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BandaLarga

as autoestradas da informação

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COMO NOS FILMES DE TERROR

Como quase toda a gente, já fui aficionado dos filmes de terror. Terá sido, talvez, uma das formas de manifestação daquela arrogância própria da juventude, a afirmação de que tudo nos parecia tão natural como o beber de um copo de água. Como se a rotação de cento e oitenta graus do pescoço de Linda Blair no “Exorcista” fosse tão placidamente aprazível como a imagem, no auge do encanto, da Natalie Wood, no “trailer” do “Esplendor na Relva”. Aludo ao “trailer”, porque só após Abril de 74 pude ver o filme; o limite de acesso era rigoroso – para maiores de 21 anos.

 

Havia alguns amigos, normalmente amigas, mais sinceros. Confessavam a rejeição pelo género e que algumas cenas os deixavam profundamente perturbados. Que iam a essas sessões para acompanhar os que gostavam, mas com a íntima promessa de que, nos momentos mais intensos, usariam a simples faculdade de cerrar os olhos para se proteger da agressão. Porém, reconheciam mais tarde que, por motivo que não alcançavam, os músculos não obedeciam ao comando do cérebro, pelo que acabavam por assistir, grudados pelo terror, a todos os pormenores do filme.

 

Chegado a uma idade em que esses pudores de juventude são atirados para o baú das coisas ridículas do passado, devo confessar que me lembro muitas vezes desses amigos mais sinceros, porque me comporto como eles. Sucede tal quando, enquanto conduzo, ouço na rádio um comentário político que me exaspera, não pela ideologia de quem o faz mas pela vacuidade do conteúdo, ou um destes políticos responsáveis pela penúria a que chegámos, mas que, por razões que deveriam ser estranhas, são os ouvidos acerca da solução (como se quem criou o problema conseguisse resolvê-lo). Seria fácil mudar de estação, mas não o faço. Não sei explicar porquê, mas fico a assistir aos esquartejamentos, às sangrias, e aos pedaços de cadáver a voar, a alta velocidade, na minha direcção.

 

Foi, hoje, o caso do Prof. Freitas do Amaral.

 

Entre as diversas passagens atentatórias da normalidade do ritmo cardíaco, destaco a explicação do Professor para o facto de, em 2011, ter recusado a hipótese de restruturação da dívida e, agora, ter assinado o famoso “manifesto”. Poderia esperar explicações prosaicas, tais como os efeitos da austeridade terem sido mais gravosos do que o esperado ou a melhoria dos indicadores económicos (que, pasme-se, até Arménio já invocou) e a estabilização dos mercados permitir agora a reestruturação que antes era impossível

 

Mas não. O enredo fora mesmo concebido para chocar.

 

Explica o professor que assim agiu, porque, ao contrário do esperado em 2011, a dívida cresceu.

 

Ora, sendo que o governo que o próprio integrara, se rendera à TROIKA pedindo 78 mil milhões de euros emprestados, impor-se-ia que a interlocutora fizesse umas perguntinhas simples, tais como:

Mas, se a dívida era de 190 e se pediram mais 78, como esperava que baixasse?

Porque pensava que os 78 não eram para pagar?

Porque acha que 190+78 é igual a 110?

Porque desconhece que quem mantém orçamentos deficitários necessariamente avoluma a dívida?

 

Pois é. Embrenhado na função, nem me lembrei de que a interlocutora, sendo Flor, não é, ali, ela própria, mas a personagem criada para dar o pescocinho aos dentes sugadores.

 

Basta!

 

Mostrem-me a Raquel. Sem som, em curto “trailer”, de sorriso radioso, soquetes, saia rodada e colorido lenço a enfeitar o já bonito colo.

 

Mas, por favor, tirem-me deste filme.