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BandaLarga

as autoestradas da informação

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A PANTOMIMA DO DIA INTERNACIONAL DA MULHER - AS MINHAS MEMÓRIAS

 

 

 

 

http://www.youtube.com/watch?v=MqNbi8kmX0c

 

 

 

para a mulher que amo…

 

 

 

 

 

Pelo título, dá a impressão de estar a brincar com as senhoras. Longe de mim! Porque pantomima é a Arte de exprimir os sentimentos, as paixões, as ideias, por meio de gestos e atitudes, sem recorrer à palavra. Se não fosse uma mulher, eu não estava neste mundo, vivo, alimentado e crescido. Se não fosse por essa mulher, não estaria a escrever com letras e a ler o que escrevo. De facto, essa mulher a minha Senhora mãe, teve o cuidado de se sentar todos os dias com um livro denominado Alfabeto, da Editora Larouse, e com santa paciência, essa que sempre teve para mim e irmãos, cada dia aparecia uma letra nova que eu sabia desenhar e pronunciar, como hoje em dia fazem os nossos netos com os seus pais, essas nossas filhas que passaram pelo mesmo tormento que nós, já adultos. Eu aprendi em Castelhano, as nossas filhas em inglês e os nossos netos em Neerlandês.

 

Enquanto era a mãe que ensinava, tudo santo e sereno. Mas este adulto maior que um dia foi menino, já com o saber acumulado do abecedário, precisava e queria saber mais. Mimado como fui, levaram para casa uma senhora habilitada para ensinar, Dona Adriana Otárola de Miranda, aprendendo com ela o que a mãe e o pai sabiam: aritmética, história, geografia, zoologia e outros saberes que, confesso, tinha aprendido aos quatro anos sentado no colo do pai, que lia esses livros difíceis e me explicava. Se eu entendia ou não, é outro assunto. Foi preciso uma mulher jovem e serena, para me ensinar todos os artifícios que os pais não queriam ensinar pela proximidade do parentesco com o ensino. Ao longo de três anos, ensinou-me os elementos básicos do saber, para assim concorrer a um colégio privado, porque a idade, por lei, não permitia ensino em casa: os mais novos precisavam ser ensinados por estranhos, com distância e examinados pelo Ministério da Educação, por ser um colégio privado.

 

Se não tivessem sido essas duas santas mulheres, com paciência e profundidade, nada do que pretendo saber hoje, adulto maior, teria rendimento. O tempo foi passando, eu crescendo e a Doña Adriana, coquete como mulher, não queria ver os anos passar e contava que tínhamos sido companheiros de aulas e de carteira e que, por ela saber mais, ajudava-me nos estudos. Ambos sabíamos que não era verdade, mas a brincadeira colava. Hoje, com os seus oitenta e oito anos, nada mais espera, excepto o amor dos seus filhos, noras, genros e netos, e as minhas visitas, quando são possíveis. Destas mulheres aprendi não apenas ciência, mas também formas de comportamento, paz, serenidade e esse saber furtar-me aos problemas difíceis que a vida dedicada à ciência nos apresenta, e o respeito às Senhoras e às pessoas da nossa classe e fora dela. Foi assim que entendi a vida como socialista, conceito que elas não sabiam, mas praticavam por esse amor e respeito que sentiam pelo próximo. Sem saberem, fizeram de mim uma pessoa com ideias socialistas, como eu delas. A mãe não podia votar, era estrangeira; Doña Adriana, ela e os seus filhos, por respeito ao facto de eu ter sido um aluno privado e com sabedoria, respeitavam as minhas palavras e todos passámos a lutar pela classe operária. O que podem as mulheres: ela e a mãe não sabiam de socialismo, mas eu retorqui as suas palavras e, finalmente, entenderam. As minhas conversas, convencia-os.

 

Mas houve mais mulheres que fizeram a minha vida. Não consigo esquecer a minha amiga da alma, Irma Ramírez Mella, que tomava conta de nós em pequenos e que, já adultos, me ensinava matemáticas. Uma amiga do coração, capaz de sacrificar as suas horas de estudo, para me ajudar com esse meu grande problema: os logaritmos. Sempre, como mulher maior que esse rapaz que ela ensinava, conseguiu libertar-me de um facto que eu não desconhecia e, aos seus oitenta e vários anos, me contou com muita delicadeza: salvara-me dos pedófilos que andavam trás de rapazitos louros…Somente no ano passado soube dessa história, porque éramos os dois adultos e eu podia suportar a surpresa das tropelias que apenas ela, com essa sagacidade de mãe, entendia. Foi a mulher que fez mãos por mim…

 

E a minha Picunche Griselda Reyes, a minha Nana, que me ensinou a comer, a vestir, a tomar banho e não andar sujo. Mi Griselda, essa mulher que esperava por mim quando eu voltava tarde da Universidade. As minhas aulas eram de manhã e preparava-me o pequeno-almoço às seis da manhã. Mas, por eu ser dirigente estudantil, andava sempre nos bairros de lata com os meus colegas, o que não me permitia chegar às horas de jantar, mas ela esperava enquanto tecia pulôveres para mim. Marco a minha vida, ia a sua casa de campo em Rengo, uma totora com piso de terra tão limpo, que nem pó saía. Nunca casou, mas teve um filho do seu conviva, criado como filho da casa, por amor a Griselda. Infelizmente, trabalhou tanto na vida, adoeceu do coração e faleceu aos cinquenta anos. Não assisti ao funeral, já casado e com filha, por residir na Grã-Bretanha, facto que ela com grande entusiasmo, não apenas apoiou, bem como convenceu a família que era o melhor para nós, para receber-mos apoio familiar. Mi Griselda, outra mulher que fez da minha vida um jardim do Éden. Trabalhou para nós durante vinte e cinco anos.

 

Não me envergonho de contar as minhas memórias no dia internacional da mulher. Sem todas essas senhoras, ser-me-ia impossível escrever estas letras em sua honra, ou pensar como penso. Como a Tia me ensinou, essa irmã bem mas nova que a nossa mãe, que praticamente me criara e fez-me percorrer o Chile para o conhecer, sempre de mão dada – eu era um rapazito -, e aprendi com ela o que nenhuma das Senhoras da minha infância sabiam ensinar. Ainda nos comunicamos, ela com os seus excelentes oitenta e quatro anos e eu com a idade que todo o mundo conhece: está na capa de todos os meus livros…, que aprendi a escreve porque a Tia me incitava e até lia os textos que eu escrevia, desde a infância…

 

Não é apenas o dia internacional da mulher. É o dia das mulheres da minha infância que me ensinaram a vida. Como a Mãe, Avó dos nossos filhos, que, como mulher de agalhas, conquistou a sua autonomia e liberdade faz já muitos amos…até ao dia de aparecer na minha vida a mulher que toma conta de mim, com bom ou mal humor. Depende do dia…a quem dedico este texto. Outra mulher de agalhas, que nós homens que as respeitamos, vivemos, quando possível, na nossa intimidade…e dos cuidados que me dispensa.

 

Há homens que louvam as mulheres com uma pequena e maldosa intenção, eis o motivo da imagem do texto. Facto que é melhor calar, pela vergonha que causa. Facto que passa a ser segredo.

 

Louvo e honro as mulheres que têm feito a minha vida, agradeço…

 

Raul Iturra

 

8 de Março de 2014.

 

lautaro@netcabo.pt