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BandaLarga

as autoestradas da informação

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A IGNORÂNCIA QUE ALUCINA

Esta manhã, por momentos, fui tentado a pensar que tinha transcorrido mais um ano da minha vida, sem que disso tivesse dado conta. Catorze meses em que não fruíra do dom de estar neste mundo transitório, gozando dos seus prazeres, contribuindo na modéstia do meu engenho para o bem comum, se bem que, por outro lado, isento de arrostar com as correlativas agruras.

 

Ouvindo a reportagem do debate da Antena 1, durante uma das suas costumeiras e inúteis intervenções, impedindo que fosse escutado o que interessa – as intervenções dos deputados – uma jornalista, de nome Flor, que até pode ser flor que se cheire, mas não inebria pela oportunidade ou pelo rigor, afirmou, a dado passo: “Em 2016, o mandato do primeiro-ministro acabou”.

 

Não sei que escolaridade a Senhora terá cumprido, mas, hoje, os jornalistas são tidos como dos profissionais mais letrados.

 

São tidos.

 

Aquela estação integra o “Serviço Público” que estipendiamos generosamente, e do qual se esperaria um tratamento adequado da língua. Para que, quem não teve a oportunidade ou não a quis aprender, se habituasse a ouvi-la com correcção e, dessa forma, a assimilasse.

 

Não sei se o Nogueira das manifestações, dos protestos e das catilinárias infrenes ainda se lembra de como se ensina e se ainda se dá conta dos muitos dislates que ouvimos daquele “Serviço Público”. Se, ao fim e ao cabo, ainda sabe ou alguma vez soube, do disparate que a expressão constitui.

 

Mas ficar-lhe-ia bem protestar por eles. Porque se trata de mal do sistema de ensino de e péssimo “Serviço Público”. E o governo é responsável.por ambos.

 

Entretanto, ousemos ter esperança de que, em 2016, a dita Flor e outros já tenham aprendido que existe um tempo verbal que se designa por “futuro perfeito”.

 

A esperança só morrerá depois de termos morrido.

OUÇAM AS VÍTIMAS MORTAIS

No dia 16 de Janeiro do ano que está a terminar, fui, como qualquer mortal, desempenhar tarefas da minha profissão.

 

Chovia e ventava abundantemente ao fim da manhã, altura em que regressei ao parque de estacionamento onde tida recolhido o meu carro. Com o afã de me abrigar da intempérie, acedi ao local do estacionamento pelo caminho mais directo – o acesso para viaturas. A humidade acumulada na rampa, o facto de ter ambas as mãos ocupadas (uma com a pasta, outra com o guarda-chuva) e a pressa de encontrar resguardo fizeram com que perdesse o equilíbrio e caísse desamparado.

 

Ali, no chão de cimento, estatelei-me como qualquer mortal, vítima da minha própria incúria.

 

Portanto, uma vítima mortal.

 

E, como vítima mortal que sou, posso dar testemunho dos largos meses de dores musculares de que fui afectado, mesmo tendo tido a sorte de nada ter fracturado ou rompido.

 

Vantagem das vítimas mortais é que, estando vivas, mortais que são, podem fruir da experiência negativa que as vitimou, corrigindo comportamentos, e elucidar os demais mortais que possam ser vítimas de situações semelhantes.

 

O caso que relatei poderia ter sido mais grave. Por exemplo, se o impacto tivesse sido com outra zona do corpo, ou se o desequilíbrio me tivesse atirado para local sem amparo. Teria sido, então, uma vítima morta, caso em que não teria a oportunidade de fazer o presente relato e tecer estas breves considerações.

 

Há acidentes mais ou menos graves. Há danos materiais e corporais; mas também há os intelectuais.

 

Nesta vertente, sou uma vítima mortal, permanentemente fustigada pela iliteracia dos que têm o privilégio de escrever nos jornais que lemos ou falar nas estações que ouvimos.

 

Vamos aprender português?

 

E, por favor, depois de perceberem a asneira, quando relatarem um sinistro não comecem a dizer “vítima morta”, Porque quem está morto foi, seguramente, vítima.

 

Há palavras simples que a mãe ou o pai ensinam, mesmo antes de entrarmos na escola – “morto”, “ferido” e “sobrevivente”. São palavras boas, aptas à expressão  correcta e inequívoca.

 

Ficaremos gratos, porque a língua é património de todos e a sua ofensa a todos fere.

 

Ouçam, pois, o apelo desta vítima mortal que vos escreve

HÁ PALAVRAS ESDRÚXULAS QUE SÃO RIDÍCULAS

Venho de ouvir a Provedora do Ouvinte da RDP, falando, no exercício do seu cargo, aos microfones da Antena 1.

Versava o serviço público de rádio e televisão, sustentando que nunca ou muito dificilmente um privado poderia executá-lo com proficiência. E dedicando larga parte do programa de hoje a tal matéria.

Será interessante ler a norma do art. 23º-D da Lei nº 33/2003, de 22 de Agosto (na republicação da Lei nº 2/2006, de 14 de Fevereiro) a qual define as competências do Provedor.

Dela vemos que a incursão por tal domínio extravasa claramente as ditas competências. A Senhora Provedora migrou das funções (pelas quais é paga, com dinheiro nosso) de defesa dos interesses dos ouvintes e do rigor e adequação dos conteúdos, envolvendo-se na querela política das bases de funcionamento do serviço público.

Por outras palavras, abandonou a provedoria do ouvinte para tratar da sua própria e da daqueles a quem (devidamente remunerados, também por nós) incumbe a prestação desse serviço.

Não é de deixar passar em claro, mas, neste caso, é de somenos.

Avançando na temática da sua intervenção, salientou, bem, que a comunicação pela rádio exige rigor de dicção e o uso correcto da língua. E, em exemplos que deu, lá falou em “rúbricas”. Isso mesmo, assim pronunciado, esdruxulizando o que é grave.

É grave.

Porque é grave a palavra “rubrica”; por se tratar de texto que era lido, logo, sem os percalços do improviso; porque o exercício do cargo deve ser confiado a pessoas de reconhecidos méritos na área da comunicação (art. 23º-A, da mesma lei).

Também sou de opinião que o serviço público não deve ser exercido por privados. O que, porém, não significa que o monstro de lixo e de caros privilégios indevidos que é a RTP não deva ser desmantelado, se não for possível passá-lo a patacos.

E, por falar em privilégios, que a provedoria seja entregue a quem saiba e seja independente. Como manda a lei.