Perguntou a juíza à queixosa de violação. Para a juíza se a mulher não conseguir impedir a submissão é considerada cúmplice se não mesmo culpada. É esta a ideia que se faz da mulher que só é violada se quiser. Já na minha juventude ( e já lá vão uns bons anos) contava-se a seguinte história :
Em tribunal ( é interessante o ambiente também ser o de uma sala de audiências) o juiz dirigiu-se à queixosa e disse-lhe, "mas como é que a senhora foi violada de pé se é mais alta que o acusado ?" E a mulher respondeu. "Sabe é que eu agachei-me."
Não é de agora que a vítima sexual ou doméstica é tida como alguém que, como diz o bêbado enquanto bate na mulher, "eu não sei porque lhe bato mas ela sabe."
E é unânime a ideia que, "entre homem e mulher ninguém mete a colher ",. O enraizamento social desta ideia explica porque a violência passa ao lado das testemunhas como a família e os vizinhos. Todos calam.
Este mundo fechado à auscultação da sociedade civil é o lado mais negro do estado. É onde se cruzam interesses individuais e corporativos que minam o interesse geral. Funcionários que estão dos dois lados da barricada. É assim que nascem as PPPs, as swaps, as consultadorias. E as prescrições.
Na primeira página do Correio da Manhã vem uma notícia que é tão aterradora quanto a prescrição do processo de Jardim Gonçalves. O Juiz que deixou prescrever o processo pode vir a ser funcionário do Banco de Portugal o outro elemento suspeito de não ter sido suficientemente expedito para impedir este final inaceitável. Este encadeado sem fim, que permite que no interior da administração pública o mesmo profissional possa, ao longo da sua carreira, ocupar lugares e funções que em dada altura foram incompatíveis, leva a indesejável promiscuidade. Pode ser que não seja nada. Pode até ser que nada tenha a ver com nada, mas há coincidências que destroiem o que de melhor temos. A confiança no estado e em quem o serve.
No 4ª República. Nós por cá vamos na frente. Os juízes decidem sobre tudo, mesmo sobre os assuntos suscitados por quem foi eleito. Os juízes não são eleitos não se percebe como é que são o último recurso na vida política. Na Constituição, na Educação, na Saúde, nas Pensões...
Como é que os juízes do Constitucional podem decidir com equidade ( apoiar-se mais na convicção intima da justiça natural do que na letra da lei) nas pensões quando são eles os mais beneficiados de todos? Claro que o principio tomado como "principio absoluto" tinha que ser o da confiança. Poderiam os juízes verem defraudadas as suas expectativas de terem direito à reforma aos quarenta anos de idade e dez de função? Esperava-se que seriam eles a abrir a porta à equidade ?