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BandaLarga

as autoestradas da informação

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EUSÉBIO FOI A ENTERRAR - Prof Raul Iturra

 A sua história é bem conhecida por todos. Eu, apenas posso outorgar uma homenagem. A sua cara é bem conhecida por todos, como também a sua bonomia.

Nasceu dois anos e 25 dias a seguir a mim. Como eu, num outro Continente: ele na África, eu na América Latina. Saiu do seus país, da sua cidade Natal aos 18 anos e nunca mais voltou, só para as visitas inesperadas ou para um jogo de bola. Como eu. Sai do Chile nos meus 20 anos, voltei uma vez para outro jogo, o da política e da ciência, estive apenas dois anos, fui exilado e apenas 35 anos depois consegui voltar a convite do Presidente Democrático do Chile e durante bastos anos, tornei a ir. Como ele. Ele era um homem cristão e católico ferranho, como eu o tinha sido. E católico faleceu. Teve rituais católicos como honras fúnebres e aprendeu da sua fé, a ter paz com ele próprio, com os próximo, com os seus colegas, tarefa bem-sucedida no casos dele, tarefa mal sucedida no meu caso. Faleceu a 6 de Janeiro, dia do aniversário de uma pessoa a minha descendente. Foi-me impossível comemorar a minha parente ou estar com eles, ainda que bem podia, como ele. Vivia ladeado de amigos como uma vez eu morei. Como Lindley Cintra, acabou o poder, acabou a glória, ficamos sós e culpados, com ou sem razão.

 

Porque falo de Eusébio e de mim ao mesmo tempo? Porque ontem foi a enterrar após a sua morte santa no sono, resultado de uma doença mal cuidado e nunca curada. Falo do Eusébio como se fosse uma pessoa conhecida, apesar de nunca o ter visto em pessoa. Quer ele, quer eu, construímos partes de Portugal, cada um dentro do seu saber. Ele gostava da bola e largou todo para poder jogar em tempos em que tinha que fugir por ser escravo do colonialistas lusos, mas levou os luso europeus à vitória final por ser o melhor ponta de lança do seu clube, o meu também, o chamado Benfica que tem mais anos de existência que as nossas idades incrementadas. Levou Portugal ao conhecimento internacional, pela sua forma de jogar, pelos golos marcados, por ter feito brilhar o País, emprestado a mim como a ele, a um nível nunca esperado nos anos 40 e 50 do Século passado. Não era um profissional, não existia, durante esses anos, a cadeira de jogador. Era um aficionado que, mal entreva o seu pé direito na baliza dos atacantes, não saia sem ter marcado um golo para o seu clube. Fez do Benfica, um grupo pobre, um grupo profissional porque onde ia, ganhava todos os trofeus que trazia para casa, para o nosso clube, que passou a ter a fama de Eusébio, com 700 golos marcados durante os seus jogos dos sues anos de fama, poder e gloria.

 

Ser um jogador, é uma carreira de curo tempo. Chega o dia em que passamos os 35 anos e já não temos as condições para correr que tivemos aos 18. Quando cada chute do Eusébio, era um golo marcado. Era tanto o respeito que inspirava, que os atacantes sentiam-se derrotados antes do jogo começar, e assim perdiam sempre, com Eusébio na formação do clube, a seguir professor dos mais novos, mais tarde, marcando presença entregando o seu corpo e a sua santa alma, a o seu clube. Ele tinha outros compromissos que esquecia para acompanhar os seus. Formou escola. O ditador do país disse-lhe um dia que era tão bem conhecido internacionalmente, que nem devia sair de Portugal para o não perder. Foi quando começou a sua fúria de homem sereno, contra quem escravizava o país e ajudou no levantamento do 25 de Abril de 1974. Fez a História da Nação, porque já não era o País de Portugal, era o país de Eusébio.

 

Bem sabia ele, como todos nós, que estava doente do coração e dos pulmões, o resultado de uma infância mal alimentada e empobrecida pelos colonialistas. Quando Eusébio passou a formar parte do alçamento, este levantamento ficou certo. Não era um político, era um homem da bola que fez conhecer o país, porém, as suas amarguras. Bastava aparecer para ser ovacionado por su forte pé direito que sempre atacava para ganhar.

 

Que o Benfica foi usado por Salazar para estarmos orgulhosamente sós, é uma verdade que passou a história. Eusébio fez de Portugal uma Nação livre e famosa e ajudou, com esta atitude, para o derrocamento da ditadura se 50 anos, porque a ditadura não lhe permitia andar pela Europa, mas, mal acabada, foi a Itália e o Reino Unido, ganhou o mundial de 1966 para Portugal e, como Figo e Ronaldo hoje em dia, fizeram do jogo da bola uma carta de apresentação para um país tão mal tratado como nos o fomos. Conquistamos Portugal, o velho continente e o novo. Eusébio foi que delineou as formas de comportamento do amantes do jogo de bola ditou as normas com o seu comportamento senhorial, um popular pobre, perseguido, encarcerado, exilado, manipulado pela PIDE. As formas do jogo da bola e o saber sobre Portugal, foram primeiro Eusébio, a seguir Figo e Cristiano Ronaldo. Ser futebolista passou, com eles, a ser uma profissão e não uma adição.

 

Eis porque o mundo o chorou; ditou as regras do bom jogar, como o fazem os novos do dia de hoje.

 

Eusébio foi a enterrar, por enquanto, no lumiar, mas é a entrada do povo ao Panteão Nacional. Como Amália. Eusébio já não manda nem o Benfica, manda é a lei e o direito.

 

Eusébio foi a enterrar, mais uma vez, mas arrebitou Portugal.

 

As palavras já foram todas ditas. Só fica uma: Eusébio da Silva Ferreira, que quer dizer a República Portuguesa.

 

Raul Iturra, 7 de Dezembro de 2014.

 

lautaro@netcabo.pt