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BandaLarga

as autoestradas da informação

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A ESCOLA DO MEU INSUCESSO

 

 

..para Darlinda Moreira, minha antiga discípula e amiga....

http://www.youtube.com/results?search_query=Schubert+A+morte+e+a+donzela&aq=f música de Scubert

Schubert - Death and the Maiden (part 1)

The first part of 1st movement, played by The Alban Berg Quartet. Once again, please forgive me for the way I've had to split this.

Luís Souta denominou-a A escola da minha saudade, em 1995; Stephen Stoer e Helena Costa: A capacidade de nos surpreender, 1993; Luiza Cortesão: Escola, Sociedade, que relação? 1998; Luiza Cortesão e Stephen Stoer: Levantando a pedra, 1999; Ricardo Vieira: Entre a Escola e o Lar 1996; Telmo Caria: A cultura profissional dos professores, 1999; Ana Benavente: Do outro lado da escola, 1987. As várias denominações, que eu desejo definir neste texto, fazem-me omitir, obrigam-me a omitir, mandam-me não lembrar o que Darlinda Moreira diz da escola. Darlinda Moreira e eu debatemos, durante anos, qual a utilidade da escola para as crianças. Especialmente para crianças descendentes de pais, avôs, ou famílias, designadas por Paulo Freire, escolas oprimida, sem alfabetização, ou, como se diz hoje, sem literacia. Referem sem literacia, entre outros, Filipe Reis, 1997: Da antropologia da escrita à literacia, na Revista Educação, Sociedade e Culturas, trimestral, Afrontamento, Porto; António Firmino da Costa e Ana Benavente, em 1996, redigem um parecer sobre: A literacia em Portugal. Resultado de uma pesquisa intensiva e extensiva; Augusto Santos Silva em 1994: Tempos cruzados. Um estudo interpretativo da cultura popular, e Fernando Madureira Pinto, 1994: Propostas para o ensino das Ciências Sociais… Ou João Ferreira de Almeida e equipa, sobre os socialmente excluídos, no texto de 1992: Exclusão social. Excluídos do quê e de quê?

Eu diria, simplesmente, do saber social, da capacidade de entender o que Darlinda Moreira chegou a denominar, a mais básica das relações, a da interacção social. Explicada e definida por Émile Durkheim, em 1893, La division du travail social e em 1924: Le socialisme, ratificada por Marcel Mauss em 1923-24: Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques, seguida por Pierre Bourdieu, em 1993, na obra coletiva La Misère du monde, que me oferecera, e na sua de 2000, Les structures sociales de l’économie. Uma escola para o insucesso, uma pedagogia do oprimido, parafraseando o nosso Mestre, Paulo Freire, uma escola que controla a força de trabalho de forma erudita. A escola tem utilidade pública quando ensina os meandros da cultura portuguesa e universal, a todos os seres humanos em geral. A escola é homogénea, se nela todos são iguais e usufruem do mesmo saber. Parafraseando Stephen Stoer e António Magalhães, somos, orgulhosamente, filhos de Rousseau. Mas, de qual Rousseau? Do republicano, do das Luzes, do Emílio, do entusiasta Jean-Jacques que queria as crianças nascidas, criadas e limpas, antes de as ensinar? E de qual igualdade, a das Luzes? A dos direitos do cidadão de 1791, que, até hoje, não se materializaram?

A escola do insucesso é o melhor qualificativo para uma instituição que nasceu para igualar os seres humanos no saber, mas que enveredou pelas ruas da diferenciação heterogénea das classes sociais. A escola do insucesso é frequentada pelos descendentes dos iletrados, dos iletrados de direitos e dos iletrados de posses económicas para reproduzir a vida. Iletrados não de palavras, mas de ideias que os impedem de entender um fenómeno como o da globalização. Uma instituição que é suposta dar carinho, acolhimento, simpatia, lar, aos excluídos, descosidos, diria eu, da nossa sociedade. Porque a escola acaba por ser obrigatória, para aprender o que o investigador académico tem prazer em descobrir e o docente de todos os ciclos, prazer em ensinar.

A escola é do insucesso calculado para criar a força de trabalho necessária para as indústrias funcionarem, trabalhando em horários diurnos ou nocturnos, com base em salários que, já em 1890, Durkheim referia no seu: Leçons de sociologie physique de mœurs et de droit, Bordeaux e Istanbul, (há versão portuguesa de 1984, intitulada Sociologia, educação e moral, Rés editora, Porto, como Mauss em 1923-24, no ensaio já invocado, promotores de mais valia para os proprietários e de miséria para o operariado. Quem, ao saber desta experiência social, ao saber destes factos, dentro dos quais o Estado é sempre devedor à maior parte da população, denominada cidadãos, quem, dizia, quer ter sucesso na escola? Vivemos a época da propriedade, da posse, de mostrar o valor a mais do nosso saber e a capacidade de mandar com autoridade e segurança. Essa segurança que, como diz António Nóvoa no seu texto de 1991: Profissão Professor, falta ao docente: nunca sabe se o seu trabalho continua e em que sítio ensinará. A escola é uma guerra entre o saber cultural e o saber erudito que se tenta impingir aos indivíduos mais novos de todo e qualquer lar, saber erudito que nunca teve a precaução de entender antes de falar, esse saber escondido na mente (conceito definido por mim em 1990) do estudante e da sua família, do seu bairro, rua, aldeia ou etnia. Um saber menosprezado, como refiro noutro texto, por ser conveniente para incutir o saber devido porque a lei o define, porque um conjunto de académicos bem remunerados, define em instituições que custam mais do que cem declarações do IRS. Especialmente, o saber do cálculo. Quanto mais longe da economia, mais certo passa a ser o poder do investidor, porque, a quem menos saiba, menos dinheiro é pago ao fim do mês. Caso não haja desemprego, despedimentos ou falências.

A escola da minha saudade, como diz Luís Souta, é, para mim, autor deste texto, a escola da igualdade. Escola semelhante às privadas como o Colégio Moderno de Maria Barroso, os Maristas, os Salesianos e outras, que custam imenso dinheiro, de acesso proibitivo ao povo, ou, por outras palavras, ensino especializado vedado ao povo. A escola do insucesso foi criada para produzir a força de trabalho de toda a nação. Essa que divide o grupo social numa minoria de intelectuais e numa maioria de operariado, com amplas possibilidades de desemprego. Análise estruturada pela Doutora Darlinda Moreira, ao longo de dez anos de trabalho comigo sobre a teoria da etnomatemática, que soube facilitar a sua aprendizagem para os descosidos de Portugal, através dos livros que tem escrito, trabalho de campo ao longo do tempo e de idas a bairros de lata, acesso possível apenas à noite: de dia, trabalha na vida académica. Uma obra pia, diria eu, nada ganhava com esse ensino, mas conseguiu estudantes sabidos em números, teoremas e logaritmos.

A miséria do mundo começa, para o estudante, no seu insucesso. Provocado pela diferença de classe social da origem dos saberes que são obrigados a entender, queiram ou não, estejam ou não dentro da sua cultura ou comportamentos habituais. Não têm eco em casa desse novo saber, apenas sabem algumas letras, motivo que levou a minha antiga discípula a mudar de táctica e ensinar os pais, como Paulo Freire e eu fizemos em tempos, e ela com Rogério Roque Amaro, académico do ISCTE, um perfeito amigo, a sacrificar-se sempre pelos outros, como Darlinda começou a fazer e ganhar o seu doutoramento em etnomatemátia, na base deste trabalho de campo.

A decepção de Darlinda e do Rogério foram grandes. Adquirir saber, não rendia lucro. O que o povo precisava era de dinheiro e a matemática ou a leitura, não colaborava em construções de casas, trabalhar com o corpo para ter um ordenado pobre mas decente. O saber começa a ser abandonado. Não é a lei quem manda, é a economia e o sistema de classes hierarquizadas conforme as suas entradas em rendimento monetário. O nosso país está em falência por falta de saberes, o nosso país é o que assiste à maior taxa inconclusiva do currículo escolar. O insucesso é a miséria do mundo e é causado pelas estruturas sociais da economia ou, como eu denomino, a reciprocidade dentro da mais-valia.

O insucesso não é da escola nem dos seus docentes, é por causa do neoliberalismo que, seja da direita ou da esquerda política, nos governa. Ou melhor dizendo, nos desgoverna. A economia e a pobreza conformam a escola do meu insucesso…

 

Raul Iturra

Reescrito e atualizado para o acordo ortográfico, a 8 de Novembro de 1203

lautaro@netcabo.pt

 

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