Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

BandaLarga

as autoestradas da informação

BandaLarga

as autoestradas da informação

SOCIALISMO HETEROGÉNEO - 2 ª parte- Prof Raul Iturra

Questão que parece retórica, mas o não é para quem está interessado em resolver conflitos, por ter já a França passado por muitos – acaba de terminar a Grande Guerra do Século XX e prepara-se o movimento nacional-socialista que organiza uma estratégia anti sionista, que faz tremer todos os judeus, entre os quais se inclui o próprio Mauss. Este não fica parado e organiza uma defesa, traduzida em carta, datada de 1936 e endereçada ao seu camarada Éli Halévie, que este publica no Bulletin de la Société française de philosophie:Bolchevisme, fascisme, hitlérisme,1. Este texto pouco difundido, merece pelo menos uma citação extensa, para entender o posicionamento de um homem alarmado pela guerra, pelas morte ocorridas entre os seus discípulos e, especialmente, pelo desaparecimento do seu Mestre e tio, Émile Durkheim, ao que se deve acrescentar o tratamento proporcionado pela terceira invasão alemã de Paris, que não teve, naturalmente, nenhuma simpatia por nenhum dos sábios que pertenciam ao grupo perseguido pelo ditador da Alemanha. A morte, num campo de concentração, do seu primo direito, causou em Mauss uma imensa tristeza que o levou à doença denominada paranoia e, a seguir, a um comportamento infantil, ocultado por ter sido um cidadão exemplar dentro e fora do seu país. Da sua Nação que tanto amou e pela qual lutou, não tendo feito como muitos outros cientistas, que fugiram para o porto de abrigo, Inglaterra, como Freud teve de fazer com a sua família no dia anterior à sua detenção.

Em consequência, quem escreve esta carta é um homem assustado e alquebrado pelo desaparecimento de uma Nação à qual tinha devotado esforço, sabedoria e, especialmente, ideias, em textos denominados eruditos como nos do seu jornal, L’Humanité.O texto que selecionei, diz : « Votre déduction des deux tyrannies italienne et allemande à partir du bolchevisme est tout à fait exacte, mais c’est peut-être faute de place que vous me laissez le soin d’indiquer deux autres traits. La doctrine fondamentale dont tout ceci est déduit est celle des « minorités agissantes », telle qu’elle était dans les milieux syndicale - anarchistes de Paris, et telle surtout qu’elle fut élaborée par Sorel, lorsque j’ai quitté le « Mouvement Socialiste », plutôt que de participer à sa campagne. Doctrine de la minorité, doctrine de la violence, et même corporatisme, ont été propagés sous mes yeux, de Sorel à Lénine et à Mussolini. Les trois l’ont reconnu. J’ajoute que le corporatisme de Sorel était intermédiaire entre celui de Pouget et celui de Durkheim, et, enfin, correspondait chez Sorel à une vue réactionnaire du passé de nos sociétés. Le corporatisme chrétien -social autrichien, devenu celui d’Hitler, est d’un autre ordre à l’origine ; mais enfin, copiant Mussolini, il est devenu du même ordre. Mais voici mon deuxième point. Je n’appuie davantage que vous sur le fait fondamental du secret et du complot. J’ai longtemps vécu dans les milieux actifs P.S.R., etc. russes ; j’ai moins bien suivi les social - démocrates, mais j’ai connu les bolcheviks du Parc Montsouris, et, enfin, j’ai vécu un peu avec eux en Russie. La minorité agissante était une réalité, là-bas ; c’était complot perpétuel. Ce complot dura pendant toute la guerre, tout le gouvernement Kerenski, et vainquit. Mais la formation du parti communiste est restée celle d’une secte secrète, et son essentiel organisme, la Guépéou, est resté l’organisation de combat d’une organisation secrète. Le parti communiste lui-même reste campé au milieu de la Russie, tout comme le parti fasciste et comme le parti hitlérien campe, sans artillerie et sans flotte, mais avec tout l’appareil policier»2

 

Estou ciente de estar a citar um autor virado do avesso. Porque a sua atividade política era bem diferente, antes da ameaça à sua vida pela fatal conjuntura histórica fascista. Penso que, de momento, é tudo o que quereria comentar sobre este texto, para voltarmos ao Mauss cidadão de Direito que comenta a Revolução Russa, como comecei a citar mais acima, e que continua com uma outra parte muito interessante, que retiro do texto original:

«Car le bolchevisme n’est pas une théorie. Sa théorie n’est qu’un marxisme intégral peu différent du marxisme le moins orthodoxe. Le bolchevisme est exclusivement une méthode d’action, et une forme de constitution de parti. Les procédés d’un des partis socialistes russes, sanctionnés par le succès, sont élevés à la hauteur d’une règle générale de tous les partis. Ces principes ne sont que de forme et de politique : constitution clandestine, discipline, centralisation, action violente, puis, en cas de succès, dictature terroriste contre la majorité du pays qui se sera laissé dessaisir. Au fond, il n’y a rien de nouveau en tout ceci. C’est avec des principes marxistes le vieux Comité révolutionnaire central, le Blanquisme, moins ce qui fit sa grandeur : la tradition républicaine et nationale. Le Parti est-il bolcheviste ? Se transformera-t-il en un vaste Comité révolutionnaire central ? Proclamera-t-il qu’il n’y a que cette méthode d’action ? Voilà toute la première question. Que ceux qui sont bolchevistes le disent et le disent en public comme dans le Parti ?....» «Oui ou non, est-on bolcheviste jusqu’au bout ? Veut-on un parti de tendance, une Internationale de tendances ? La IIIe Internationale et, en attendant, le parti communiste français, sont-ils exclusivement bolcheviks ? La IIIe Internationale comprendra-t-elle des représentants de tous les partis socialistes, y compris les partis russes non bolchevistes ? Et le parti communiste français sera-t-il un parti admettant d’autres tendances que la sienne ? Voilà ce qu’il faut dire à ceux qui votent en ce moment.

Car si l’adhésion à Moscou n’est que l’adhésion à une Internationale comprenant toutes les tendances, je ne vois pas qui pourrait la refuser. Si l’IIIé Internationale est l’assemblée unique de tous les socialistes du monde, si elle ne réclame l’accord que sur la doctrine, et non sur la tactique, c’est même le devoir de tous d’y adhérer, comme à toute autre de même tolérance.

Peu importe, dans ce cas, qu’une minorité adhérente, mais tenue par des décisions, soit annihilée, n’ait plus ni bénéfices, ni charges, ni même moyen de contrôle Pour notre part, et je crois, pour nombre de vieux militants, nous laisserons volontiers aux autres les devoirs qui pesèrent longtemps sur nous, sans bénéfices. Si l’on décide de nous éliminer des Conseils, de supprimer la Représentation proportionnelle, ce ne sera pas une raison pour nous de quitter le Parti. Au contraire. Ce sera un moyen pour nous de nous décharger de toute responsabilité et de faire plus intense celle de la majorité.»

Este é o Marcel Mauss legalista, bolchevique e cidadão lutador. Muito diferente do Mauss que viria a ser depois, como refere Dominique Colas, no texto em que recenseia, comenta e expande as ideias do artigo de l’Humanité de Mauss de 19203. A questão mais importante que coloca Colas é: onde está o autor de L’Essai sur le don? Para concluir que é justamente este o objetivo do texto – procurar a lei e o contrato social para interagir. Pessoalmente, tenho sempre afirmado que oferecer um presente, é obrigar a um outro a trabalhar para mim, e é o que penso que Mauss denuncia, dentro do seu pensamento socialista. No entanto, ao longo de todo o livro, Mauss aplica a análise da teoria à qual tinha aderido, a do materialismo histórico, ao passar pelo crivo do tempo e da cronologia, as análises de Malinowski e de Boas e outros autores; ao falar do Direito Indiano, por exemplo, está a submeter a análise etnográfica a uma análise económica. O ensaio da dádiva, é um texto de Economia Ocidental e não da economia arcaica, como ele denomina, apesar da maior parte dos antropólogos entenderem o livro como um romance de três movimentos para a circulação dos bens, como se não existisse o mercado do qual Mauss fala: Ocidental e arcaico. Todo o livro está impregnado de teoria económica socialista, com críticas para a economia liberal ou livre-mercado. Ao falar de oferta e aceitação, descreve uma interação que parece ser sem dinheiro, mas que ele mesmo prova com referências a outros Direitos não ocidentais, tal e qual Malinowski tinha já referido em 1922, que a circulação de bens úteis e necessários para as pessoas continuarem dentro da História, é puro comércio (Malinowski) ou, então, uma mentira social (Mauss). É um livro pacífico, porque a sua conclusão propõe a redação de um Contrato sob uma nova lei que considere as pessoas como iguais, no seguimento das ideias de Émile Durkheim, que refere que não existe atividade nenhuma que não seja medida pela teoria do valor. Teoria do valor presente de formas diversas no Essai sur le don, em tantos sítios, que é suficiente ler o índice para reparar no tipo de análise organizado ao longo de 223 páginas. Especialmente o Capítulo IV, que refere o Direito Germânico, Hindu Clássico e define os conceitos de Direito Real e Pessoal, é dizer, sobre pessoas e coisas (real ou in rem, como definia o Código Justiniano), e direitos pessoais ou entre ascendentes, descendentes ou pessoas que tenham celebrado um contrato ou de compra e venda, ou de trocas suplementares que acompanham o contrato central, como a transferência de terras ou edifícios, ou o aluguer. Enquanto faz esta análise do Código de Justiniano, compara estes direitos com os Indonésios, Haida, Kiriwina, Kwakiwtl, por outras palavras, o Ensaio é um texto de Direito e não um romance sobre reciprocidade.

Mauss, sem parar em sítio nenhum, segue as regras do seu escritor preferido, Karl Marx, que define já em 1861 que é a economia que domina as relações humanas, tal e qual refere Durkheim numa nota de rodapé no seu livro Les formes élémainters de la vie religieuse, página 402 da versão original, como tenho referido noutros textos4. É mais um livro do autor sobre a teoria do valor aplicada à análise da vida social. Este autor, em relação às ideias da 2ª Internacional, diz exatamente o que Dominique Colas comenta no texto citado: «On sait que Marx, quelque quinze ans avant ce bref texte de Durkheim, (dans ses Lettres à Vera Zassoulitch) avait consacré une réflexion approfondie à la structure sociale russe où il soulignait le rôle déterminant en première instance de l’Etat dans la construction du capitalisme en Russie. Une analyse que reprenait et argumentait Engels au milieu des années 1890 : il attribuait la nécessité pour l’Etat russe de disposer d’une armée moderne, et donc d’une industrie moderne au contre - coup de la défaite du tsarisme dans la guerre de Crimée  et de la même façon, - pour une époque bien antérieure - Durkheim, commentant Milioukov, affirme que ce sont « des besoins d’ordre extérieur et militaire «qui suscitèrent et développèrent l’Etat russe»5.

Eu diria que é a resposta de um sábio que, preocupado com os seus assuntos, ao seu tempo muitos e pesados, como, por exemplo, encontrar-se dedicado à preparação pedagógica da França, colaborar com o Governo Socialista de Gambetta e analisar Marx e Saint-Simon, como temos referido, de uma forma soi disant, utilitária, que é dizer, a usar a teoria e aplicar aos seus dados.

Não é por acaso que a sua análise corresponde à feita por Karl Marx e às preocupações de Engels sobre o Estado Russo e o que devia ser feito para o modernizar. Durkheim estava preocupado com o ensino, enquanto Marx, com a formação socialista. Preocupação que o levara a endereçar uma carta a Proudhon para o convidar a formar parte da Liga Comunista, a que Proudhon, ocupado com a definição da propriedade, simpaticamente responde e declina6. As ideias que tinham sobre a propriedade eram diferentes. Proudhon analisa a propriedade desde o ponto de vista jurídico e salienta o facto de se roubar pela apropriação de bens que, ao serem de propriedade de poucos, impedem a aplicação da força de trabalho de muitos, mas também pela inacessibilidade destes aos bens de produção, que mesmo a soma do trabalho de vários, não permite adquirir, pelo que propõe a ideia de todos serem proprietários privados. Marx procurava, à la Babeuf, uma propriedade de todos, coletiva, ideia que Proudhon pensou ser praticamente impossível. A troca de cartas entre ambos7 define o posicionamento oposto em que se encontravam, face à população, aos salários, à propriedade e à mais-valia, donde a recusa do convite feito por Marx a Proudhon para integrar a Liga Comunista. É possível apreciar a heterogeneidade do socialismo porque, através do tempo, as conjunturas variam e estala um movimento reformador da vida social, como sempre tem acontecido entre os seres humanos. É também heterogéneo, porque intervêm nele operariado, intelectuais, proprietários, aristocratas e abades, e todos eles com ideias diferentes, que Marx soube sintetizar nos seus textos. Enquanto a maior parte eram pessoas de ação, como Marcel Mauss e Gracchus Babeuf, Marx e Durkheim eram socialistas de cadeira que, com calma e rigor, influenciaram a ciência para informar a ação que muda a interação social.

Bem ao contrário do caso de Pierre Bourdieu, herdeiro natural de Comte e Durkheim, como se pode apreciar nos seus escritos, que não apenas vive entre os Kabila da Algéria, bem como os defende, nos anos 60, num encontro na Gare du Nord, em Paris, dos ataques franceses aos argelinos, então denominados pieds-noirs. É aí que Pierre Bourdieu acrescenta aos seus ancestrais intelectuais o que deve ser feito, na relação entre seres humanos observados. Há que objetivar o Outro, que nos objetiva criticamente a nós. Bourdieu fala de objetivar o sujeito objectivante, por outras palavras, entender dentro do seu contexto a pessoa ou grupo social que observamos e destacar os elementos que enformam o seu dia a dia. É um facto que diz que a economia é a base do comportamento, mas que têm uma base social: o ser humano não é um número, é pessoa e deve calcular para poder viver. Ideias que retira quer da sua experiência de vida com os Kabila da Algéria, quer do quotidiano da vida académica, que acaba por hierarquizar conforme o que se ganha e o lugar que se ocupa entre os seus pares. Acrescenta que a oferta e a procura é uma construção humana, derivada do apreço que se tem pelos objetos. O socialismo não é apenas o conjunto de ideologias para lutar contra o Capital ou a mais-valia, como Fourier em França e Owen na Grã-Bretanha, tinham pensado. O socialismo é heterogéneo por envolver dentro de uma causa comum, a luta contra o lucro de poucos e contra a pobreza de muitos, como refere Mauss ao definir a Sociologia Económica, que Bourdieu acabou por desenvolver bem melhor que os denominados Sociólogos económicos, como vamos ver.

Código vídeo

<iframe width="560" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/VAlIDkdNFiQ" frameborder="0" allowfullscreen></iframe>

 

 

Extratos do texto original do meu livro O Presente, Essa Grande Mentira Social. A Mais-Valia na Reciprocidade. Ensaio antropológico de sociologia económica, Afrontamento, Porto, 2008, português revisto por Paula Silva. A editora transformou o livro, sem perguntar, en um livro em português europeu porque o Diretor da Editora estimou que os estudantes lusos e os leitores, não sabiam outra língua que a nossa. Indignado, o reenviei a editora e ficou como aparece no livro original, partes reproduzidas neste texto para colaborar no debate sem sentido de António Costa e José António Seguro que lutam por ser um u outro, líder do PS de Portugal e, eventualmente, Primeiro- Ministro. Grandes dúvidas assaltam o meu pensamento, até a do fato de ganhar as eleições legislativas de 1915, um partido que tem sido a nossa esperança de retirar do governo da nação o neoliberalismo. Mas, apenas sabem debater táticas politicas e de lutar entre eles. Rande desilusão para o partido de Mário Soares e outros, que refundaram a República para entrar, os mais novos, pela avenida dos atropelos a soberania da nação e ter convertido o debate em assunto pessoal e no da ciência política: não ouvem nem respeitam a voz do povo nem a constituição do estado. PS e PSD na altura de autoridade aparecem com a mesma ideologia! Marx, Engels e Johanna von Westphalen ou Jenny Marx, são guardados en su bolso!

Raul Iturra

25 de Setembro de 2014

lautaro@netcabo.pt

1Elie Halévy, L’ère des tyrannies. Etudes sur le socialisme et la guerre, Paris, Gallimard, 1938 ou no sítio Web citado na nota de rodapé anterior.

2 Mauss, Marcel, 1936, no livro referido no texto, bem como no Website da nota 261.

3 Colas, Dominique, «Mauss et le bolchevisme», Cahiers Anatole Leroy-Beaulieu, janvier 1998, Institute d’Estudes Politiques de Paris, página 30 e seguintes ou website referido na nota 261.

4 Sobre Marcel Mauss, ver citações anteriores. Sobre Durkheim, Émile, 1812, Les structures élémentaires de la vie religieuse, ver http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/classiques/Du...

5 Colas, Dominique, obra citada, página 7 e ss. Sítio web da nota 261. Durkheim sobre Rússia no website

http://bibliotheque.uqac.uquebec.ca/index.htn

6 Proudhon, Pierre-Joseph, 1840: Que’est-ce que la propriété ? Bibliothéque National de Paris, motos de pesquisa Gallica

7 Cartas de Marx a Proudhon e as suas respostas em http://www.marxists.org/archive/marx/works/1846/letters/46_05_05.htm