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BandaLarga

as autoestradas da informação

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Abram as escolas

 
Já esgotaram os bilhetes para o "primeiro espectáculo do resto das nossas vidas" no Campo Pequeno esta segunda-feira. Ouvi o anúncio na rádio com loas à necessidade de salvar a cultura e os agentes culturais. É de saudar a reabertura das salas de espectáculo, e a possibilidade de cada um, na sua liberdade de querer tomar riscos individuais, poder ir ver um concerto se assim o entender.
O extraordinário nisto é que irão abrir as salas de espectáculo antes das escolas. É preciso salvar a cultura, mas as crianças podem continuar em casa sem o acompanhamento devido, especialmente as mais pobres e excluídas. Dizem que é para as proteger, apesar de ainda não ter morrido nenhuma criança em Portugal de COVID-19. Dizem que é para as proteger, mas em vez de conviverem num ambiente controlado de uma escola, muitas conviverão na rua ou nas praias em ambientes descontrolados (ver o que está a acontecer no bairro da Jamaica). Dizem que é para as proteger, mas muitas nunca mais recuperarão do atraso destes meses sem acompanhamento. Dizem que é para as proteger, mas o que parece mesmo é que é para agradar aos sindicatos dos professores. Não será por acaso que os infantários, onde predomina a iniciativa privada e social (e onde muitos tiveram que cortar mensalidades durante o confinamento), irão abrir ao mesmo tempo que as salas de espectáculo.
Ninguém parece muito preocupado com isto. Daqui a uns anos quando as consequências se fizerem sentir, a discussão política será entre o tamanho do subsídio e o peso do cacetete que cairá no lombo dos que acabarem na malha da criminalidade. Já ninguém quererá saber que eles também são fruto de uma sociedade elitista e corporativistas que cede às exigências (legítimas) dos agentes culturais e dos sindicatos (menos legítimas), mas ignora as necessidades daqueles que não têm voz.

A história da carochinha que encontrou 850 milhões na cozinha

A história seguinte é ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Era uma vez um ministro das finanças que encontrou um país em trajectória de crescimento e aproveitou para fazer alguns brilharetes. Tornou-se popular, mas sabia que um dia os ventos poderiam mudar. Por sorte, o cargo que ele sempre quis, governador do Banco de Portugal, ficava vago em meados de 2020, mesmo a tempo de evitar uma possível crise. Ficou combinado então que sairia por essa altura para Governador do Banco de Portugal, com uma boa imagem pública, dando lugar a um sucessor escolhido e ansioso pela sua possibilidade de brilhar.

Meses antes do culminar deste plano, um evento inesperado atira um país para uma crise económica profunda. Se saísse, o Ministro das Finanças ficaria com a imagem manchada do cobarde que sai em tempos difíceis. Por outro lado, se perdesse a oportunidade de se tornar governador do Banco de Portugal agora, provavelmente nunca mais a teria. Ao mesmo tempo, o sucessor que tinha esperado por aquela posição, não aguentava o nervosismo. O drama, o horror, a tragédia,... Era preciso arranjar uma desculpa qualquer.

O Ministro das Finanças tinha que sair sem que os portugueses sentissem muita pena, sem o culparem demasiado a ele nem ao governo. Começaram a pensar numa saída....O que é que os portugueses não gostam mesmo nada? Dar dinheiro a bancos. Foi aí que surgiu uma luzinha. Estava para breve uma nova injecção na banca planeada há muito tempo. Chamaram os dois parceiros da coligação-sombra (chamemos-lhe C e R) para combinarem o golpe de teatro. No dia a seguir à injecção, C perguntaria pelo dinheiro injectado, algo que o primeiro-ministro rejeitaria ter existido, voltando atrás no dia seguinte, deixando no ar ter sido enganado pelo Ministro das Finanças. A C queria continuar a cultivar a sua imagem anti-bancos e esta era uma boa oportunidade para o fazer. Para reforçar, no dia seguinte o R pediria a demissão do Ministro das Finanças. O R andava a ser acusado de não ser oposição e não há nada que dê mais a ideia de ser oposição do que exigir a demissão de um ministro.

Num golpe de génio, ganhavam todos. O Ministro das Finanças não sairia pela porta grande, mas também não sairia pela pequena (e, nesta altura, tudo o que ele queria era sair, nem que fosse pela janela). O primeiro-ministro não perderia popularidade pela saída do seu ministro mais popular. O seu sucessor tinha o prémio há muito prometido e pelo qual tinha trabalhado tanto. O R podia descansar mais uns meses à sombra de ter exigido uma demissão que veio a ocorrer. Ganhavam também os membros do clube de fãs de Niccolò Machiavelli que poderiam passar mais umas tardes a discutir como 5 séculos depois de morrer a sua genialidade continuava evidente.

Graças ao capitalismo e à globalização vamos ter uma crise sem fome

Foi com muita pena que fiquei a saber hoje que o jornal Defesa de Espinho irá suspender actividade durante as próximas semnas. Mais uma vítimia colateral do virus. Na sua penúltima edição, de 13 de Março, ainda a pandemia estava no seu início em Portugal, escrevi este artigo:

Corona e a globalização

Ainda não sabemos como evoluirá o COVID-19. É uma situação nova, o sistema de saúde do país já sofria com falta de capacidade antes, faltando-lhe capacidade em excesso para absorver situações excepcionais e esta pode vir a ser uma situação excepcional de grande magnitude. Por outro lado, escaldados por histerias passadas, muitas pessoas estão, compreensivelmente, a desvalorizar os riscos o que pode vir a agravar a situação. A quantidade de falsas informações que vão passando nas redes sociais também não ajuda. Eu sou crítico do atual modelo de gestão de saúde do país, mas esta é a pior altura para o discutir. Mal ou bem, serão os atuais governantes a gerir esta situação e apenas teremos que torcer para que o façam da melhor forma possível. No final cá estaremos todos (espero eu) para avaliar. Mas só no final.

É, no entanto, uma boa altura para fazer uma reflexão sobre a globalização. Este vírus teve origem na China e espalhou-se pelo resto do Mundo em parte graças à globalização e à circulação livre de pessoas. Apesar dos cuidados, chegou rapidamente a outras partes do Mundo. Será muito fácil por isso culpar a globalização e assumir o discurso nacionalista da necessidade de fechar o país ao estrangeiro. Não faltarão oportunistas a aproveitar esta situação para discursarem contra o capitalismo e a globalização. Nada mais errado.

Em primeiro lugar, a existência de pandemias é algo muito antigo. Embora a transmissão pudesse ser mais lenta sem a atual liberdade de circulação de pessoas, as epidemias no passado raramente conheceram fronteiras. Há 100 anos, sem aviação comercial, sem livre circulação e com fronteiras ainda fechadas devido à primeira guerra mundial, a “gripe espanhola” espalhou-se por todo o Mundo e matou entre 50 e 100 milhões de pessoas. Bem antes disso, a Preste Antonina atingiu todo o Império Romano tendo contribuído para o início do seu descalabro. Quando uma epidemia deste tipo aparece, com ou sem globalização, será sempre muito difícil de travar.

Em segundo lugar, porque foram a globalização e o capitalismo que permitiram que hoje tenhamos o desenvolvimento económico para enfrentar a situação com outras armas. Mesmo nos piores cenários ninguém espera que morram mais de 50 a 100 mil pessoas em todo o Mundo com o COVID-19. Há 100 anos morreram 1000 vezes mais pessoas com a gripe espanhola. O progresso proporcionado pelo capitalismo permitiu-nos garantir acesso a bons cuidados de saúde a uma parte maior da população e acabar com uma boa parte da pobreza extrema onde as epidemias têm efeitos mais perversos. A globalização do acesso a informação permite que hoje mais pessoas saibam o que devem e não devem fazer. Mesmo que muitas optem por ignorar essas informações, pelo menos têm acesso à informação. Também os estados, sabendo o que aconteceu noutros países sabem melhor o que devem fazer. Em Portugal, por exemplo, decidiu-se fechar um conjunto de instituições quando ainda só havia algumas dezenas de casos confirmados e nenhuma morte. Sem saber o que se tinha passado noutros países, e a importância de agir cedo, nunca tais medidas seriam tomadas e hoje as consequências seriam ainda mais graves.

Finalmente, outro fator muito importante: a diversificação do risco em resultado do comércio internacional. Numa sociedade fechada um vírus deste tipo causaria mortes diretas, mas também muitas mortes indiretas. Morreriam pessoas produtivas, campos agrícolas ficariam sem mão de obra, ao abandono, o que faria com que muitas mais morressem de fome e subnutrição. Uma epidemia numa região fechada ao comércio internacional ditaria muito rapidamente uma fome generalizada que poderia causar tantas ou mais fatalidades do que a epidemia em si. Nós hoje podemo-nos dar ao luxo de parar regiões inteiras, fechar todas as unidades produtivas e ainda assim não faltarem produtos essenciais nos supermercados. Hoje podemos ter epidemias sem fome e, tirando casos pontuais, praticamente sem escassez de produtos essenciais. Isto só é possível por termos uma economia globalizada em que o bem-estar de uma região não é sensível a perturbações temporárias na sua capacidade de produção.

Não faltará quem tente culpar a globalização e o capitalismo por mais esta crise. Normalmente, serão as mesmas pessoas que acusam a globalização e o capitalismo de todos os males do Mundo, dando já por adquirido tudo aquilo que beneficiaram destes dois movimentos, e ignorando que esses benefícios estão longe de ser dados adquiridos e podem ser destruídos rapidamente. Esta pandemia já é, e pode ser ainda mais, trágica, mas temos a sorte de enfrentá-la com uma capacidade que nunca tivemos antes. Será certamente muito menos trágica do que seria se não beneficiássemos dos proveitos da globalização e do capitalismo.

Os apoios estatais vão chegar aos mesmos de sempre

Na Irlanda assim que ficou decidido o isolamento, o governo decidiu pagar baixas médicas a todos os trabalhadores impedidos de trabalhar, aliviando todas as empresas afectadas do custo salarial nesta fase. Todos tratados por igual de acordo com o dano sofrido.

Em Portugal os apoios serão decididos sector a sector, empresa a empresa. Já temos todos os sectores à luta para decidir quem vai receber mais subsídios. No final, claro, ganharão os mais fortes, com maior capacidade de influenciarem os governantes. Os derrotados serão os do costume: as pequenas empresas sem capacidade de influenciarem governantes que não só não receberão subsídios como ainda terão que os pagar no futuro com uma carga fiscal maior.

O liberalismo económico no Chile elevou o país a "país desenvolvido"

As consequências do Liberalismo económico : A ligação entre liberalismo económico e político nem sempre acontece, mas existe uma clara correlação. Como podemos ver abaixo, o Chile moderno não é caso único de ligação entre liberdade económica e política. A correlação existe e é muito forte, possivelmente porque para um mercado funcionar são precisas boas instituições democráticas e a abertura que um mercado livre exige dificulta a a vida de regimes não democráticos (veja-se o caso de Hong Kong).

Em resumo, décadas de liberalismo por contraponto a outros modelos económicos testados na região, ajudaram a criar um país que, para os níveis da América do Sul, é dos mais ricos, com menos pobreza, melhores serviços públicos, melhor educação e saúde. Muitos olharão para estes dados e insistirão que as pessoas não “comem estatísticas” o que é uma forma de quem deseja negar a realidade e fingir que ela não existe. Afinal, o negacionismo não se limita a outras áreas da ciência.

O liberalismo económico trouxe progresso económico e social ao Chile, mas trouxe também outro tipo de responsabilidades. Durante este artigo comparei sempre o Chile aos seus pares na América do Sul, mas o liberalismo económico colocou o Chile noutro campeonato: o dos países desenvolvidos. O Chile é hoje um país que aspira ser de primeiro mundo, mesmo que inserido numa região que tende sempre para o terceiro.

Iniciativa Liberal : a alternativa ao ressentimento é a política do crescimento

O PS governo quase ininterruptamente há 24 anos mas os males são todos do neoliberalismo.

O país está estagnado há 20 anos. Estar há 20 anos estagnado ajudou a fomentar uma visão da sociedade perigosa. Quando um país cresce, quando o bolo da economia aumenta, as pessoas sentem vontade de trabalhar, investir e cooperar para poderem beneficiar desse crescimento. O sucesso dos outros não incomoda porque todos sentem que podem beneficiar do crescimento. O sucesso de uns cria condições para o sucesso dos outros. Quando um país não cresce, quando o bolo fica do mesmo tamanho durante muito tempo, as pessoas começam a sentir que para uns terem mais, outros têm que ter menos. Se o bolo não cresce, as pessoas começam a desenvolver o sentimento oposto ao da cooperação: a inveja. Em vez de cooperar para o crescimento, o foco passa a ser encontrar alguém para culpar por a sua parte do bolo ter diminuído. Os mais pobres culpam os mais ricos. As minorias culpam a discriminação da maioria. Entre os mais desafortunados na maioria culpa-se as minorias por roubarem oportunidades. Instala-se a política do ressentimento, do foco nas lutas pela redistribuição em vez da produção, abrindo a porta a mais socialismo e identitarismo. O socialismo cria a miséria que depois alimenta ainda mais socialismo num ciclo vicioso difícil de romper. A cultura do mérito é ultrapassada pela cultura da inveja. O foco no crescimento é substituído pelo foco no ressentimento.

22% dos idosos não conseguem aquecer as suas casas

 

Há 10 anos o governo de então, sem grande oposição política ou da opinião pública, decidiu que Portugal se deveria tornar líder mundial em energias renováveis. Foram prometidos grandes retornos às empresas privadas que investissem em renováveis. Em troca, essas empresas colocaram pessoas próximas do poder nos seus conselhos de administração. Essa aposta eventualmente reflectiu-se na conta da electricidade e chegou a representar 40% da conta da electricidade. Entretanto, no mundo real, um dos países mais quentes da Europa é também onde mais se morre de frio. Sem instalação para aquecimento a gás e com o aquecimento a electricidade demasiado caro para a maioria das pessoas, morre-se de frio no país que ia liderar o mundo no sector da energia. O fosso entre o Portugal dos políticos, dos planos quinquenais, das grandes inaugurações e das ilusões de grandeza e o Portugal real não poderia ser maior.

Enquanto que aqueles que desejam aquecer a sua casa pagam 23% de IVA sobre gás ou electricidade, os partidos políticos aprovaram à socapa uma lei de financiamento que os isenta de IVA em todas as despesas, desde a electricidade usada para alimentar as luzes nos comícios às gambas dos jantares de gala. No mesmo país em que morrem pessoas de frio no interior, a Câmara Municipal de Lisboa prepara-se para gastar 60 mil euros em cartolas. Portugal é uma enorme Raríssimas, com a diferença de que pelo menos a Raríssimas prestava um serviço decente.

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