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A epistemologia da infância: ensaio de Antropologia da Educação*

 

Por Raul Iturra 

Para Pierre Bourdieu,* meu colega de tantas jornadas de debate e formação de investigadores, trabalho que fez de nós amigos.

 


 

Para Pierre Bourdieu,* meu colega de tantas jornadas de debate e formação de investigadores, trabalho que fez de nós amigos.




Publicado originalmente na nossa Revista de Ciências da Educação: Educação, Sociedade e Culturas, Nº 17, Janeiro de 1994, pp 135-153, Afrontamento, Porto. O texto completo pode ser lido em http://www.fpce.up.pt/ciie/revistaesc/pagina17.htm , sitio do qual o transferi para este versão em 2003 e redigido no dia de hoje.

 

 

 

1. Introdução

 

Falar de epistemologia da infância acaba por ser um problema duplo: o problema da epistemologia como conceito que procura definir ou explicar a lógica das relações sociais; e o da infância, como processo de relações sociais de épocas conjunturais da vida de um ser humano em qualquer grupo social, cultura, hierarquia ou de qualquer classe social.

Não foi por acaso que o desafio me foi lançado. Em 1997, investigando sobre a infância, Manuela Ferreira, a minha antiga estudante do Mestrado em Educação e Antropologia do Departamento de Ciências da Educação, Faculdade de Psicologia de Universidade do Porto afirmou “… este livro… permite desenvolver novas ideias no âmbito da sociologia, considerando o posicionamento social das crianças, das infâncias vividas, em particular as características experienciadas e socialmente construídas, por forma a refletir acerca das crianças como grupo social, com é que elas se adequam ao debate sociológico e que contributo é que este grupo traz para esse debate”.[1]

Manuela Ferreira fez uma profunda análise de um texto meu lançando-me um repto para continuarmos a falar da epistemologia. Não de uma epistemologia qualquer, mas a da infância. Difícil debate este no qual é necessário retirar autores, ou procurar escrever um tratado com a limitação de vinte páginas.

 

2. A epistemologia

Este é um conceito que tem sido debatido, até à exaustão, ao longo do tempo, porque diz respeito à origem do saber. A questão foi colocada já por Tomás de Aquino nos seus comentários sobre a Metafísica de Aristóteles. No seu texto Summa Theologica, na questão 85 do Livro I, ele discute que o saber existe não apenas porque os seres partilham um mesmo atributo, mas porque pertencem a uma mesma espécie. “Que Juan y Pedro tengan la misma calidad de ser hombres, es apenas una universalidad mental, no una realidad que exista fuera de la mente. Porque fuera de la mente hay categorías de especies que no constituyen universalidad bien como hay especies que comparten formas sustantivas de ser”[2].

O problema é que Tomás de Aquino, na sua interpretação dos textos Metafísica y Categorias[3] de Aristóteles, fala das ideias inatas ou existentes em nós ao nascermos por sermos entidades lógicas que procuramos o antecedente e o consequente de uma realidade que é evidente para quem pertence a uma mesma categoria.  Somos seres que entendemos e procuramos a lógica  do antecedente e do consequente ou o denominado silogismo. Quando Aquino diz no texto citado “Juan es hombre, Pedro es hombre”, refere uma universalidade de factos existente entre os dois, situação que faria deles uma universalidade se não houvesse categorias de factos. Estas diferentes categorias, são aquelas às quais pertencem os seus antecedentes dentro da sua categoria ou espécie. A estas diferenças correspondem diferentes formas de ser ou naturezas. Para Aquino, que influenciou a forma de pensar a partir do Século XIII até aos nossos dias pela teoria denominada Escolástica, o saber ou a epistemologia faz parte da natureza própria do ser humano. Este é capaz de entender e distinguir de forma ordenada, a partir das constatações externas e de forma argumentativa, de provar a partir da denominada substancia ou especificidade do facto, a sua origem, espécie e o seu destino. Aquino não põe em causa as formas de saber, de aprender ou a epistemologia. Estudioso, tinha uma base muito determinada de pensamento: acreditava na existência de uma divindade que era a origem de tudo. No entanto, na sua época, a divindade começava a não ser suficiente para explicar todas as lógicas, ou a razão. Passou a ser necessário, pelo desenvolvimento do saber Escolástico, a prova da hipótese. Era necessário exprimir o que estava em frente a nós, pondo de lado tudo o que fosse prova da divindade. O pensamento da civilização Ocidental, como também da Oriental[4], entrou pela filosofia com mais calma que Descartes[5], Spinoza[6], Hume[7], Stewart Mill[8], Hegel, [9] Feuerbach[10] e Marx[11]. Talvez, de forma calma e serena usada por Durkheim[12], Mauss[13] e Weber[14]. Simples e direta, quase como uma criança. Não tinha que provar nada, a verdade dava-se por adquirida e governava o mundo dentro do qual os autores citados tiveram que irromper e debater para entender a realidade sem recorrer à divindade. Entre Descartes a Hegel, há duas formas de entender o real: a primeira, é liderada por Descartes e diz que a única certeza que existe, é a dúvida metódica para entender o real, isto é existem ideias inatas nos seres humanos. A partir de Hume, a realidade era a prova da existência empírica dos factos. As opiniões surgiram também divididas entre os idealistas hegelianos e os materialistas ou historicistas, que procuraram o contexto do desenvolvimento humano para entender a vida. Sabemos bem que é a partir de Feuerbach e Stewart Mill, que a lógica muda para a procura da verdade, até chegarmos aos autores que debatem os factos na interação social e as formas de acreditar simbólicas sobre a vida e a matéria. Este é o caso dos três autores citados na comprida lista antes exposta: os fundadores das Ciências Sociais, seja Sociologia, Antropologia, Economia ou outras. As provas já não são filosóficas: a partir do pensamento de Marx, Durkheim, Weber e Mauss, experimenta-se relacionar os valores económicos do mercado, como foram definidos por Adam Smith[15] que foi a base da tese de doutoramento de Émile Durkheim[16].

Desta forma, falar em epistemologia passa por um debate de centenas de anos, até chegarmos às formas atuais, denominadas positivas ou de lógica do inquérito ou da observação. Através delas, procuramos perceber a tensão da lógica da criança e a omnipotente sabedoria que o adulto pretende ter sobre o saber infantil. Este é um processo complexo e no caso das crianças, um trabalho delicado.

Não há grupo social em que não exista uma interação entre os adultos do grupo e as novas gerações que começam a aparecer. Normalmente, é dito que a transferência do saber é feita de forma institucional através da escola. De facto, a partir dos textos de Pierre Bourdieu, o sistema de ensino parece passar a ser o centro da análise para entender a epistemologia da criança[17]. Pierre Bourdieu desloca depois o entendimento da criança, para as genealogias e o sistema de ensino. Este tipo da análise leva o investigador a inquirir o processo educativo tal e qual existe na escola. No entanto, na minha opinião e como tive oportunidade de debater com este autor, o saber da criança passa pela sua forma de interagir com o mundo. Do conjunto de observadores e investigadores do laboratório que dirigiu até há pouco tempo, apenas um dos membros tem estudado as crianças com o intuito de entender a sua forma de perceber. De facto, François Bonvin escreve em 1990: “Quels sont les enjeux pour ces catégories de familles et d’enfants ? Qu’ont –elles à perdre  de spécifique à l’échec scolaire et qu’ont-elles à demander à une institution de secours ? »[18] O problema que Bonvin procura investigar é a análise da realidade feita pelos filhos de emigrantes que vivem em França. Análise feita por uma segunda geração de seres humanos que saíram da sua terra para morar numa cultura alheia, cuja língua desconhecem e cujos símbolos não são de identidade, quer para os mais novos, quer para os seus progenitores, isto é, a autoridade. A análise do conceito epistemologia passa a ser mais complexa, por causa do que se poderia chamar de “uma identidade roubada”[19]. Como analisa Gomes da Silva, os símbolos e hierarquias passam a ser outros. Os dos ancestrais não têm cabimento numa outra cultura; isto parece ser uma recusa de si próprio bem como uma recusa do outro, que é um estranho para quem passa a viver num país alheio. É a análise que faz Bonvin ao estudar crianças de origem africana residentes em Paris.

A transferência de saberes e entendimentos é parte central do conceito em análise. Esses saberes são apenas passíveis de serem transmitidos dentro do meio para o qual factos e palavras, símbolos e hierarquias foram emergindo da memória social coletiva. Se não há uma materialidade que corresponda aos símbolos que moram na consciência e no inconsciente da criança, esses saberes acabam por ser apenas uma metáfora que divide o entendimento, até uma parte dominar a outra. Tal como analisa Mélanie Klein nos seus textos: “Transferência (que) opera ao longo da vida e influencia todas as relações humanas…até as ansiedades de natureza persecutória…e incitam o medo de retaliação” · Klein analisa aqui a transferência do paciente para o analista, mas parece-me que a analogia é útil para entender a dificuldade que aparece na vida social vivida fora do lar ou da cultura da qual os símbolos e saberes são recolhidos. Como tenho defendido em outros textos, todo e qualquer grupo social procura a sua continuidade. Essa continuidade não deseja a subordinação que a infância vive nos casos analisados por Bonvin, ou por mim, quando estudo crianças transferidas para outros países pela emigração dos seus pais, ou deixadas em casa, enquanto os pais moram em outros sítios[20]. É um tipo de transferência de emotividade e conhecimento impossível, a não ser que se trate de uma transferência de conceitos julgados úteis para  a criança por um adulto que saiba agir dentro de contextos diferentes daqueles em que agora está a viver. Acaba por ser uma memória social diferida, transposta, que pertence a um outro sítio para o qual o saber original não é válido. Transferência que também  não acontece quando as gerações que interagem têm diferentes referentes de onde retiram os seus conceitos, os seus símbolos bem e muitas vezes, a língua na qual falam.

Faz já quase 20 anos observei um caso na Beira Alta, caso que sobre o qual já escrevi noutros textos[21]: uma família estava a passar as suas férias na sua terra. Moravam na Alemanha durante o ano de trabalho, os pais a trabalhar e os filhos a estudar. Como é culturalmente natural, as crianças desta família aprenderam mais facilmente a língua da terra na qual viviam habitualmente: tinham amigos na sua  rua, tinham colegas de escola, tinham outros adultos ao pé deles, isto é,  tinham uma fonte mais heterogénea de informação, quer linguística, quer histórica, quer de contexto social. Os pais, presos pelo trabalho, estavam ligados aos seus pares com os quais falavam sobre o mesmo assunto: a produção. É importante perceber que a heterogeneidade da informação dá um entendimento maior da sociedade na qual se vive e que limita a visão do futuro, quando fica enredada apenas numa atividade. Estas foram as ideias chave debatidas com Pierre Bourdieu e Henri Bonvin no seu Seminário de Paris, assim como no nosso em Lisboa e no Porto.

Não é em vão que Alice Miller[22] analisa a vida de várias pessoas que influenciaram o curso de história de uma ou de outra maneira. O caso mais delicado, é o de Adolfo Hitler, nascido de uma relação ilegítima, da sua mãe com um comerciante judeu. A história é estudada e contada de forma extensa[23], para concluir que o ódio pelos ancestrais e pelas suas condições de vida, permite desenvolver uma personalidade, um entendimento do real que, se há poder político de por pelo meio, a pessoa “faz” uma epistemologia omnipotente. Esta epistemologia procura transformar o mundo: as formas, processos e estruturas que são esperadas pelo conjunto do social ou, como Miller denomina, passar do horror escondido ao horror manifesto. Como criança, ouviu a história pessoal da sua família, e mais tarde foi criando uma história da sua vida que desenvolve no texto por todos conhecido, Mein Kampf, no qual diz, “I had to some extent been able to keep my private opinions to myself; I did not always have to contradict him inmediatly. My own firm determination never to become a civil servant sufficed to give me complete inner peace”[24] Esta citação de Miller serve para entendermos como o contexto social vai criando uma forma de ser, um pensamento de baixa auto estima e de desejo de mudar o mundo para a fantasia que ele próprio tece sobre a sua história de vida de futuro. É a luta de uma criança que não é brilhante nos seus estudos, tem poucas notas positivas e é apático na interação com os outros. Uma criança que sofre um duplo tipo de recalcamento dos seus sentimentos: o de ser marginal por ser filho de judeu, e o de ter nascido fora do laço do matrimónio. Com este duplo recalcamento, endereça as suas ideias para o mundo e constrói uma fantasia social, perigosa e perversa.[25]  O debate com os seus pais é duro, especialmente com o pai, que é um adulto cruel com o seu filho, que descarrega nele a sua própria dor de não ser o fruto de uma família normal, definida pelo contexto social no qual vivia. Esse pai tinha passado a ser um ser social “correto” na interação com os outros, mas era duro com o seu filho, batia e punia por tudo e por nada. “For many people it is very difficult to accept the sad truth that cruelty is usually inflicted upon the innocent. Don’t we learn as small children that all the cruelty shown us in our upbringing is a punishment for our wrongdoing?”[26] Isto é o que acaba por ser o testamento para a aprendizagem do ditador. Acaba por descarregar a sua epistemologia apreendida na interação familiar, dentro de um contexto social de desconfiança: da política social comunista nascida nesses tempos (ou desenvolvida nesses tempos); e dos membros da raça semita, ou judeus, por serem um grupo social com formas de comportamento diferentes da maior parte dos austríacos e prussianos deste tempo em que se desenvolve a ideia de uma raça superior, aristocrata, sem mistura, etc.

Assim também é desenvolvida a ideia do bem comum num outro país, cujo ditador é também um membro do poder armado, de baixa auto estima pela sua origem social ser mestiça e não de sangue puro dos invasores vindos da Espanha, que acabam por retirar as terras que pertenciam aos nativos: um ditador da América Latina, que nos anos 70 do Século XX assassina um Presidente democrata e eleito pela via legal e constitucional. Este ditador é um mestiço oriundo do território Picunche de Chanco, Talca, Chile. Acaba por reorganizar a trama social da estrutura da hierarquia de classes sociais para poder derrubar as famílias mais antigas, proprietárias de terra e industrias. Transferiu esse poder para os seus subordinados, ou para investidores que apoiavam a sua economia, o poder político. Porém, exercia as suas represálias sobre os que considerava opositores à verdade, definida pelo seu poder político e as ideias dos grupos sociais abastados e internacionais que o apoiavam e mantinham para com ele e para com a sua família um tratamento preferencial. Tratamento que nunca esperou e nem conhecia, devido às suas origens: uma criança sem meios, pobre em recursos tanto intelectuais como materiais.

Esta divagação, da história da família da Beira Alta para a vida de dois ditadores que mudaram a face da terra em grandes territórios geográficos e alinharam em ideias que mudaram o debate sobre a epistemologia, é usada apenas para poder entender que o que parece mais criminoso – o surgimento de ditadores -, acontece também com o comum das pessoas. Na casa onde observei a relação entre adultos e crianças, o não reconhecimento da existência dos pais como educadores competentes, passava pelo facto de os mais novos usarem bem uma língua diferente, enquanto os mais velhos tentavam manter a sua autoridade com pretensões de saberem mais e melhor do que os seus descendentes. Porém, epistemologia não é apenas um debate filosófico da origem inata, racional, empírica e dialética do saber, dos conceitos, da realidade e os seus factos. É uma metáfora teórica de académicos que se devem lembrar das formas como essa realidade é organizada e como é aprendida e transmitida entre gerações.


3. Origem do facto epistemológico

Parece ser uma contradição falar de um conceito como um facto, mas essa contradição é apenas aparente. Todo o debate sobre o nascimento do saber tem a ver com o desenvolvimento histórico da origem do saber social. A nossa civilização parecia muito satisfeita com Tomás de Aquino, por este ter descoberto a origem de todo o ser e de todo o pensamento. Pôde, como foi dito antes, falar calmamente do que pensava ser a origem da lógica. Mas, a seguir, e apesar dos cuidados existentes para manter durante séculos o povo a pensar de uma só e mesma maneira, o desenvolvimento do pensamento humano foi orientando essa capacidade de pensar para a investigação dos acontecimentos. As Universidades que ensinavam Teologia, Direito Canônico e o Código de Justiniano, Cristão e Romano, que governara ao mundo entre os Séculos VI e XIV e se estendera depois aos atuais Códigos Liberais de Direito Civil, ou Medicina, ou Filosofia, Artes e outras ciências. Acumularam saberes que dinamizaram o pensamento dos que podiam ter o tempo para dedicar aos livros. As Universidades de Cambridge (desde 1125) e Oxford (desde 1127) na Grã-Bretanha, a Sorbonne em Paris desde 1253, Salamanca em Espanha no começo do século XIII, Perugia e Firenze em Itália e Coimbra em Portugal, acumularam um saber que, muito mais tarde, passaram ao povo em forma de ensino das letras e os números. Se as universidades começam a especular e acumular provas da existência de outros saberes para grupos sociais de alta hierarquia, as escolas começam a funcionar apenas no Século XIX na Grã-Bretanha, como parte integrante da preparação para o desenvolvimento da Industria[27]. Foi este desenvolvimento que fez Guilherme de Ocam ou Ockam dizer, em 1331: “O que nós fazemos é teologia, o que fazem os nossos irmãos leigos, vamos denominar ciência” · Bem entendido, os grupos sociais e eruditos do Ocidente Cristão, tal e qual antes os Gregos, desde o Século IX os Islâmicos, antes ainda os Budistas e outras confissões religiosas, estavam preocupados com saber e o seu desenvolvimento, pela epistemologia[28].

Mas, o problema da epistemologia, é bem mais simples que todo este debate que tenho vindo a falar – sem esquecer, claro, os autores que têm analisado diretamente os pensamentos sobre a Universidade e o seu desenvolvimento do saber. Gostaria de usar uma forma lógica pragmática para definir qual a base deste saber. Todo o ser humano nasce e vive e, enquanto vive, repara que há outros que crescem, mudam e vão desaparecendo ou morrem. A tese de todo  o ser humano, é a sua vida, a sua antítese é a sua morte, em consequência, cria. Cria uma ideia denominada alma ou espírito e um sistema de estruturas hierárquicas que começa pela divindade e continua pelo contexto dessa divindade. Que eu saiba não há cultura que não tenha um sistema de símbolos para substituir a vida que, desde que tem capacidade de entender, sabe um dia vai perder. Porém, cria duas entidades dentro de um só ser: o corpo e a alma. Durante Séculos, como os historiadores têm analisado, o cuidado da salvação da alma foi o centro de toda atividade. Se a Inquisição existiu, bem como a própria evangelização de países conquistados ao longo dos Séculos, pelo Ocidente, foi para estender a parte fundamental da epistemologia cristã: a da salvação da alma. Este era o problema dos primeiros pensadores que criaram um sistema de pensamento baseado na descoberta e não na pesquisa: como coordenar a razão com a crença na vida a seguir à morte. Immanuel Kant tentou coordenar o seu sentimento de fé numa uma outra vida, com a sua lógica racional e escreveu todo um texto, que foi a base para Hegel ripostar e Feuerbach materializar[29] , como já foi referido acima. Kant procura definir a fé histórica como a fé da Igreja, que ele considera pouco importante para o sentir e o saber.  Para este autor, a religião é uma teoria globalizante do sentimento moral que intervém em toda a relação social. Desta forma a epistemologia seria um conjunto de símbolos que permite a comunicação entre os seres humanos, uma lógica que permite a interação. Uma série de conceitos que organizam os indivíduos em grupos diferentes, estratos, ou classes: um capital social, como diz Pierre Bourdieu[30], ou uma reflexão a partir de um saber teórico e de uma observação participante do terreno que permite saber os efeitos da estrutura social sobre os agentes[31]. Materialistas históricos como os já citados Marx, Durkheim e Weber, vão utilizar esta ideia para explanar a existência de grupos sociais. Durkheim é quem mais utiliza as ideias da solidariedade e do inconsciente social, cheio de símbolos dialéticos que permitem distinguir entre grupos e indivíduos. É este o conceito de epistemologia que nós vamos utilizar para compreender a relação entre pessoas de diferentes gerações em convívio permanente. Os mais novos que, por andarem a aprender as formas de vida, precisam, antes de mais, de entender a interação emotiva para depois passar a compreender a lógica do discurso cultural. A criança tem uma lógica do pensamento que lhe permite observar o mundo do adulto, ainda que o não compreenda. Gradualmente, desenvolve uma consciência de que não entende; é aí que essa epistemologia imaginária, mítica, da experiência, passa a ser um saber epistemológico  adulto. Assim, a criança acaba por crescer. Para o adulto, a lógica da criança é um caos de ideias. Para as crianças, uma tensão lógica que permite uma forma de pensar que, enquanto cresce, eventualmente passa a entender, racionalmente, a mente cultural[32]. Mente cultural, parte do saber social, que imprime o saber lógico dos conceitos ou epistemologia.


4. A infância

Foi-me pedido por Manuela Ferreira que falasse sobre a epistemologia infantil. Permita-me dizer-lhe, Manuela Ferreira – excelente analista da infância -como antiga discípula minha, um pouco mais sobre o que foi ensinar dentro do leque de ideias recebidas dos meus amigos e colegas: Stoer, Cortesão, Lencastre, Martinez, e muitos outros. Permita-me, então dizer que a infância recebe a sua epistemologia conforme a cultura em que vive. É que, para nós e por enquanto, está baseada num texto que, normalmente, um investigador descura, esquece: o Código de Direito Canônico, no seu Cânon 97 define:  “É maior a pessoa que completou dezoito anos de idade; antes de essa idade é menor. O menor, antes de completar sete anos, chama-se infante e considera-se que não tem uso de razão; completados os sete anos, presume-se que o tem” ··· Estas normas estão vincadas no Catecismo, base do saber da infância do Ocidente Romano, que abrange Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, França e o Sul da Alemanha. O resto da Alemanha e vários outros grupos em países reformados por Calvino em 1523 e 1579, Lutero em 1520, Isabel I de Inglaterra em 1587, e outros que foram denominados “protestantes” fazem-no de forma diferente. No entanto, também nestes existem formas de ensinar os mais novos. Talvez, com mais assiduidade, cuidado, respeito pelo indivíduo e pelo texto que a criança deve aprender na sua Escola Dominical, não estudam a vida apenas a partir de Bíblia nas escolas que frequentam. No entanto não há escola Britânica, Alemã, Suíça, Neerlandesa ou Holandesa (como são denominadas as Repúblicas Unidas das Terras Baixas – Nederderlands-), que não inculquem saber bíblico na regulação do comportamento. Citar Weber pode parecer fora de moda e, no entanto, na versão de Anthony Giddens, nos seus comentários, é possível ver que a denominada ética protestante passou a ser parte da base do capitalismo pela austeridade de vida que as pessoas levam: sem luxo, a trabalhar sem descanso, excepto aos Domingos, desde manhã cedo até à hora de dormir e ir ao cair da noite descansar o corpo feito para trabalhar. Porém a epistemologia da infância está baseada no capitalismo. Outro livro, descurado por nós, diz de forma clara no seu artigo 2407: “Em matéria económica, o respeito da dignidade humana exige a prática da temperança para moderar o apego aos bens de este mundo; da virtude da justiça, para acautelar os direitos do próximo e dar-lhe o que é devido: e da solidariedade, segundo a regra de ouro e conforme a liberalidade do Senhor” “que sendo rico Se fez pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza” ”[33] Acrescenta no Artigo 2403: “O direito de propriedade privada adquirida pelo trabalho ou recebido de outrem por herança ou dádiva, não vem a abolir a doação original da Terra ao conjunto da Humanidade….”, como também diz no Artigo 2425:“ A Igreja rejeitou as ideologias totalitárias e ateias, associadas nos tempos modernos ao comunismo e ao socialismo. Por outro lado, recusou, na prática do capitalismo, o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano…”[34]. Estas ideias não são apenas ensinadas, mas também praticadas na vida social dos seres humanos que aderem a Igreja Católica. Isto todo. embora esta instituição tenha acrescentado um capítulo inteiro sobre a possibilidade de errar e ser perdoado. Por outras palavras, a infância cresce dentro da epistemologia do Capitulo Segundo, páginas 319 a 340: um ser humano pode, conforme o Artigo 4:” Aqueles que se aproximam do Sacramento da Penitência obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa a Ele feita e, ao mesmo tempo, reconciliam-se com a Igreja, que tinham ferido com o seu pecado, a qual, pela caridade, exemplo e oração, trabalha pela sua conversação.”[35] Por outras palavras, o conceito de pecado, do bem ou do mal, passam a ser centrais na mentalidade da criança desde muito cedo, quer no lar, quer na catequese, quer ainda na interação com os seus pares. O conceito de pecado é central. E, um dos pecados, é a preguiça ou não trabalhar que define como pecado, no Artigo 1866, que denomina de vício. Ora bem, este texto aceita a propriedade como a ordem natural da vida ou direito natural e o trabalho, o objetivo da criação do ser humano. No seu livro já invocado, o Presbítero da Igreja Presbiteriana Escocesa Adam Smith em 1776, define no Capítulo I que o ser humano tem a inclinação a trabalhar[36] .A partir dessa ideia define que o limite do trabalho é a capacidade do mercado de absorver, com a mão invisível que regula a procura e a oferta, os bens criados por causa da divisão do trabalho.[37] Como consequência, acaba por existir uma base cultural para agir de forma epistemológica para a infância, baseada na combinação da crença do sentimento de fé e da sua vergonha de não trabalhar ou de estar sem trabalho. Sabemos que Adam Smith é o criador desta forma de pensar, com base nos seus textos, ensino e conversas. Assim como o francês François Quesnay[38], fundador do partido da Fisiocracia para salvar a aristocracia e Monarquia francesa Católicas do Século XVIII, da teoria liberal da Economia ou relação social que significa, segundo Aristóteles [39], a colaboração do lar na produção e consumo de bens. Não foi também por acaso que Durkheim, como foi já afirmado, tenha baseado a sua tese na ideia de divisão social do trabalho. Como ele próprio diz, “todos conhecem, mas foi Adam Smith o primeiro em sistematiza-la e elabora a sua teoria dos grupos sociais que trabalham e o direito que governa estas relações individuais e entre grupos”. Esta frase deriva da ideia de Smith e da pesquisa estatística do autor francês, com observação participante da indústria francesa. Todo acontece até Durkheim conhecer a obra de Marx em 1898 e aderir à lógica analítica do materialismo histórico[40]. Desta forma conseguiu uma base objetiva, externa, para criar a sua Sociologia, não ortodoxa, (que Giddens, Goody e Bourdieu souberam desenvolver sobre as mesmas bases). No caso de Durkheim, isto é notório em especial na sua análise agnóstica da religião do seu texto Les formes élémentaires de la vie religieuse, já citado. O corolário desta ideia está presente nas conclusões de Mauss do seu denominado Ensaio sobre a Dádiva, quando afirma que todo o tempo presente é uma fábula, porque o interesse económico está sempre envolvido[41].


5. Conclusão.

Adverti no começo deste ensaio, que o repto não era simples. Pelo menos, para mim. Dediquei todo um texto para discutir que a economia deriva da religião e para provar que a epistemologia da infância advém dessa teoria, num texto que espera ver a luz do dia em breve. De facto, o grave problema de nós, cientistas, é ignorar os textos básicos da nossa cultura. Hoje em dia sabemos, e com muita dor, que há seres humanos que orientam as suas vidas tal e qual nós fizemos em Séculos passados. O texto Alcorão orienta a vida de milhares  de seres, dentro e fora dos seus países e têm toda a razão de nos designar infiéis. Não por não sermos muçulmanos, mas por orientarmos a nossa vida pela mais-valia e o lucro e não pelos princípios éticos que marcam a nossa existência.

Esses textos são ensinados, de forma oral e escrita, às nossas crianças, por meio de um sistema ou processo cultural cuja base é maximizar recursos raros e caros, para podermos viver de forma condigna. É a base da epistemologia da infância. Optar, é o segredo desse agir. A nossa vida mede-se pela opção entre o investimento lucrativo e o investimento que leva à falência, conceitos que substituem ao bem e ao mal. Para podermos entender esses conceitos, fazemos da criança uma entidade subordinada ao adulto que diz dizer que tudo sabe e que tudo decide. A criança cresce com essa ideia até reparar que o seu adulto se engana tanto como ele. Foi o que procurei ilustrar com a análise da vida de dois ditadores. Infelizmente, há mais ditadores e não apenas esses dois. E há imensas crianças que estão a olhar, a “bisbilhotar” o que acontece na interação adulta para saber o que não fazer para não errar. Esta é para mim a base da epistemologia da infância, substantivada pelos meus 20 anos de trabalho de campo a observar crianças e os seus adultos, a sua interação. Vinte, dos 35 que tenho de observação participante. Idade de cientista que me tem permitido observar que essas crianças com as quais vivi na sua infância, passam a ser adultos. Adultos esses que, ou optam por maximizar, ou vão à falência económica, isto é ética, como lembra Max Weber citando Lutero[42]. A prova fica na minha tetralogia da infância, à qual acrescentei mais um livro que deve aparecer em breve. A tetralogia fica para trás e a análise progride enquanto tenciono organizar essa maravilha que é, para mim, a Antropologia da Educação, uma lógica analítica que descrevo com cuidado num dos meus livros[43].

A criança nasce com conhecimentos, sabemos agora. Não é um indivíduo, é a síntese de ancestrais, assim como mais tarde será, também, dos seus descendentes, tal como analiso num outro texto meu de que muito gosto.[44] O que a crianças não tem é palavras para explicitar o que entende à sua medida, em pequeno. Mas sabe aplicar esse conhecimento, primeiro nas suas brincadeiras e, em um dia mais tarde, no trabalho que vai necessitar para sustentar o seu lar, para poder, ou procurar, melhorar a sua economia. Economia tal e qual definiu Aristóteles: o trabalho em conjunto de todos os membros do lar, de cada um conforme a sua possibilidade, para cada um conforme a sua necessidade. A única idade socialista da vida de um ser humano, é o seu tempo de criança, como tenho defendido noutros textos. Manuela Ferreira tem analisado esta mesma ideia nos seus textos e nos preciosos comentários que faz aos meus, à laia de recensão. Também eu, à laia de ensaio, escrevo para ela, com todo prazer e ao ritmo de Bach.

Correspondência: Raúl Iturra, ISCTE, Departamento de Antropologia Social,  lautaro@netcabo.pt  

 

 

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                             1912: Les structures élémentaires de la vie religieuse, Félix Alcane, Paris.

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Feuerbach, Ludwig, (1841) 1994: A essência do cristianismo, Gulbenkian, Lisboa.

Giddens, Anthony, 1989: Sociology, Polity Press, Cambridge, Grã-Bretanha.

Gomes da Silva, José Carlos, 1989: L’Identité volée.Essais d’Anthropologie Sociale, Bruxelles, Bélgica.

Hegel, Friederick, (1807) 1998: Fenomenologia do espírito, Vozes, Petrópolis.

Hume, David, (1748) 1984: Del conocimiento, Sarpe, Madrid.

Iturra, Raúl, 1990: A construção social do insucesso escolar. Memória e aprendizagem em Vila Ruiva, Escher, Lisboa.

                         1992: “La representación ritual de la memoria oral en el trabajo de la tierra” in González Alcantud y González de Molina: La tierra. Mitos, ritos y realidades, Anthropos, Barcelona.

                         1997: O imaginário das crianças. Os silêncios da Cultura oral, Fim de Século, 1ª edição, Lisboa.           

                      1998: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto.

                      2000: O saber sexual da infância. Desejo-te, porque te amo. Afrontamento, Porto.

Marx, Karl, (1857-58) (1930) 1873: Grundrisse ou Foundations of the critique of political economy, Penguin, Grã-Bretanha.

Mauss Marcel, 1924: « Essai sur le don. Forme et raison  de l’échange dans les sociétés archaïques », in L’Année Sociologique, Nouvelle Série, Vol. I, Félix Alcan, Paris.

Klein, Mélanie, 1952 : «As origens da transferência » in  Inveja e gratidão e outros trabalhos, 1946-1963. Vol. III das Obras Completas da Mélanie Klein, Imago, Brasil.

Miller, Alice, (1980) 1983: For your own good. The roots of violence in child-rearing, Virago, Grã-Bretanha.

Occam, William of, (1335) 1985: Opera politica, Serpa, Madrid.

Quesnay, François, (1756) 1888 : Métayer ;  (1757) 1888 Les Moisons; (1758) 1888 : Le Tableau Economique in Ouvres  de Quesnay, Onchen, Paris.

Smith, Adam, (1776) 1874: An inquiry into the reasons and causes of the wealth of nations, Routledge, Londres,

Spinoza, Baruch, (1670), 1992: Ética, Relógio d’Água, Lisboa.

Stuart Mill, John, (1859) 1962: On liberty, Collins, Grã- Bretanha.

Weber, Max: (1904) 1998: La ética protestante y el espíritu del capitalismo, Taurus, Madrid

                         (1915.1918) 1998: Las religiones del mundo. Taurus, Madrid.

                     1922: Economía y Sociedad, FCE, México.

Parede, 16 de Outubro de 2001

Paris, 24 de Janeiro de 2001

Publicado a 14/11/2011

Revisto e reescrito a 29 de Julho de 2013, Parede.

 

*Pierre Bourdieu convidou-me, como amigo e na minha qualidade de membro do CNRS, para a cerimónia de entrega da Medalha de Ouro pela sua obra. Solicitei uma cópia do seu discurso, que generosamente ofereceu à nossa Revista e que foi publicado no Nº2 da mesma, em 1994. Foi o dia em que me contara que ninguém falava com ele por causa de dizer os factos académicos como acontecem nas universidades, por outras palavras, desde o dia que escreveu Homo Academicus, citado antes. São os riscos que corremos quando dizemos a verdade, comentamos. Comigo, aconteceu a partir do dia em que escrevi textos sobre a sexualidade das crianças. Malinowski, Bronislav, já o tinha feito no seu livro de 506 páginas, já pronto para publicação em 1920, mas a ética vitoriana, cuidada pelo seu filho o ei Eduardo VII, o fez adiar até o ano 1929. Era um segredo de estado que a Rainha Vitória Eugénia tinha tido um filho aos 17 anos com o Duque de Wellington, quem derrotara a Napoleão, e já viúva, com o seu camarlengo John Brown. Filho que conheci no Chile como um Senhor Smith…era semelhante a Eduardo VIII, o rei que abdicou em 1939, neto de Vitória, mas mais novo que o seu oculto tio….Amigo de família que revelara a sua identidade às senhoras parentes, por ser damas de companhia da Rainha de Espanha.

[1] Ferreira, Manuela, “Recensão de O Imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral”, in Educação, Sociedade e Culturas, N. 9, 1997, páginas 231 a 237, Afrontamento. A citação está retirada da página 237, último parágrafo. Também Manuela Malpique teve um importante contributo na formação do meu conceito de, quanto Manuela Ferreira fez nestas palavras que cito. Palavras que agradeço porque estimularam a minha pesquisa em mais três outros textos sobre a infância….e os que virão…

[2]. Aquino, Tomás, (1267-1273) 1998: Summa Teologica, Questión 85 “Sobre el conocer: modo y orden”,  artículos 1 a 8, página 773 a 778 do Vol. I, Editorial BAC, Madrid.

[3] Aristóteles, (384.383) 19988: Metafísica, Editorial Gredos, S. A., Madrid. Categorias (322) 1994, Guimarães, Lisboa.

[4] Abur Nsasr al-Fârâbî,  ou Avennasar( 959) 1964: La politique,  e Livre de la communauté religieuse ( Kitâb al-milla), editado em Beirut 1964  por Fauzi M. Najjar, introduz a lógica de Aristóteles no pensamento muçulmano ou do Islão. É comentado em 1994 em Saber religioso y poder político en el Islame, vários autores, Ed. Agencia Española de Cooperación Internacional, Madrid, 1994, bem como pelo editor de 1992 da Étique à Nicomaque de Aristóteles, no Dossier do texto.

[5] Descartes, René, Discour sur la Méthode de 1637 e Méditations, de 1641, versão portuguesa, Porto Editora, 1986.

[6] Spinoza, Baruch, (1670) 1992: Ética, Relógio d’Água, Lisboa.

[7] Hume, David, (1748) 1984: Del conocimiento,  Sarpe, Madrid.

[8] Stuart Mill, John (1859) 1962: On liberty, Collins, UK.

[9] Hegel, George Friedrich, (1807) 1998: Fenomenologia do espírito, Vozes, Petrópolis.

[10] Feuerbach, Ludwig, (1841) 1994: A essência do cristianismo, Gulbenkian, Lisboa.

[11] Marx, Karl, (1857-8) (1953) 1973: Grundrisse ou Foundations of the critique of political economy, Penguin, U.K.

[12] Durkheim, Émile, 1912: Les structures élémentaires de la vie religieuse, Félix Alcane, Paris.

[13] Mauss, Marcel, 1923- 1924: « Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques », in L’Année Sociologique, Nouvelle Série, Paris, Félix Alcane, Vol. I

[14] Weber, Marx, (1904) 1976: The protestant ethics and the spirit of capitalism, counterpoint, Londres

[15] Smith, Adam (1776) 1874: An inquiry into the reasons and causes of the wealth of nations, Routledge, Londres.

[16] Durkheim, Émile, (1893) 1977: A divisão social do trabalho, dois volumes, Presença, Lisboa

[17] Especialmente Les héritiers, Minuit, Pris, 1964 e La reproduction, Minuit, Paris, 1970, os dois textos  com a colaboração de  Jean-Claude Passeron.

[18] Bonvin, François, 1990 : Le soutien a l’enfant: les cycles d’animation périscolaire, Fondation pour la recherche sociale, Paris.

[19] Gomes da Silva, José Carlos, 1989: L’Identité volée. Essais d’Anthropologie sociale, Éditions de l’Université de Bruxelles, Bélgica.

[20] Iturra, Raúl, 1998: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto.

[21] (Iturra, Raúl, 1990 b): A construção social do insucesso escolar. Memória e aprendizagem em Vila Ruiva, Escher, Lisboa

[22] Miller, Alice, (1980) 1983: For your own good. The roots of violence in child-rearing, Virago, Reading, U.K.

[23] Miller, obra citada, páginas 142-195

[24] Citado por Alice Miller, página 158, da obra mencionada.

[25] Analisado no nosso Seminário, especialmente com o Mestre José Manuel Filipe, Doutor a partir de 2009.

[26] Miller, obra citada, página 158

[27] Para um entendimento do papel do saber universitário, ver, Bourdieu, Pierre, 1984: Homo Academicus, Minuit, Paris e La noblesse d’Etat, com Monique de Saint Martin, Minuit 1988. Para o caso Português, têm escrito de Rui Grácio, Filomena Mónica, Sérgio Grácio, Ana Benavente, Maria Eduarda do Cruzeiro, Steven Stoer, Luiza Cortesão, Helena Costa, António Firmino da Costa, Fernando Luís Machado, entre outros.

[28] Congreso Al-Andalus, Granada, 1991, varios autores: Saber, religión y poder político en el Islam, Agencia Española de cooperación internacional, Madrid. Amin Maalouf, (1983) 1984: As cruzadas vistas pelos Árabes, Difel, Lisboa e (1998) 1999: As identidades assassinais, Difel, Lisboa.

[29] Kant, Immanuel, (1793) 1992: A religião nos limites da simples razão, Edições 70, Lisboa

[30] Bourdieu, Pierre, La reproduction, op.cit ut supra.

[31] Bourdieu, Pierre et al, 1993 : La misère du monde, Seuil, Paris, paginas 116-117 e 904. (a minha tradução)

[32] Conceito elaborado por mim em 1990: A construção social do insucesso escolar. Memória e aprendizagem em Vila Ruiva, Escher, Lisboa. Na base dos contributos a este conceito de Luiza Cortesão e Stephen Stoer, que acabei por definir no número 1 da nossa Revista Educação, Sociedade e Culturas, em 1944.

[33] Catecismo da Igreja Católica de 1991, Artigo 2407, página 508, Gráfica de Coimbra Limitada.

[34] Catecismo citado, páginas 507 a 515, dentro do qual recusa as greves.

[35] Catecismo citado, página 317.

[36] Smith, Adam, obra citada, páginas 3 a 10 da versão inglesa original.

[37] Smith, Adam, obra citada, Capítulo III, páginas 10 a 15. Há versão portuguesa editada pela Gulbenkian.,

[38] Quesnay, François, (1756) 1888: Métayer; (1758) 1888 Tableau Economique ; Les Moisons, (1757) 1888 in Oeuvres de Quesnay, Oncken, Paris.

[39] Aristóteles, (c323) 1968, Économique, Les Belles Lettres, Paris.

[40] Durkheim, Émile,: “Essais sur la conception  matérialiste de l’histoire » in Revue Philosophique, Décembre 1898. Aliás, até 1902,L’Année Sociologuique esteve dedicado analisar a obra de Marx. Não é em vão que Giddens comenta no seu Sociology, Polity Press, Cambridge, 1989, p. 466:  “With the development of modern societies, Durkheim believes, the influence or religions wanes. Scientifically thinking increasingly replaces religious explanation…Durkheim agrees with Marx that traditional religion is dead «the old gods are dead, says Durkheim»”. Mais tarde, Josehp Ratzinger ou Bento XVI faria o mesmo no seu livro de 2005: Jesus de Nazaré, esfera dos Livros, Lisboa.

[41] Mauss, Marcel, 1924: Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïque, versão portuguesa de Edições 70, páginas 192 e as seguintes.

[42] Weber, Max, (1904) 1998: La ética protestante y el espíritu del capitalismo, Taurus, Madrid; (1915-1919) 1998: La ética de las religiones del mundo, Taurus, Madrid; (1922) 1993 Economía e sociedad, FCE, México.

[43] Iturra, Raúl, 2000: O saber sexual da Infância. Desejo-te, porque te amo. Afrontamento, Porto.

[44] Iturra, Raúl, 1998: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto.

 

 

 

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%C3%A9cie.%20A%20estas%20diferen%C3%A7as%20correspondem%20diferentes%20formas%20de%20ser%20ou%20naturezas.%20Para%20Aquino%2C%20que%20influenciou%20a%20forma%20de%20pensar%20a%20partir%20do%20S%C3%A9culo%20XIII%20at%C3%A9%20aos%20nossos%20dias%20pela%20teoria%20denominada%20Escol%C3%A1stica%2C%20o%20saber%20ou%20a%20epistemologia%20faz%20parte%20da%20natureza%20pr%C3%B3pria%20do%20ser%20humano.%20Este%20%C3%A9%20capaz%20de%20entender%20e%20distinguir%20de%20forma%20ordenada%2C%20a%20partir%20das%20constata%C3%A7%C3%B5es%20externas%20e%20de%20forma%20argumentativa%2C%20de%20provar%20a%20partir%20da%20denominada%20substancia%20ou%20especificidade%20do%20facto%2C%20a%20sua%20origem%2C%20esp%C3%A9cie%20e%20o%20seu%20destino.%20Aquino%20n%C3%A3o%20p%C3%B5e%20em%20causa%20as%20formas%20de%20saber%2C%20de%20aprender%20ou%20a%20epistemologia.%20Estudioso%2C%20tinha%20uma%20base%20muito%20determinada%20de%20pensamento%3A%20acreditava%20na%20exist%C3%AAncia%20de%20uma%20divindade%20que%20era%20a%20origem%20de%20tudo.%20No%20entanto%2C%20na%20sua%20%C3%A9poca%2C%20a%20divindade%20come%C3%A7ava%20a%20n%C3%A3o%20ser%20suficiente%20para%20explicar%20todas%20as%20l%C3%B3gicas%2C%20ou%20a%20raz%C3%A3o.%20Passou%20a%20ser%20necess%C3%A1rio%2C%20pelo%20desenvolvimento%20do%20saber%20Escol%C3%A1stico%2C%20a%20prova%20da%20hip%C3%B3tese.%20Era%20necess%C3%A1rio%20exprimir%20o%20que%20estava%20em%20frente%20a%20n%C3%B3s%2C%20pondo%20de%20lado%20tudo%20o%20que%20fosse%20prova%20da%20divindade.%20O%20pensamento%20da%20civiliza%C3%A7%C3%A3o%20Ocidental%2C%20como%20tamb%C3%A9m%20da%20Oriental%5B4%5D%2C%20entrou%20pela%20filosofia%20com%20mais%20calma%20que%20Descartes%5B5%5D%2C%20Spinoza%5B6%5D%2C%20Hume%5B7%5D%2C%20Stewart%20Mill%5B8%5D%2C%20Hegel%2C%20%5B9%5D%20Feuerbach%5B10%5D%20e%20Marx%5B11%5D.%20Talvez%2C%20de%20forma%20calma%20e%20serena%20usada%20por%20Durkheim%5B12%5D%2C%20Mauss%5B13%5D%20e%20Weber%5B14%5D.%20Simples%20e%20direta%2C%20quase%20como%20uma%20crian%C3%A7a.%20N%C3%A3o%20tinha%20que%20provar%20nada%2C%20a%20verdade%20dava-se%20por%20adquirida%20e%20governava%20o%20mundo%20dentro%20do%20qual%20os%20autores%20citados%20tiveram%20que%20irromper%20e%20debater%20para%20entender%20a%20realidade%20sem%20recorrer%20%C3%A0%20divindade.%20Entre%20Descartes%20a%20Hegel%2C%20h%C3%A1%20duas%20formas%20de%20entender%20o%20real%3A%20a%20primeira%2C%20%C3%A9%20liderada%20por%20Descartes%20e%20diz%20que%20a%20%C3%BAnica%20certeza%20que%20existe%2C%20%C3%A9%20a%20d%C3%BAvida%20met%C3%B3dica%20para%20entender%20o%20real%2C%20isto%20%C3%A9%20existem%20ideias%20inatas%20nos%20s

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