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BandaLarga

as autoestradas da informação

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O Senhor José Boaventura Veiga Belinha - Uma homenagem querida

 Apareci em Portugal em Dezembro de 1980, por convite do Engenheiro Armando Trigo de Abreu e do Advogado Sociólogo Afonso de Barros, mais tarde o meu estudante de doutoramento. Dois membros da Fundação Gulbenkian de Ciência. Do Instituto da Ciência e Tecnologia, sedeado em Oeiras. Apareci desde a minha Universidade de Cambridge da Grã-Bretanha, por apenas duas semanas, para proferir uma conferência sobre os costumes e formas de vida do mundo rural na Galiza, na América Latina e na Europa. Mal sabia eu português europeu, apenas luso galaico. Foi preciso falar em inglês, a quase minha língua nativa. O Instituto de Ciências do trabalho de da Empresa de Lisboa, soube que me encontrava de visita para proferir conferências, e , nem curtos nem preguiçosos, me convidaram também para falar no denominado ISCTE. Foi o ano e a data em que o conheci. O contínuo Belinha. Estava na porta de entrada do único edifício do ISCTE nesses tempos e me orientou pelos corredores do prédio quadrado de quatro corredores e duas licenciaturas. Afonso de Barros, os Engenheiros Joaquim Laginha e Eduardo Gomes Cardoso e o Senhor Belinha, foram s meus introdutores, entre outros que mais tarde seriam os meus amigos, discípulos, colegas. Quinze dias apenas para proferir duas conferências para os cientistas da Gulbenkian e outra para os investigadores docentes do ISCTE.

 

O contínuo Belinha, uma joia de pessoa. Porque continuo? Por causa do seu trabalho:Contínuo, estafeta ou moço-de-recados em Portugal ou ainda office-boy (em tradução literal do inglês, "menino de escritório"). É o nome dado ao profissional que trabalha em escritórios exercendo variadas tarefas, como o transporte de correspondências, documentos, objetos e valores, dentro e fora das instituições, para além de efetuar serviços bancários e de correio, depositando ou apanhando o material e entregando-o aos destinatários; auxilia na secretaria e opera equipamentos de escritório (fotocopiadora, telefax, etc.); transmite mensagens orais e escritas além de recepcionar visitantes. Eu era um visitante, ele tinha que me receber e levar para os cientistas- docentes. Como de facto foi. Os anos passaram, gostei do tratamento das pessoas e pensei: em Cambridge já está todo feito faz mil e trezentos anos, e Portugal todo está para ser feito. Parece-me que o meu sítio é o país luso e não o britânico. Um ano mais tarde, transferi-me desde o Reino Unido para a República Portuguesa, apesar das mágoas e zangas de Cambridge. Apareci, finalmente, a 2 de Maio de 1981 por dois meses no então denominado ISCTE. E fiquei até o dia de hoje. Amigos, o povo luso era uma simples maravilha, era uma família, começada no caso ISCTE numa pequena casa da rotunda da Universidade Clássica de Lisboa, transferida mais tarde, em 1970, para o hoje denominado prédio antigo, porque conseguimos organizar cinco imensos edifícios para o hoje denominado ISCTE-IUL ou Instituto Universitário de Lisboa.

 

Foi em essa casa da rotunda em que começou a trabalhar José Boaventura Veiga Belinha. Como eu desde a Grã-Bretanha, ele deslocou-se desde a freguesia de Santa Maria de Lamas, Concelho de santa Maria da Feira, ao norte da cidade do Porto, porque a terra dos seus pais Boaventura Veiga Belinha e Geraldina Ferreira Veiga, não permitia alimentar todos. Tinha nascido a 12 de Maio de 1930, época da formação da República de Portugal e a sua passagem para ditadura. A pobreza transferia pessoas do norte para o sul ou para fora de Portugal. O Senhor Belinha teve essa sorte de encontrar trabalho quando começava a formar-se um pequeno grupo que ensinava ciências sociais na pequena casa, uma ciência proibida pela ditadura mas que, em 1968, Adérito Sedas Nunes convocou e juntou as melhores cabeças, quer para ensinar, quer para manter a casa limpa e um telefone que souber funcionar, com a D. Crisalda Silva, amiga do José Belinha e outros, como a D. Carmelita Cunha. A partir de 1981, as ideias avançaram, a ditadura acabou por cair e o Senhor Belinha passou a ter uma imensa casa para gerir com os seus colegas o Senhor Vítor e a sua mulher D. Zulmira e outros: os corredores limpos, os quadros das salas lavados de giz da aula anterior, as casas de banho impecáveis, uma colaboradora para a D. Crisalda, D, Isaura Raimundo, gerido entre vários pais e mães fundadores do novo prédio.

 

Prédio que começou a crescer com novas licenciaturas, mais estudantes e um corpo docente em crescimento. Imenso trabalho para José Belinha e equipa. Foi preciso trazer mais pessoal, comandado pelo homem da Boaventura, esse contínuo inesquecível que trabalhava de dia e raramente à noite.

 

Confiava em mim, como eu em ele. Disse-me um dia: Senhor Professor. O S’outor Pina Prata do Conselho científico quer que cumprimentemos as pessoas conforme o seu cargo e condição. Mas se a gente não sabe o que eles, como vamos fazer? Que os licenciados que ensinam são apenas doutores e que os poucos doutorados que há, são Professores. Que devemos por o título antes do nome. O! Senhor Professor, nem dá tempo para cumprimentar! Era um homem de agalhas, sabia da tecnologia dos altifalantes e como eles trabalhavam, das luzes dos auditórios, dos arranjos florais das mesas de júris, sempre ele e a escolher as melhores flores, com a cumplicidade do Dr. Laginha e a minha, quando era preciso.

 

Tinha por hábito levar um molho de chaves nas mãos: as salas deviam estar fechadas se não havia aulas, abertas em tempo de aula, tomar conta dos latrocínios que em época de ditadura havia muito ou assim pensava ele e me fez acreditar. Confiado em ele, fechava o meu velho gabinete se tinha que ma ausentar por tempo cumprido. Ele já sabia do meu descuido e andava sempre com uma chave do meu cubículo, para o manter fechado.

 

Foi assim que a gente de dava. Sempre almoçava no seu gabinete de contínuo chefe: o seu mal de barriga não lhe permitia comer outro alimento que o que preparava-lhe D. Conceição, a sua mulher e que transferia numa marmita especial, bem embrulhado para não arrefecer, ou a D. Conceição levava o almoço justo a meio-dia para ele comer do fruto fresco e quente, como a sua mulher gostava de fazer. Muito bem a conheci e respeitava a sua privacidade para o almoço e mandei que fecha-se o seu sítio à chave para que os Pina Prata que tínhamos, não se intrometeram na sua vida privada.

 

Ah!, Senhor Belinha, que comecei, na minha ignorância, a denominar Balinha, até ele, de forma soave e amiga, me escreveu o seu nome num papel, ainda comigo, para me dizer: Senhor Professor: este é o meu nome…. E aprendi.

 

Tínhamos um segredo. O seu desespero era a ideia de Pina Prata. O levei a um canto, e dizem: Senhor Belinha, não oiça, são doidices dos psicólogos. Diga apenas: bom dia, boa tarde e continue a andar, sempre a mirar para em frente, sem esperar respostas. Os docentes têm os seus amigos para desabafar, o Senhor tem apenas a sua família que toma conta de si, porque os seus estão muito longe, além da cidade do Porto. Cuide-se para ela, porque não tem outra….

 

Há tanto para dizer, mas em tributo nem todo se pode contar. Reformou-se no ano 2000, eu no 2012. Esta, Amigo, é a nossa derradeira conversa: a seguir será na eternidade para onde foi esta Sesta 28 de Fevereiro, enquanto dormia. Uma morte santa aos seus 83 anos, para um homem santo, ou assim o estimo eu. Desde a Eternidade, acredite em ela ou não, nos vê e toma conta de nós. Com o seu molho de chaves, o nosso São Pedro do ISCTE— IUL.

 

As minhas palavras são a testemunha da sua bondade e da sua neura calma. Cumprimentava se queria, se não, passava sempre, continuava pelos corredores vista em frente. O seu trabalho de contínuo era levado a sério e por isso era estimado. Não o fui a enterrar porque quase não consigo andar. Mas estas palavras são o meu acompanhamento. A continuidade da nossa amizade.

 

O, Senhor Belinha, recebeu-me no ISCTE em 1980. Não sabíamos que ia ficar até o dia de hoje.

 

Um abraço do seu Professor Doutor, como costumava denominar-me,

 

Raúl Iturra

 

Catedrático de Etnopsicologia da Infância,

 

ISCTE-IUL

 

Collége de France, Paris e outras ervas.

 

Avô, antes de nada

 

Seu amigo, a seguir. Se falece um docente, a bandeira Ictesiana a meia haste. Se é um contínuo, o luto vai com o vice-reitor e com os que têm dado todo pelo ISCTE-IUL…Paquete de Oliveira, Carmelita Cunha, Crisalda Silva, outros

 

Raul Iturra

 

5 de Março de 2014.

 

lautaro@netcabo.pt