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BandaLarga

as autoestradas da informação

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É ABORTO

Com surpresa, ouvi ontem na Antena 1, o Prof. Malaca Casteleiro retorquir com veemência a um interlocutor que verberara a palavra "fato, forma gráfica imposta do que, no português europeu, se escreve "facto". Explicou o Professor, apodado de "pai do acordo" na apresentação do programa, que assim não era. Como o "c" se pronuncia, continua a escrever-se da mesma forma. Mas não é. Com esforço, lá fui ler a parte do texto repugnante. Da Base IV: "c) Conservam-se ou eliminam-se facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção;" Quando o pai não conhece o filho, algum deles não há-de ser grande espingarda. Ou não chegou a nascer. É aborto.

E PARA O CU NÃO VAI MAIS NADA, FRANCISCO?

Na verdade, esta de obrigar clientes a exigir factura só podia sair de uma cabeça socialista. É um resquício da filosofia do informador secreto que qualquer cidadão tinha de ponderar ser a alma viva que estivesse mais próxima.

Mas é tão impraticável, tão incontrolável e tão obviamente ilegal que qualquer cidadão sensato a encara como uma inutilidade propagandística tão própria deste regime que nos vendem a peso de ouro.

De pasmar, pois, o pasmo de um homem que deveria ser de cultura. Que se indignou perante algo que não deveria merecer mais do que um encolher de ombros acompanhado daquele ligeiro flato labial que provocamos como único comentário possível para algo despiciendo.

Francisco indignou-se. E fez questão de deixar clara a intenção de eleger como vítima da sua justificada ira o infeliz funcionário que que venha a ser encarregado de o fiscalizar. Ele que vá “tomar no cu”.

A culpa, naturalmente, se tal acontecer, não será do funcionário, mas de quem impuser a conduta. Francisco quer punir quem, como ele, seria vítima, não autor, do acto criticável.
O que é mais próprio do boçal do que do culto.

Há coisas piores. Bem piores.

O chamado “acordo ortográfico”, por exemplo. Porque pode ser aplicado, porque desfigura a língua que é nossa e que amamos, a transforma numa amálgama promíscua de seguidores e resistentes, porque nos coloca na humilhante situação de, sendo a sua pátria, sermos também o único país lusófono a transformá-la.

Francisco esteve num dos poucos lugares onde alguma coisa poderia ter sido feita. Nada fez e, muito a medo, disse um dia que a coisa carecia de umas ponderações. Sem dizer quais ou para quando. Talvez porque não soubesse e, seguramente, porque não queria.

Até o mimo que projecta fazer ao funcionário inocente é bem do outro lado do Atlântico. Como Francisco sabe, em Portugal, não mandamos “tomar”. Podemos mandar “apanhar” ou no “levar no cu”. Podemos fazê-lo antes ou depois do pequeno-almoço, mas sempre sem qualquer relação com o café-da-manhã.

Pena que Francisco tenha escrito o que escreveu quando já não estava em funções públicas.

Teria todo o gosto em dirigir-me ao SEC, questionando se estaria autorizado a mandar apanhar no cu aqueles que obrigam alunos, funcionários, candidatos a empregos públicos a escreverem na língua de Sócrates e Cavaco. Ou que obrigam outros, como eu, a lê-la.

O CORNO

Alguma vez, em qualquer dos lados do Atlântico, algum lusófono teve dificuldade em entender o que o seu irmão da outra banda escrevia?
 
Alguma vez, foi alguém capaz de aduzir um argumento minimamente procedente para justificar a brutal a agressão à vertente escrita da língua, que não fosse uma unificação completamente irrelevante e uma potencialidade de expansão, totalmente por demonstrar?
 
Mais tarde, com razão inatacável e inatacada, houve quem alertasse para que, ao contrário, estaríamos a dificultar o conhecimento da nossa língua por parte de outros europeus. Espanhóis (nas suas diversas línguas) franceses, ingleses, alemães têm, por exemplo, o "c" ou equivalente na palavra "actual" ou em muitas outras em que nós o usamos como mudo, ou, sendo mais preciso, assim o chamando, porque, em boa verdade, não o é.
 
Portanto, a grafia a impor despoticamente, mais do que inútil, era, em boa verdade, nociva à dita expansão e à virtualidade do seu crescimento.
 
Bem que os africanos lusófonos fizeram expressas menções de recusa de tal imposição.
 
A legalidade também não a sustenta, já que não houve ratificação por número suficiente de estados membros da CPLP para que possa considerar-se em vigor.
 
Os governos, actual e precedente, avessos à legalidade, ignoraram o bom senso, o rigor científico, o respeito pelo nosso íntimo património.
 
Não foi um tonto quem disse "a minha pátria é a língua portuguesa".
 
Temos professores que, à pressa, tiveram (sem conseguir) de aprender para ensinar. Temos meninos que se iniciam nas letras e sofrem por ter de aprender com quem (sem culpa) não sabe. Temos outros, que se haviam iniciado hápouco, confrontados com a dificuldade de desaprender o que tinham aprendido bem, para mal aprender o que está mal.
 
E está mal, de facto.
 
Quando o dano é já de difícil (contudo, desejada) reparação, quando rios de dinheiro jábrotaram dos nossos cofres desertos, do Brasil, vem a novidade - a Presidente Dilma prepara-se para, por decreto, adiar por três anos a vigência do acordo. Sabendo nós que estes adiamentos são apenas o prenúncio de outros que, sucessivamente, ocorrerão até à caducidade prática da medida.
 
Eis-nos, pois, no caricato - ficamos a escrever brasileiro de Portugal, os brasileiros continuarão a escrever brasileiro do Brasil e o português escrito destinado ao uso de africanos e orientais.
 
Em frente ao altar, esperamos pela noiva que já disse que viria mais tarde, muito mais tarde. Nós sabemos que nunca virá.
 
Mas, o grave é que entregámos o dote antecipadamente.
 
Mesmo assim, estamos contentes. Mansos.

O CORNO

Alguma vez, em qualquer dos lados do Atlântico, algum lusófono teve dificuldade em entender o que o seu irmão da outra banda escrevia?
 
Alguma vez, foi alguém capaz de aduzir um argumento minimamente procedente para justificar a brutal a agressão à vertente escrita da língua, que não fosse uma unificação completamente irrelevante e uma potencialidade de expansão, totalmente por demonstrar?
 
Mais tarde, com razão inatacável e inatacada, houve quem alertasse para que, ao contrário, estaríamos a dificultar o conhecimento da nossa língua por parte de outros europeus. Espanhóis (nas suas diversas línguas) franceses, ingleses, alemães têm, por exemplo, o "c" ou equivalente na palavra "actual" ou em muitas outras em que nós o usamos como mudo, ou, sendo mais preciso, assim o chamando, porque, em boa verdade, não o é.
 
Portanto, a grafia a impor despoticamente, mais do que inútil, era, em boa verdade, nociva à dita expansão e à virtualidade do seu crescimento.
 
Bem que os africanos lusófonos fizeram expressas menções de recusa de tal imposição.
 
A legalidade também não a sustenta, já que não houve ratificação por número suficiente de estados membros da CPLP para que possa considerar-se em vigor.
 
Os governos, actual e precedente, avessos à legalidade, ignoraram o bom senso, o rigor científico, o respeito pelo nosso íntimo património.
 
Não foi um tonto quem disse "a minha pátria é a língua portuguesa".
 
Temos professores que, à pressa, tiveram (sem conseguir) de aprender para ensinar. Temos meninos que se iniciam nas letras e sofrem por ter de aprender com quem (sem culpa) não sabe. Temos outros, que se haviam iniciado hápouco, confrontados com a dificuldade de desaprender o que tinham aprendido bem, para mal aprender o que está mal.
 
E está mal, de facto.
 
Quando o dano é já de difícil (contudo, desejada) reparação, quando rios de dinheiro jábrotaram dos nossos cofres desertos, do Brasil, vem a novidade - a Presidente Dilma prepara-se para, por decreto, adiar por três anos a vigência do acordo. Sabendo nós que estes adiamentos são apenas o prenúncio de outros que, sucessivamente, ocorrerão até à caducidade prática da medida.
 
Eis-nos, pois, no caricato - ficamos a escrever brasileiro de Portugal, os brasileiros continuarão a escrever brasileiro do Brasil e o português escrito destinado ao uso de africanos e orientais.
 
Em frente ao altar, esperamos pela noiva que já disse que viria mais tarde, muito mais tarde. Nós sabemos que nunca virá.
 
Mas, o grave é que entregámos o dote antecipadamente.
 
Mesmo assim, estamos contentes. Mansos.