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BandaLarga

as autoestradas da informação

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A água do Alqueva a chegar ao distrito de Setúbal

Ao PS e a Guterres ninguém tira estes créditos . Quem viu o Alentejo e o vê agora

Este investimento em Reguengos, que consiste na construção de raiz de uma zona de armazenamento e de regadio, está orçado em 39 milhões de euros. É o mais elevado dos novos 13 braços do Alqueva, espalhados um pouco por toda a região do Alentejo, sendo sete no distrito de Beja, cinco no de Évora e um no de Setúbal (Ermidas-Sado, no concelho de Santiago do Cacém).

 

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Há razões para o interior estar abandonado

Para os partidos não tem eleitores para os privados não tem mercado. Está mais que explicado.

Agora que partimos praticamente do zero é possível reconstruir na óptica da criação de riqueza e da fixação de pessoas.

Ainda há pouco tempo estive novamente na casa de um amigo numa aldeia perdida na Beira Baixa. A sua casa faz parte de uma quinta cheia de matizes de verde. Vinha, oliveira, árvores de fruto, tudo cercado por eucaliptos e pinhais. A terra é diferente, Zé ? É igual só que a minha é trabalhada.

Sempre tivemos défice alimentar, o que produzimos não é suficiente para nos alimentarmos. Há séculos que andamos a pagar os salários dos agricultores dos países de onde importamos os bens.

António Costa já falou mais do que uma vez na construção de pequenas e médias barragens para o regadio de terras no interior. O país reagiu ? Ouviu ? Discutiu ? O mesmo com a descentralização. Em Portugal o que não interessa aos negócios dos instalados à sombra do estado em Lisboa morre na espuma dos dias.

Andamos trinta anos ou mais para construir a Barragem do Alqueva. Hoje temos lá 120 mil hectares de regadio e preparam-se mais quarenta mil. O Alentejo seco e de cor da palha mudou para verde.

Claro que há sempre quem esteja procupado com os lobos e os morcegos e menos com os homens e mulheres que são obrigados a abandonarem as suas terras.

 

Reflectir no Alqueva

Dia de reflexão, fui para o Alqueva . De Lisboa à barragem um caminho com olivais e vinhas a perder de vista. Quem se lembra do Alentejo abandonado ?

É impressionante os tons de verde que pintam o Alentejo, novos produtos a cruzarem-se com o sequeiro onde pasta o gado.

Lá fiz o passeio de barco seguido de um almoço onde esteve arredada a gastronomia alentejana trocada por um banal bacalhau e um ainda mais banal arroz de  pato. O vinho era do melhor ali de Reguengos e não havia dúvidas que os milhares pés de vinha estão bem à vista.

Depois Monsaraz, altaneira, bem conservada com uma vista sobre o Guadiana de cortar a respiração.

Na volta, tocados pelo tinto lá viemos a discutir as eleições . Numa coisa estivemos de acordo, se ganha foi porque teve mais votos, nada a dizer, entre as risadas à vista do "cromanhon" fálico que segundo uma colega e amiga servia para atrair a energia solar. Cada um (a) chama-lhe o que quiser, mas energia mesmo era a necessária para transportar o monstro para o lugar e pô-lo de pé. Coisa que ainda hoje não é para todos.

 

Alqueva mudou o Alentejo

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 Ainda há muitos obstáculos mas o Alentejo mudou para muito melhor como se pode ver no gráfico acima

A reboque da atividade agrícola crescente, são já vários os concelhos da região em cujas áreas industriais começam a escassear os lotes disponíveis. Tudo porque, segundo aquele responsável, há cada vez mais empresas fornecedoras de meios de produção (e também na área da agroindústria) que se estão a “instalar em força” no perímetro do regadio.

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As terras agrícolas mais ricas da Europa

Ficam na chamada Bacia de Paris e no perímetro do Alqueva. Com muito sol e muita água. Ali produz-se de tudo, segundo declarações de um dos mais importantes empresários agrícolas nacionais.

E para os lados da orla atlântica alentejana produzem-se frutos vermelhos ( framboesas, amoras...) com uma produtividade muito superior aos países consumidores no norte da Europa.

Estas condições raras para a agricultura estão a chamar jovens empresários, bem preparados académica e profissionalmente.

Portugal é, na análise do Cedefop, emblemático. No país que outrora foi profundamente agrícola, o maior número de oportunidades de emprego está, justamente e outra vez, na agricultura – cerca de 26% do total será para trabalhadores qualificados em agricultura, floresta e pesca, muito acima da projeção para a UE”, referem os peritos. Pelas contas da agência europeia, isto vale quase 600 mil postos de trabalho que podem ficar vagos até 2025. 
 
Mas é preciso dinheiro para investimento, fazer chegar a tempo e horas às empresas os subsídios. E o crédito bancário tem que se envolver na actividade. Infelizmente, como mais uma vez se está a ver o dinheiro não chega à economia. Vai prioritariamente para o consumo interno o que faz aumentar as importações de produtos que bem melhor podemos produzir cá.
 
E antes de tudo o dinheiro foi para as autoestradas e para os campos de futebol, pavilhões e rotundas.

A missão é reduzir o déficite alimentar

Com a chegada da água do Alqueva tudo mudou no Alentejo. E lá fora a qualidade dos nossos produtos é apreciada. Estamos a reduzir o deficit alimentar que ainda está nos 2,8 mil milhões de euros. Em 2014 a redução foi de 600 milhões, ajudada pelas exportações agro-alimentares em 8% ( para os 6 mil milhões) e a quebra nas importações em 3%.

Ainda assim, a ordem da UE é para produzir mais e produzir melhor. O sector nos últimos 5 anos recebeu investimentos no valor de 7 mil milhões de euros ( a maioria de investidores portugueses).  Há apenas 80 mil hectares de terra arável disponível por utilizar.

Fixaram-se na terra praticamente 9 000 jovens agricultores e o novo programa no seu primeiro ano de vida aumentou o número de candidaturas relativamente aos anos anteriores. Há ainda uma grande margem para crescer na Agricultura e no Mar que por enquanto apenas representam 2% do PIB.

No mar já há produção de sal e flor de sal, produção de ostras em aquacultura e cultura de salicórnia ( planta marítima que até há bem pouco era considerada uma praga) para além das indústrias historicamente ligadas ao mar existentes no país .

Oxalá que os meios financeiros, técnicos e humanos continuem a ser reorientados para a produção de bens transaccionáveis, única forma de criar postos de trabalho duradouros.

 

Maior projecto da história da indústria aeronáutica portuguesa

Para além do Alqueva, o Alentejo tem Sines e as fábricas da Embraer em Évora. Para além de tudo o mais que a natureza lá colocou. O Alentejo da fome e dos agrários a viver no Estoril. E da agricultura de sequeiro raquítica.

Três das aerostruturas do avião do terceiro maior construtor aeronáutico do mundo  -  sponson (carnagem e portas do trem de aterragem), o leme de profundidade e a fuselagem central – foram desenvolvidas pelo centro português de engenharia e inovação CEIIA.

Neste projecto, o maior da história da indústria portuguesa de aeronáutica, o CEIIA empregou mais de 250 mil horas de engenharia e mais de 120 engenheiros a trabalhar a partir de Portugal.

Este avião tem a capacidade certa para operar a partir da Base de Beja rumo à europa com os  nossos produtos agrícolas regados pela água do Alqueva.

 

 

Construam-me, porra!

Alqueva está a mudar o Alentejo. E a nossa agricultura. Verdes, fruta, oliveira, vinho, turismo...mas a água tarda a chegar. Parece que é desta. A barragem de Alqueva foi iniciada nos governos de António Guterres. Há mais de vinte anos e depois de tanto dinheiro desbaratado em obras inúteis. De acordo com a EDIA, atualmente, dos cerca de 120.000 hectares de regadio do projeto global de Alqueva, 68.000 estão instalados, 20.000 em obra, 20.285 foram hoje adjudicados e os restantes 10.000 estão em processo de concurso e vão marcar a conclusão do empreendimento em finais de 2015. Produtos para exportar e para substituir importações isto, claro está, se não continuarmos a comer uvas do Chile . Na região até existe o aeroporto de Beja que bem poderá ser a porta de escoamento dos produtos frescos para toda a Europa. E o porto de Sines também está ali perto. Como estava escrito, nos anos 70, numa das paredes da barragem em bom Alentejano : Construam-me, porra!

 

O Alqueva vai ser outro Algarve com milhares de camas?

Hotéis, resorts, segunda habitação, campos de golfe, aldeamentos turísticos, picadeiros, clube de ténis...milhares de camas que tomaram de assalto as planícies do sul. Na região do Alentejo do litoral ao interior estão em construção dezenas de projectos para grandes conjuntos turísticos. Hoje uma visita aos resorts do Alqueva é uma experiência inquietante.

Com a nova albufeira, surgiu a promessa de um novo destino turístico, capaz de dinamizar a economia da região. Como programar tal transformação sem fazer perigar as características regionais que lhe dão sentido? O grande lago tem 1 160 quilómetros de margens o que faz do recreio  náutico e do golfe instrumentos fundamentais a par dos produtos tradicionais.

A habitual confusão da legislação aplicável permitiu, com a ajuda dos Projectos de Interesse Nacional (PIN), a subversão da estratégia territorial preconizada para o Alentejo, que se caracterizava pela contenção da edificação em solo rural.

O colapso do sistema financeiro deixou estes investimentos em banho-maria, dando segunda oportunidade ao Alqueva. Estamos a tempo de parar com os mamarrachos que farão do Alentejo um novo Algarve.

PS : a partir de um texto do "Jornal dos Arquitectos"