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BandaLarga

as autoestradas da informação

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O meu único presépio

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Entre Caldas da Rainha e Óbidos, numa casa com quintal, pintada de branco e com bandas azuis escuro, dando para um pinhal, moravam o meu pai, eu e os meus dois irmãos mais novos. O patrão da casa durante o dia era eu, embora nos meus precoces seis anos, isso quisesse dizer uma só coisa. Tinha que defender os meus irmãos. E defendia-os, como o meu pai viu ao chegar a casa à noite e verificar que eu tinha rasgado o vestido da minha irmã para lhe atar a cabeça partida com uma pedra perdida.
Era Natal, e eu na minha casa de família perdida pelos adultos, sempre tivera presépio e árvore de Natal e meti na cabeça que teria presépio, aquele ano e naquela casa.. À entrada das Caldas havia ( e há, embora fechadas) as fábricas de loiça com as criações de Bordalo Pinheiro cujas peças com defeito eram amontoadas no seu exterior. Grande fartura de peças para o presépio, para mim não tinham defeito nenhum, sabia lá porque estavam ali à mão, a única explicação era um milagre do menino Jesus , Ele sabia bem que sem ovelhinhas, moinhos, pontes, homens e mulheres não havia presépio.
E, ali no quintal, ao lado direito da porta de entrada fiz com os meus irmãos o "nosso" presépio, bem me lembro que o Menino deixou para mim o milagre de arranjar "papel de prata" para fazer o rio que passava por debaixo da ponte. Um rapaz mais velho ( tinha uma bengala que usava debaixo do ombro, onde se apoiava) viu o "nosso " presépio e arranjou-me a prata, ele também não tinha amigos para jogar a bola, também teve que fazer o seu próprio presépio."Fazes bem, Luis, é bom!" disse-me ele e para mim bastou, alguém tinha olhado para o nosso presépio e gostara dele. Basta uma palavra, a indiferença é algo de terrível, fazer uma festa na cabeça de uma criança, todos os dias, devia ser uma das três coisas obrigatórias antes de morrer.
O meu pai, foi ao pinhal e trouxe um ramo de pinheiro e com ele fez a árvore de Natal, a vizinha ao lado fez uma estrela prateada ( depois vim a saber que "era aquela estrela pequenina a tremer de medo por cima do forte de Santa Catarina...), não havia luzes, mas havia o musgo que íamos buscar ao bosque, o azevinho de bolinhas vermelhas , as plantas selvagens, e o nosso presépio cresceu, vinham pessoas do bairro ver e sempre deixavam uma ideia, mais uma estrela, e o menino à noite por causa do frio teve direito às roupas que lhe fez a minha professora da pré-escola (bem a vi a chorar...) e o presépio já era de todos, vieram os bolos e as rabanadas, o bacalhau e o azeite, e o meu presépio já era a minha casa cheia de gente .
Não houve presentes comprados à pressa, não havia dinheiro, mas a lareira estava cercada de mulheres a cantar as canções de Natal, a todos se abria a porta, todos a desejarem "Bom Natal" , bandos de rapazes andavam de porta em porta, levavam uma rabanada ( na região das Caldas são filhós..) o meu pai era um emérito cozinheiro, a aletria da minha terra natal, e a mesa farta cheia de pequenas coisas que todos deixavam e trocavam e saboreavam...
E, naquela noite, sonhei com a minha mãe, estava feita figurinha junto ao "menino"...

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