. Conforme a disponibilidade ética dos indivíduos dos estratos sociais. No entanto, nem é difícil entender que existe um jogo erótico prévio ao acto sexual, feliz enquanto privado, privado para poder ser excitante, para ser realmente jogo que abre as alternativas de como entrar um dentro do outro: o corpo apenas, ou o corpo e o sentimento.

 

A começar pelo sentimento. Essa sedução que o masculino do casal gosta de fazer com um acariciar simpático e destemido no corpo da fêmea que tem em frente. Fêmea que é também mãe dos seus filhos, ou dos filhos de outro que ele herdou ao aceitar essa mulher. Mas, principalmente, fêmea. A sua fêmea. Desligada do facto de ser mãe. Uma mulher que atrai. Um homem que gosta de deliciar essa mulher. Um brincar com os corpos de forma atrevida e mil vezes mudada ao longo do hábito de amor dentro do modelo aceite socialmente. Um jogo passional que acaba por ser sério no minuto final de se esperarem um ao outro. Dessa intimidade impossível de transferir com palavras à descendência. Esse laço que existe entre dois, uni ou bissexual - como hoje em dia é aceite nos países neoliberais e sempre o foi nos países denominados atrasados. Esse laço que constrói a pedra fundamental da interacção da casa. Um laço a não ser partilhado por impossível de dizer. Mas a ser sabido como existente pelos membros do lar, conforme idade e espistemologia, resultado do ardor de dois adultos em procura de compreensão da vida colectiva depreendida da flor do seu segredo, como gosta dizer Almodóvar (1995).

 

3.Epílogo.

 

E a conversa ia acabando, para o meu amigo havia uma jovem criança na mente da ternura paterna, as minhas pareciam águas passadas. Reflecti. Aprendi. Escrevi. Será bom ou não mostrar o lado humano, o lado pessoa da maternidade e paternidade, da parentalidade procriadora?

 

É um tema aberto. Porque parecia ser correcto não debater ou nunca dizer aos filhos em casa o que se passava no segredo da alcova. É para dois e só para eles. Tal e qual são para dois e mais ninguém os amores dos filhos. Assunto e debate que as minhas águas passadas, já desaguadas no oceano da vida adulta, me têm ensinado não serem correctos, por causa das necessárias precauções a serem tomadas para os mais novos não entrarem no perigo de serem remetidos a um bebé pensado por um dos lados. De não serem socialmente mortos por um vírus que no fim mata o corpo, pela causa, mais que todas importante, de se saber que entre adultos há assuntos que são apenas para eles e para mais ninguém. Porque os novos seres, em crescimento para a vida adulta, não têm as ideias dos símbolos a serem jogados no jogo da sedução, porque não têm emotividade desenvolvida para entenderem as emoções dos mais velhos e porque há anos de experiência entre um ser e outro a habitarem a mesma casa. Será este mais um domínio do saber a ser entregue ao Estado a explicar? À catequese, no caso dos cristãos, às aulas de Alcorão para os muçulmanos? Ou à Antropologia, capaz de falar dentro do seu método comparativo, como vivem os adultos de outras latitudes, ou os grupos minoritários dentro do nosso país, para ser relativa a experiência do lar? De quem o direito de perguntar primeiro, de quem a obrigação de falar? Qual o limite? Freud (1911), Klein (1932) e Alice Miller (1982) deram as suas ideias. Será que o saber doutoral é útil para compartilhar a pedra base da fundação do lar?

 

A resposta é de quem leia.

 

5. Bibliografia.

 

Almodôvar, Pedro, 1995: La flor de mi secreto, filme.

 

Freud, Sigmund, (1912) 1919: Tomem and tabu, George Routledge and Sons Ltd, Londres.

 

Hales, John, (1581), 1907: “A discourse of the common weal of this realm of England”, in A.C.Tersen: John Hales, sa doctrine et sons temps, Avallon, Dijon.

 

Iturra, Raúl, 2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo, Afrontamento, Porto.

 

2000: “Pais e cônjuges”, in A Página da Educação. Maio, Profedições, Porto.

 

Joffé, Roland, 1986: The Mission, filme.

 

Klein, Melanie (1932) 1959: La psychanalise des enfants, P.U.F., Paris.

 

Maquiavel, Nicolau (1516) 1983: El Príncipe, Planeta, Barcelona.

 

Miller, Alice, (1983) 1987: For your own good. The roots of violence in child-rearing, Virago Press, Londres.

 

Raul Iturra

 

lautaro@netcabo.pt

 

Original A Página da Educação, 26 de Junho de 2000

 

Revisto em 20 de Outubro de 2013.

 



 



 



 



 

Pais contra greve dos professores

A frase é lapidar. Os professores não podem fazer de conta que não percebem. Esta greve só serve à Frenprof :

Uma decisão que Jorge Ascensão admitiu ver “com muita apreensão”, por antecipar “o impacto que vai ter no trabalho feito durante o ano lectivo, quer pelos alunos, quer pelos docentes”, mas também na organização das famílias.

“Gostaríamos muito que fosse possível encontrar outras formas de defender os interesses e que fosse possível olharmos para a educação com o objectivo de proporcionar aos nossos jovens o que eles precisam”, referiu o presidente da Confap.