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BandaLarga

as autoestradas da informação

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A PEDAGOGIA DO OPRIMDO AS MINHAS LEMBRANÇAS DE PAULO FREIRE

 1. Uma noite.

 

Eramos um grupo de sete ou oito pessoas. À noite. Quando os camponeses têm que sair de casa e entrar numa sala de aulas. Eramos sete ou oito; seis deles, calados e de vista calmai, sobre a mesa. Inquilinos chilenos, picunche, huilliche, ou com um certo ancestral ibérico. Mãos no colo, chapéus na cabeça, manta sobre o corpo – um poncho. E eu perguntava: "os vossos filhos vão à escola?”, eles, olhos fixos na mesa, dizem "Sim". Monossilábico. Difícil de falar. Difícil de conversar. E eu, "a qual?" e eles " a do fundo". Silêncio. E pergunto: "e os filhos do patrão, também?" E eles reagem vivamente: "Não, não, nem pensar! Eles vão a um colégio bom, lá longe, em Santiago. Aí onde nem castelhano se fala...!" O que era dito com orgulho e brilho nos olhos. E eu, "Mas, de certeza, os vossos filhos aprendem também outras línguas" "Não os nossos filhos não, são muito burros", com raiva respondem dois. "Burros?", pergunto. Responde um, "feitos por nós!". "E para quê?". "Para que saibam trabalhar, pois", diz o mais calado, esse ao qual eu endereço a pedrada "Burro como o senhor que nem sabe castelhano...", digo com reticência. Ao qual ele diz "que os meus pais não me tinham deixado ir à escola, para trabalhar com eles", "e para eles" acrescento, "porque havia que dar trabalho para o patrão, pois iñor", me diz com força. "Não sabe que se não dermos ao nosso pai tempo para trabalhar nas terras do senhor, o pai, a mãe e nos, iamos à rua?”. "Ir à rua, ir à rua, ser despedido?" pergunto, e todos dizem "pois". "Então o patrão é má pessoa!", sai da minha boca. "Oiça, não, ele até nos dava presentes para as nossas mulheres, e pão às sextas-feiras". "Presentes e pão, de favor?". "Pois". "De favor", reitero. Silêncio. Calam. Pensam. Calo. Silêncio. Pego no giz, escrevo "o patrão é bom" e desenho uma figura de homem com uma auréola na cabeça e digo "o São Patrão", e todos riem, e às gargalhadas quando eu reitero a santidade do homem. Esse que ia “às ‘Uropas’ todos os anos” aí onde “eu nunca tenho colocado os pés” conclui depois de duas horas de compararmos a vida deles com a do proprietário do latifúndio, o "patrão, dono do fundo". E assim, pela noite dentro, até repararem como é que eles tinham esses operários sido usados e abusados. Um resornar me diz que um já dorme, e fechamos a sessão.

 

2. As noites.

 

Das sessões de debate de conceitos chave na epistemologia rural: trabalho, salário, lei, viagens, lazer, filhos, escola, aviões, família, outros. Genealogia deles e do proprietário; contexto deles, e do proprietário; descanso deles, e do proprietário. Sindicato. Direitos. Cadeia. Polícia. Deus. Ordem. Disciplina. Igualdade. A lei do mais forte. A estratégia do mais fraco. O medo e a liberdade. Tecnologia. Animais. Como curar esses. Como fugir da maquinaria, que bate e parte os ossos. Método comparativo, na observação participante do convívio quotidiano nas casas deles, de noite a noite, periodos prolongados de convívio. Método relativo, quer para eles entender, quer para eu entender. Realativização do sentir mais forte, o etnocentrismo, esse ideial de nos, que não permite a comunicação, hierárquicanmente organizada. E as noites. E as noites que permitiam essas noites de debate e transferência de entender o real contextualizado de cada um, de esses compatriotas separados pela Historia da formação do seu estrato. Essas noites, quando reunia sob árvores do mato, aos homens das mulheres com as que eu falava durante o dia, enquanto andava e andava pelas caminhos rurais. Essas mulheres que davam chá e perguntavam a vida. Esses homens que apareciam quando ninguém podia vê-los , chapéus sobre a face, lenços para esconder, disfarçar, o queixo. O medo á divindade da lei policial do patrão, a divindade que repressentava a pessoa do patrão – o proprietário de terras e pessoas. Essa frase, que tanto ouvi durante meses de trabalho de campo, proibia que se identificassem uns aos outros. Até nem falavam, porque “sabe-se lá se o senhor, ou qualquer um, não vai contar isto ao patrão, depois, pui inhor" diz um, na sua casa. Eu, inexperiente, percebo que não sabem que têm direito à terra, que podem denunciar o patrão e ficar com quintas do latifúndio, serem co-proprietários e deitarem fora o grande absolutista fundado e instituido pela invassão ibérica do século XVI. Inexperiente. Pelos meus anos.Pelo costume de classe que ia comigo. Inexperientes eles. De pensar que podiam agir e avançar para dentro da produção conjunta da terra própria. Inexperientes. De que a lei permitia essa mudança. Inexperientes da mudança e a temer a punição divina e terrena. Inspirado, levo a passear pela zona ao Bispo, meu amigo, sem Mitra, anel ou báculo. De preto, ao de roxo. E aos Padres.Para dizerem Missa no meio das pessoas e na sua língua natal, sem latín, a língua Romana Universal. Inspirados, agimos mão na mão de Paulo Freire, durante horas, as ideias e os gestos, para procurar uma alternativa possível para hábitos históricos rigidizados no tempo, pelo tempo. Estruturados no ideal, na cultura rural, na cultura urbana. Noites dos anos 60, primeiro, e da época da Sua Exelência, o Sr Presidente da República Dr. Salvador Allende, depois. Quando os inquilinos camponeses, quer huilliche, ou picunche, ou mapuche mestizo, quer chilenos genéticamente mesturados, ou chilenos com um certo ancestral ibérico, nenhum deles sabia entender de que tinha poder político. A rigidez cultural da Historia, o não permitia. Para o nosso desespero, feito serenidade no relativismo cultural do trabalho de campo.

 

3. Os conceitos.

 

 

Era o que o Paulo costumava insistir que deviam ser usados. Os conceitos das pessoas. Não os das teorias das ciências. Mal entendíamos nós, os seus etnocêntricos discípulos, de que o camponês, ou o membro de um bairro de lata, ou um membro do Sindicato de alguma indústria, fossem capaces de terem teoria. A teoria era fruto da experiência. Qual, a dos inquilinos? A vida, diz Paulo, a vida é a experiência. E é na vida que são retirados os conceitos, no convívio com as pessoas: no ver, ouvir e calar, até saberem bem o que se fala e o conteúdo da conversa. Esse conteúdo da conversa é o que é para debater. A literacia de hoje, a antiga alfabetização na qual tantos trabalhamos no mundo todo, está em fornecerem às pessoas os textos que manipulam no seu quotidiano. A literacia não é o ler e o escrever do alfabeto. Alfabetizar é deixar esclarecido – consciente – na mente popular, o que a mente popular fala todos os dias, se dar por isso. A oralidade debatida, é a melhor aprendizagem para a acção. De todas até agora invocadas no texto, esta foi a melhor frasse do Paulo. A mais pedagógica para nos, para os alfabetizados do mundo, a seguir. Acção que é entender o funcionamento da terra, que é vista e trabalhada pelo costume,mais que pelo hábito de fazer a seguir o debater. Porque o hábito era, por séculos, de fazer sem debater, de fazer por ver: o que não se explica, não fica consciente. E o debate faz consciente. Consciente está em vós, acrescentava o Paulo, o método teórico, esse com o qual, os vossos pais e os seus amigos, vos refreiam a espontaneidade e as iniciativas. Isso é que é preciso aprender para depois relativizar. E o relativismo para vós, é ouvir, ver e calar.Nunca ver, ouvir, calar, sentir, pensar, agir. Mas, os vossos vos travam. Porque o que é sabido na ciência, não mobiliza ninguém, não é bandeira de luta, mas sim do vosso luto pela perda dos afectos, do luto rural e popular, pela perda do saber reprodutivo. E assim foi que fomos separando o nosso ideário social, e o popular. O popular não era social, nem podia ter esse luxo de partilhar, capaz de desestabilizar o trabalho caridosamente permitido pelo patrão. Era altamente individual, para poder estrategizar comportamentos com novos recursos, a serem usados em silêncio, ou no silêncio doméstico. Para ganhar, com a ventagem da producção melhorado, o favor do senhor. Era altamente genealógico, da memória do que os pais e os avós faziam, para fazer outra vez. Em grande silêncio, aprendíamos a viver com eles, e a fazer uma lista dos temas conscientes nas palavras, e dos não conscientes no agir, para depois debater. Primeiro, com o Paulo e nós; depois, com os grupos que estudávamos. Quando eu aprendi que estudá-los, era ouvi-los sem comandar. E debater depois deobservar, ouvir, calar, sentir, pensar, debater, agir.

 

4. O debate.

 

Resultava sempre da correlação entre a genealogia dos indivíduos do grupo, e que no tempo dos seus, tinha acontecido. Não era suficiente traçar o genograma; ao pé de cada geração de pessoas, escrever os acontecimentos históricos relevantes que tinham sido o contexto da vida da pessoa ou pessoas conhecidas. E genogramas dos proprietários das indústrias ou latifúndios, para comparar. Comparação de genealogias em genogramas contextualizados, sem comentar. Porque o comentário do alfabetizador, investigador o professor das escolas ou grupos de debates organizados pelo País fora - Paulo no Brasil, na Tanzânia, no Chile - Eu, no Chile, na Escócia, na França, em Espanha, na Galiza e no Portugal especialmente, na Inglaterra. Metodologia não destinada a fomentar raiva nem ódio, nem desreipeto de si e dos outros: isso, era impossível de gerar em pessoas que tinham uma hierarquia vincada de emoções e de estratos sociáis. Amor aos progenitores e amor aos descendentes, emoção que era a metáfora do pão, do vestido, da protecção. Pão, vestido e segurança que estavam adstritos ao proprietário dos bens pelas próprias pessoas, cuja memória individual reproduzia a História ouvida aos avós, que contavam o que os seus avós já tinham referido: dezenas de anos de factos reproduzidos iguais, semelhantes, sempre com um senhor à cabeça. Senhor que sabia que isolar a sua hierarquia de visão e ouvidos do povo. Senhor que era temido, e por isso amado, para que a sua mão não fosse bater nos pobres, que ficavam sem vestido. E dos senhores só era bom falar para desmistificá-los, na medida que o debate comparativo mostrava de quem a vantagem, de quem a perda, e no quê. Ensinar raiva não só não era possível. Não era também preciso. Havia já raiva histórica nas pessoas contra histórias sabidas de si próprias, contra os mais próximos que não queriam entender. E uma ausência de identidade entre o motivo da raiva, e a relação ou interacção que a causava. Aprendi que só as crianças eram capazes de dizer quem era o culpado da miséria, quando brincavam. E aprendi que a festa, o carnaval, a procissão, o ritual interactivo, permitia as pessoas desabafarem e definir o perfil de quem faz dono, e no que é que faz. O aprendí do Paulo, que sempre o comentou.

 

5. As mulheres.

 

Eram as mais espontâneas. Falavam sem medir as palavras. o seu estatuto de seres inferiores, assumido desde cedo na vida. De seres do pecado, do demónio, do mundo e da carne, o facto de serem bruxas, precissadas de serem batidas e mantidas á distancia – excepto para procriar sem desejo com a mulhar sacramental e para apagar o desejo com a mante e a prostituta, conforme a Concilio de Trento do Século XVI tinha escarafunchado nas mentes católoicas colonizadoras e colonizadas – Mulheres situadas conjunturalmente em uma situação privilegiada para falar mal para falar dos outros, mal. Para os mexericos, para as conversas de análise do perfil dos donos, para transferir a informação. É o que cedo apredemos, de que eram pessoas a saber mentira ou verdade, mas a saber por entender contextos observados sempres, desde fora. Mais de mil senhoras, andaram nos cursos que, com a metodologia criada, organizámos durante a época em que estive no Chile, quando Allende. Lá iam elas, às sessões da nossa Escola Camponesa, organizada no campus rural da nossa Universidade Católica do Chile; e, orgulhosas de serem universitárias, colocavam a tiara académica como uma algema. Algema que as fazia falar. Debatíamos com elas o conceito trabalho. E o conceito igualdade perante o sexo masculino. De trabalho, nem queriam dizer um ai, porque era muito pesado. Quanto aos seres masculinos, eram tontos porque nem reparavam que elas mandavam e eles calavam: a comida era com elas; as crianças, criadas por elas; o trabalho a fazer, aceite por elas. A vertigem que em 1973 me levou outra vez fora do Chile, queimou os meus registos e os quilómetros de fita que, com Blanca Iturra e Nilsa Tapia, as minhas assistentes, fizemos. Mas, ficou a memória que me permite escrever estas linhas. Essa memória sintetiza-se no dito; e na lembrança das mulheres a dizer: "Oiça lá, Don Raul, não fale mais, que já nem quero voltar a casa! Hacha Deus, para que as paredes explodam e tudo venha ao chão!". E dois maridos que dizem um dia: "então, o senhor é o professor da minha mulher? Mal raio o parta! Antes, era eu a mandar, agora tenho que consultá-lo todo". Enquanto o outro acrescentava "Ainda bem, Don Raul, já não sou só eu a ter que pensar em tudo". O Paulo tinha-me ensinado a base; a pesquisa, materializou-me as ideias. O terramoto social que o neoliberalismo lançou no Chile a 11 de Setembro de 1973, acabou com a experiência de dois anos. Quer Paulo Freire, quer eu, a sair. A sermos deitados fora: ele, por ser estrangeiro. Eu, por ser chileno estrangeirado, conhecedor de ideias, muito graduado, traidor de classe, da minha classe. Deitado fora pelo Pai, pela junta dictatorial, pelas espingardas que iam fuzilar as ideias que mudam o mundo, ao fuzilarem á pessoa. Conseguimos fugir: Paulo, pela Embaixada Sueca; eu, pelo grande Pai que tive, Jack Goody e o meu hoje reformado Bispo, esse que ia de preto as popluções, Carlos González Cruchaga, hoje difunto como o próprio Paulo. Uma filha nasceu-nós, a filha do símbolo da vida renoveda. Companheira deste continuado exílio. Mulheres nossas, que tomaram conta de nós.

 

6. Os homens.

 

Tímidos. Muito tímidos. A esconder a fraqueza trás o silêncio no lar, a bebedeira com os amigos, a procura de outras mulheres não vinculadas a eles pelo ritual, a lei ou a maternidade. Até que um filho de outra nascia. E passavam a alimentá-lo, com o saber da outra mulher. Tímidos. Mas, apenas, tímidos. Porque cedo estavam já no trabalho da horta da casa, para depois ir trabalhar a terra dos senhores primeiro, a comunitária ou a colectiva depois. Ventura tinha por hábito sair de manhã noite, a regar, lá em Huilquilemu, no sítio onde ficavam as, agora, suas terras; enquanto Margarida, a sua mulher, preparava a comida do dia e tratava dos animais domésticos. A minha vida com eles, ensinou-me a trabalhar conceitos rurais, da forma que o Paulo tinha definido nas nossas conversas. E ensinaram a ler o texto que o quotidiano, tecia. Foi essa amizade de morar em casa deles, no Huilquilemu de Talca, Vale Central do Chile, a que me mandou, um dia, mandar parar as suas actividades: fartos de não poderem ler nas suas vidas o uso da tecnologia para o trabalho produtivo das terras, iam Margarida – guiando ao seu homem Ventura - e este, aos outros todos, para devolverem as terras expropriadas ao senhor, para o Estado. Sorte teve em saber, entender a desventura do que viviam como proprietários-produtores, e, a usar as suas palavras simples, pedir para voltarem para trás. Voltaram. E eu sei, com alegria, que tinha aprendido, tinha colaborado assim, a não aceitar uma derrota popular tornar-se pública. O que me esqueci desse dia, foi que o Paulo tinha dito mil vezes que o poder político estava na apreciação do povo e não na estrutura do poder. Embora o poder tiver armas e, o conjuntural do tempo, inimigos com armas mais poderosas. Porque o poder era constituído por ideologias sem experiência dos factos íntimos das consciências pragmáticas do quotidiano. Lembrei, e escrevi o artigo – mais um –, que a nossa Revista Chile Hoy, com a Marta Harnecher, publicara: A reforma agraria, uma medida impossível: a greve dos conchenchos. (intermediários dos produtos agrícolas). Os homens tímidos tinham a força para defender os seus interesses. Na prisão, Ventura disseme: "isto é assim, porque Deus está zangado por nos revoltarmos contra o patrão, o seu representante", e eu tímido de medo, pedia para ele calar. Contra as ideias do Paulo. Essas, de nunca abdicar e enssinar com os factos. Agir. Mas, sem debate? A conjuntura tinha mudado. Ventura viveu, a matar a fome. Eu, escrevo hoje, 25 anos depois, dos trinta e três que sou um outro, sem mais raiz do que este textos. Paulo, voltou a sua terra, a esse Recife onde foi para a Historia. Os homens, fracos. Somos todos fracos, quando há um outro que manda. Os meus, eram fracos antes, durante, depois. Fraqueza, fruto da falta de entender o debate. Do peso da cultura. Da falta de estrutura política que acompanhe, essa outra frasse do Paulo Freire.

 

7. Um oprimido.

 

 

Que fez pedagogia: Como digo no meu comentário mais à frente. Oprimido, porque andou no exílio duas, ou mais vezes. E porque o seu contexto oprimia o seu espírito: uma família toda, a sentir saudades da Pátria, para tornar as saudades logo a seguir. Um fez pedagogia, no entendimento do seu contexto derivado do contexto, e compreensão do mesmo, dos outros. A sua metodologia é, – viva como está na sua obra –, retirar uma palavra central do vocabulário usado no quotidiano, para torná-la explícita na consciência histórica da pessoa e dos seus convivas. Uma pedagogia de explicitar o que está consciente, mas sem palavra para entender o que se diz. Tem a ver com a psicanálise, como foi exprimido por ele próprio, apenas com o modelo. Freud tirava dos sonhos e das palavras, as reminescências que tinham ficado guardadas no inconsciente. Freire, retirava a palavra e a contextualidade da História e da experiência. Eis a pedagogia de tornar conscientes os factos: que sejam dados para quem os produz. Para esta metodologia, é preciso saber História. Economia, Ciência Política, Antropologia, Ciência da Educação, Sociologia. Como Filósofo e Antropólogo, Freire usou a teoria para construir, junto com a sua equipa, seminários de debate. Debate que ele orientava, enquanto deixava falar os que viviam no campo, a observar sem intervir. Não é só a sua obra em livros a importante. É o seu trabalho, observado e participado por tantos de nós, que é o melhor texto que, dele, li. Paulo Freire tinha a capacidade de virar para dentro da consciência da pessoa, a questão que a pessoa colocava. Como se eu perguntar, o que é o povo? E Paulo dizer "Qual é o que tu conheces", e eu começar a hierarquizar experiências alinhadas no seu saber etnocêntrico, e Paulo a desalinhá-las com comparações retiradas da sua própria experiência. Até que o conceito ficava arrumado conforme o saber de quem as perguntaava. Uma pedagogia do oprimido, aprendida no seu convívio com os habitantes das favelas de São Paulo, Brasil; e da multiplicidade de estudantes de diversas culturas do mundo, que lhe confidenciavam as suas emoções juvenis, irracionais.

 

8. As ideias.

 

Que exprimo no texto, são o mais puro da minha lembrança. Anos volvidos, até nem têm sido, para mim, fácil separarmos-nos. Paulo Freire, de Meyer Fortes, de Jack Goody, os meus mestres. É daí que eu próprio tenho desenvolvido, a partir dessas pedras, no meu trabalho pessoal.Que até posso não distinguir o meu de o deles, os meus mestres, esses que moram no altar dos meus ancestrias. E que transmito no trabalho com as minhas equipas de diversos sítios do mundo. O terramoto social de 1973, no País denominado Chile, afastou-nos para sempre. Ficamos a saber um do outro, mas nunca mais tivemos o prazer saber freiriano.de nos ver. Faz um ano, enquanto re-estudava uma aldeia galega 25 anos depois, avisam-me da sua morte. Escrevi um obituário. Era um 1º de Maio de 1997. O dia justo para morrer, esse homem que lutou, epistemologicamente pelos trabalhadores. Para dar ideias aos que lutavam politicamente por eles. É estranho, mas enquanto escrevo, a lembrança do que com ele aprendi, faz-me recordar a Teologia da Libertação. Essa que aplicamos no Chile de Allende – quando lá estive-, no movimento Cristãos para o Socialismo. E que, retornado à Europa, tenho falado aos cristãos de cá, o que me permitiu trazer os centos de chilenos. O Primeiro-ministro Britânico (Harold Wilson dos anos 70) solicitara a mim e a Fernando Castillo Velasco, meu entigo Reitor na Pontifícia Universidade do Chile-falecido faz poucos dias antes desta data, escrever numa lista de chilenos porque não queria terroristas na Gã-Bretanha. Sugerí pedir o arquivo a CIA. Uma semana depois, Dame Judith Heart, falecida prematuramente, telefona-me a Cambridge e diz que já têm a lista. Mais de dois mil Chilenos tiveram que ser acomodados nas Ilhas Britânicas.

 

Quer Paulo Freire, quer eu, pertencemos à cultura de amar-se a si próprio para amar ao próximo, essa cultura cristã à qual, no Ocidente, todos pertencemos. Foi daí que Paulo Freire retirou o seu material mais primário, para construir a sua obra teórica, em prol do socialismo. As ideias estão vivas em nós, e em miles de pessoas que fabricaram o seu texto mental próprio, a partir do Silabário para Alfabetizar, que escreveu primitivamente no Brasil dos anos 60. Quantos, hoje em dia, nem sabem que sabem pelo trabalho de campo e as conversas livres.

 

Paulo Freire entrou na Historia pela porta largo e grande, esgotado por tanta procura de tanta pessoa. Essa admiração que mata para enterrar a semente que floresce. Freire, a raíz alemã do conceito libre em língua latina. Liberdade que o fez trabalhar também no Portugal de Abril.

 

Raul Iturra

 

Professor Catedrático de Antropologia Social, Educação e de Etnopsicologia da Infância.

 

Parede, 25 de Abril de 1998.

 

Tratado a 11 do 11 de 2005, para os meus seminários de Etnopsicologia da Infância, ISCTE-IUL em Lisboa, Collége de France, Paris, Social Anthropology, Universidade de Cambridge Grã-Bretanha. Revisto e reescrito na data que aparece mais em baixo.

 

Era o nosso trabalho como socialistas, especialmente o cá narrado, durante a Presidência de República de Salvador Allende.

 

Bibliografia do texto

 

Fortes, Meyer, 1938, Sociological and psychological aspects of education in Taleland, in Africa, 1938, Vol.XI, N 4. Página web para pesquisar o facto: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Meyer+Fortes++Fortes+Sociological+and+psychological+aspects+of+education+in+Taleland&btnG=Pesquisar&meta=

 

1983, Oedipus and Job in West African Religion, Cambridge University Press. Página Web com texto: http://www.questia.com/PM.qst?a=o&d=53364421

 

1987, Religion, morality and the person, Cambridge University Press

 

Freire, Paulo: A obra está citada na Revista. Sitio para investigar: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Meyer+Fortes++Religion%2C+morality+and+the+person&btnG=Pesquisar&meta=

 

Goody, Jack, 1977, Memoire et aprentissage dans les sociétés avec et sans ecriture: La transmission du Bagré, in L’Homme, Vol XVII (I), site para investigar http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Jack+Goody+&btnG=Pesquisar&meta=

 

1980, Les chemins du savoir oral, in Critique, Vol.XXXVI, N394, Paris, Minuit. Site para investigar : http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Jack+Goody+Les+chemins+du+savoir+oral&btnG=Pesquisar&meta=

 

Iturra, Raul, 1973 El paro de Los conchenchos in Revista do Centro de estudios de agricultura y sociedad (C.E.A.S.), Chile Hoy, Santiagto de Chile. Não há página web nem há texto: todo ardeu em 1973, à morte do Presidente Allende.

 

1990: A construcção social do insucesso escolar,Lisboa, Escher, hoje Fim de Século. Motor de pesquisa: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Raul+Iturra+A+constru%C3%A7%C3%A3o+social+do+insucesso+escolar&spell=1

 

1996: O saber das crianças, Setúbal, I.C.E. (org. e escritor). Motor de pesquisa, como o prévio.

 

1997: O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral 1ª edição, Lisboa, Fim do Século. Motor de pesquisa: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Raul+Iturra+%09O+imagin%C3%A1rio+das+crian%C3%A7as&btnG=Pesquisar&meta= 2ª edição corrigida e aumentada, mesma Editora, 2007.

 

1998: Como era quando não era como sou O crescimento das crianças, Profedições, Porto. Motor de pesquisa: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Raul+Iturra++1998%09Como+era+quando+n%C3%A3o+era+como+sou+O+crescimento+das+crian%C3%A7as&btnG=Pesquisar&meta=

 

Raúl Iturra

 

Parede Portugal, 31 de Agosto de 2013.

 

lautaro@netcabo.pt

 

Reescrito para Banda Larga na data de hoje.

 

Publicado originalmente na nossa Revista Educação, Sociedade e Culturas, Nº 10, Outubro de 1998, Afrontamento, Porto.

 

 

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