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BandaLarga

as autoestradas da informação

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A gargalhada que aos portugueses apetece

Aos portugueses apetece um grande gargalhada. A chantagem de Bruxelas é agora a determinação da geringonça. A austeridade de Passos é agora a sustentabilidade das contas. O controlo do défice que nos empobrecia é agora um objectivo estratégico sem o que não conseguiremos pagar a dívida .

Quando Portugal melhora à boleia de toda a Europa é mérito do governo . Quando o governo ( do PS) faz tudo o que é necessário para o país se manter na União Europeia e na Zona Euro, a extrema esquerda aponta o dedo à derrota de Bruxelas.

Não me queixo, sempre estive com a Europa e sei bem que após anos de austeridade só pode vir o crescimento ( ainda poucochinho) . Quem bateu no chão só pode subir. Mas o governo e seus compinchas acham que o mérito é terem devolvido uma pequena parte dos rendimentos enquanto subiam os impostos indirectos ( mas são as exportações malvadas que nos estão a tirar da situação). Tirar com uma mão o que se dá com a outra. Jogar a curto prazo rezando para que nada aconteça a longo prazo.

Enquanto isso, após ano e meio de governo PS, continuamos no "lixo" para onde o governo de Sócrates nos atirou. Alguma vez havemos de sair, não ?

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A DESCOBERTA DA VERDADE É UMA GRANDE GARGALHADA!

 

 

 

Para o público saber da utilidade social da Antropologia.

 

 

 

Todos começaram a rir! Às gargalhadas! Éramos vários cientistas a vender o seu peixe aos caloiros. Não era na praça do mercado, antes fosse, facilitava o debate. Era dentro de um grande anfiteatro. Por acaso, três académicos no estrado, mais de trezentos caloiros na plateia do auditório. Os peixes cheiravam de acordo com a pronúncia e a voz de quem falava. No meu caso, sempre cheirava a mar de rosas: o meu sotaque era pesado, especialmente para os mais novos, não habituados a ouvir a sua língua portuguesa, falada de forma britânica, galega, castelhana ou afrancesada. Os vendedores de peixe, muito sérios, usavam palavras caras nas suas intervenções. Caras, pelo rigor do vocabulário e a dificuldade do conteúdo.


Minutos passados foi a minha vez. Perguntaram para que servia a Antropologia? Para sintetizar devido ao meu modo de falar, (denominado por alguns alunos pelo termo carinhoso de Iturrês) lentamente respondi: "Nunca perguntamos quantas pessoas vão à Missa aos Domingos para depois juntar um grupo deles e fazer um inquérito a um número proporcional; nós perguntamos, em que dia da semana é dita a Missa, e as explicações começavam para o coitado que nada sabia de catequese dentro de um País Fatimizado". A gargalhada foi grande pela raridade da resposta e por fatimizar o país, como se fosse um assassínio maciço. Fatimizar Portugal? Mas, que laia de académico é este estrangeiro que nem sabe que Portugal é terra sagrada por ter aparecido na vila de Fátima a Nossa Senhora? Fiz cabeça de turco e pedi explicações. Não paravam. Os que por sentimento de fé diziam, os que por simpatia narravam, os que por colaborar ao saber histórico provavam, e o debate nunca mais acabava...! Tinha vendido o meu peixe, imensos caloiros passaram para o curso de Antropologia do ISCTE dos anos 80 do Século passado, como anteriormente tinha acontecido com o meu sotaque castelhano na Grã-Bretanha, ou antes ainda, com o meu sotaque britânico da Galiza. O elo era sempre atingido: começava, sem saber como e por onde, a interação.

 


Interação, como fatimizado? Não será intercalado? Não, interação era e é, esse diálogo que abre as portas à intimidade com desconhecidos, que com a sua amabilidade, gostavam de colocar dentro da sua história pessoal, o coitado que nada sabe porque vem de fora. E com cara séria mas sempre surpreendido, abria-se o diálogo entre os que sabiam muita ciência ou essa lógica metódica para avaliar o saber empírico, e os possuidores do saber empírico, alvo do cientista social. Saber empírico que se pode definir como o cálculo feito com os dedos, uma lei que é costume praticar ainda que não esteja escrita, como esse morgadio desaparecido na ciência do direito mas não entre os habitantes de uma aldeia ou vila, a economia baseada na poupança do cêntimo, estruturada na colaboração de angariar força de trabalho para semear e plantar, força de trabalho que deriva do parentesco e das histórias de vida ou, simplesmente da vizinhança, mas nunca de Adam Smith ou Milton Friedemann, saber doutoral que não tem cabimento dentro da empírea ou esse saber lógico que acredita nas experiências como principais formadoras das ideias, discordando, portanto, da noção de ideias inatas, definidas pelo saber doutoral.

 


O saber do Antropólogo é a procura do saber da economia empírica, que faz, pelo saber académico, o denominado PIB ou Produto Interno Bruto, a base da riqueza de uma nação, do saber matemático dedilhado e dos teoremas retirados da reciprocidade. Essa base obrigatória de colaborar uns com os outros. Especialmente, quando dentro de una nação há diversas formas de ser, várias etnias diferentes, porém saberes e racionalidades que não se encontram facilmente, é dever do Antropólogos explicá-las para si próprio e transferi-las para as palavras simples e quotidianas do saber da já referida interação social. O povo português, como todos os outros, não é apenas uma estirpe, são várias ao encontro da Nação. Nem uma só classe social, mas tantas como nem Marx imaginou. Saberes em desencontro que o Antropólogo tem o dever de explicar aos seus contemporâneos e aos mais novos para que possam ser cidadãos de utilidade social e não apenas operariado urbano ou rural. O elo central da Antropologia é a descoberta dessas palavras, teorias e conceitos culturais ou costumeiros, para os explicar aos formadores nacionais com palavras usadas no dia-a-dia e transferir as ideias empíricas para as ideias académicas.

 


Há muito insucesso escolar por se querer organizar uma população que pense como os doutores. O dever do Antropólogo, após interagir, em terreno, de trabalhar, suar e produzir, na vida quotidiana de um grupo social, é transformar esse saber em conhecimento erudito, simplificado e assim organizar o saber para educar e desenvolver a lógica da pesquisa dentro da lógica empírica. É assim que muitos vão morar com habitantes de outras terras, de outras nações, de outra classe social para aprender o que eles sabem. Não para guardar o saber em livros ou aulas universitárias, mas sim para explicar aos membros do saber doutoral que existe um saber paralelo dentro da lógica da mesma nação, que deve ser incorporada no que eu denomino o saber doutoral. Todo o ensino é especial e deve ter duas entradas: as da filosofia dos cientistas e a da filosofia do empirismo ou esse saber pragmático que permite acumular bens, armazenar os usos e costumes não escritos para não desaparecerem. Toda a ciência tem um saber especial para se traduzir à lógica da cultura, no nosso país, orientada pelo saber religioso pragmático. Existe a semiologia que explica o que uma palavra significa, a economia doméstica que produz e acumula património, o saber lógico da religião que orienta a interação social com palavras pragmáticas e, especialmente, o saber da educação usado para ensinar os mais novos. Saberes todos para serem usados como ponto de união entre duas culturas da mesma nação: a heterogénea do povo, dividida entre vários conhecimentos, e a hierárquica, arrogante e difícil da denominada saber doutoral, essa que vive e mora entre quatro paredes e uma biblioteca e que não permite ao povo entender. Pierre Bourdieu, que viveu infância e juventude entre os Kabila da Argélia, costumava dizer-me: Nós não somos o que pensamos ser, nós somos o que os outros pensam de nós, saber que, nos nossos debates, aparecia sempre marginalizado por ser menosprezado pela cultura doutoral, que inclui pessoas do saber empírico que, como Pierre dizia, eram trânsfugas do seu saber pelo orgulho e anseio de se ser doutor que não permite a acumulação do capital social do saber popular que, doutores ou não, vive dentro de nós. Saber que pode ser retirado com o método aplicado por Paulo Freire e por mim, ao retirar o conhecimento costumeiro, esse que parece não pensar, para o levantar às palavras e consciência do marginalizado povo, esse que é o nosso, mais uma vez, capital social.

 


Telefonei um dia a uma amiga, do grupo saber doutoral, para lancharmos juntos, disse que não podia por estar à espera de sua equipe que trazia dados para ela analisar. Era simpática e amiga, não era Antropóloga: explicava a empiria através de estatísticas. O Antropólogo tem a utilidade social de interpretar a cultura para descobrir o saber popular e acumular esse saber empírico em interação entre iguais e fornecer a descoberta do capital social do país na reciprocidade do, tu trabalhas para eu comer, eu oiço como uma árvore, surda, cega e muda, para entender e te explicar a ti e aos meus colegas, o que nós somos. Daí o saber médico do povo, da médica doutora Berta Nunes, daí o saber botânico da Amélia Maria Frazão, daí os saberes educativos de tantos, entre eles Ricardo Vieira, que auxilia o nosso Ministro de Ciência, como tenho feito eu, para converter esse capital social em formas de ensino entendidas por todos, por ter sido retirado ao saber da acumulação social a mais-valia que configura o saber social. É este papel, não reconhecido ao Antropólogo entre os doutores, que tentamos resgatar, por ser de utilidade social ao auxiliar as denominadas ciências académicas, com palavras simples do saber popular. Uma aluna sintetizando dizia-me: a Antropologia é a ciência comparada, ou do saber comparado, dos diferentes. Logo descobrir a verdade não é gargalhar, é aproveitar as gargalhadas para saber, qual de entre todos os saberes comparados, é o verdadeiro.

 


Raúl Iturra, Catedrático de Etnopsicologia do ISCTE. Investidor do CEAS, Senador da Universidade de Cambridge, Reino Unido, com a colaboração da candidata a Pós Graduação, Licenciada Ana Paula Vieira da Silva, 3 de Outubro de 2008

 

Revisto e atualizado por mim a 15 de Outubro de 2013.

 

lautaro@netcabo.pt